terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Morre o cantor de música caipira Pena Branca, aos 70 anos

Artista, que ficou famoso ao lado do irmão, Xavantinho, teve infarto em sua casa, na zona norte de São Paulo

Por: Fábio M. Michel
Publicado em 09/02/2010, 11:39



O cantor Pena Branca, durante entrevista à Revista do Brasil, em 2007. Foto: Jailton Garcia

O cantor José Ramiro Sobrinho, conhecido como Pena Branca, morreu na noite de segunda-feira (8), aos 70 anos, vítima de infarto, em sua casa, na zona norte da cidade de São Paulo. O corpo do artista será enterrado nesta terça (9), na capital.

A carreira de Pena Branca começou em 1961, quando a dupla que formara com seu irmão Ranulfo começou a se apresentar em diversos clubes de música caipira pelo interior do país. Só em 1968, porém, começaram a fazer sucesso, depois de mudarem para São Paulo, onde conheceram outras duplas já consagradas, como Tonico e Tinoco e Milionário e José Rico.

O primeiro disco, um compacto simples, foi lançado em 1970, e trazia a canção "Saudade" no lado A. Durante os primeiros anos da década de 1970 eles fizeram vários shows de abertura para as apresentações de Tonico e Tinoco, que já eram os maiores expoentes do gênero no país. Mais tarde, Pena Branca e Xavantinho passaram a tocar para grandes platéias como atração principal. Em 1987 lançaram o CD "Cio da Terra", que teve participação de Milton Nascimento.

A dupla acumulou vários prêmios, entre eles cinco Sharp e encerrou prematuramente a carreira em 1999, com a morte de Xavantinho. Pena Branca seguiu gravando e se apresentando sozinho e chegou a conquistar um Grammy em 2001.
Memória

A edição número 15 da Revista do Brasil, de agosto de 2007, publicou uma boa e exclusiva conversa com um dos maiores representantes da música caipira, considerada por muitos a mais genuinamente brasileira modalidade musical.
Leia abaixo o conteúdo completo da entrevista de Pena Branca:

O mano mais véio

Um dia o Zé Mulato falou: ‘Vamu dá um incentivo pra essa molecada cantá as nossa moda de raiz porque é muito bão!’ Passou um tempo e ele soltou esta: ‘Precisamo dá um jeito, essa molecada tá tocano viola demais, não tá sobrano pra gente. Tem que matá um poco!’

Por: Walter de Sousa

Publicado em 25/08/2007

A expressão “mano véio” tem sido usada como um pronome de tratamento por toda uma geração recente de violeiros. Especialmente aqueles que, a partir do início da década de 80, mantiveram um pé na chamada Música Popular Brasileira e uma viola debaixo do braço: Renato Teixeira, Almir Sater, Vital Farias, entre outros. Pois Pena Branca é o mais véio dos manos. Foi em dupla com o irmão Xavantinho que gravou, em 1981, Cio da Terra, de Chico Buarque e Milton Nascimento, a primeira de muitas canções de compositores da MPB que registraram nas décadas seguintes. Enfim, eles conseguiram “acaipirar” a MPB.

A mistura, sempre intercalada por temas folclóricos em seus discos, acabou gerando um público jovem que ainda hoje freqüenta e admira os seus shows. Aos 68 anos, José Ramiro Sobrinho, o Pena Branca, num caso mais que raro, segue carreira solo, após perder o irmão em 1999. Na verdade Xavantinho (Ranulfo Ramiro da Silva) continuou sendo seu parceiro, tanto que os dois discos que Pena Branca gravou sozinho tiveram canções assinadas pelos dois irmãos. O primeiro deles chegou a ser contemplado com o Grammy Latino em 2001.

Agora preparando novo disco, o mano véio recebeu a reportagem da Revista do Brasil em sua casa paulistana, no bairro do Jaçanã – a outra casa, que é a oficial, fica em Uberlândia (MG), que “considera” sua cidade natal. E contou um pouco da sua história, que é também a síntese da história da música caipira, em suas nuances e transformações. Revelou ainda as novidades do próximo disco: uma toada, um chamamé e a regravação da já clássica Cuitelinho (A sua saudade corta como aço de navaia/ O coração fica aflito, bate uma outra faia...), tema de domínio público recolhido por Paulo Vanzolini, que enviou ao violeiro novos versos para serem acrescentados à versão original.

O que é música caipira?
Olha, tem o caipira da festa junina, aquele camarada com a calça rancheira e a camisa xadrez, que passa aquela imagem do caboclo desdentado. Mas não é nada disso. E tem esse caipira de quem nós fazemos história cantando, contando a sua vida. Pra mim é como se fosse uma roda de fogueira, como se fosse uma pousada de boiadeiro, contando histórias de caçadas de onça, contando causos... Agora nem se fala mais que a música é caipira, se fala “sertaneja”. Pra mim é moda raiz, porque é dela que se tira tudo o que se faz agora... Não é, mano véio?

A música caipira, então, tem que contar uma história?
Acho que sim. Por exemplo, Chico Mineiro (de Tonico e Tinoco). Você pode sentar numa cadeira e ouvir a letra da música contada: “Fizemos a última viagem, foi lá pro sertão de Goiás...” O caipira é um camarada sentido. Ele nasceu lá no meio da roça, trabalha de sol a sol. Mas é do trabalho dele que o pessoal da cidade mata a fome.

Você e seu irmão Xavantinho começaram a cantar ainda crianças?
Meu pai trabalhava numa fazenda e funcionava assim: o patrão tinha 30 vacas e só queria o leite; o que meu pai plantasse era dele. Meu pai não ganhava dinheiro do leite, só da plantação. Isso em Uberlândia (MG). Mas eu nasci do lado de cá do rio, sou meio mineiro, meio paulista. Depois de dez dias de nascido em Igarapava (SP) fomos para Uberlândia. Era uma época em que não se via dinheiro. Se trabalhava em troca de trabalho. Eu trabalhava pro vizinho e depois ele trabalhava pra mim. O patrão não pagava com dinheiro, dava a terra para fazer a horta. Meu pai era muito controlado. Ele plantava e na época da safra é que se fazia o acerto. Ali acontecia a festa de mutirão. No fim de semana chegavam 60, 80 homens, todos de enxada na mão, e limpavam o terreno. Quando era o fim da tarde, começo da noite, começava a música.

E se aprendia com as festas?
Na época o que se tocava era viola, violão e sanfona. Quando não tinha violão se usava cavaquinho. Meu pai tinha um luxo por um cavaquinho dele... Foi nele que comecei a aprender a tocar. Meu pai e meu tio gostavam de cantar e acabamos aprendendo mais por ver eles cantando. Naquela época só tinha rádio nas fazendas. E o que eu ouvia na época era a rádio Record de São Paulo. Lá se ouvia Raul Torres e Florêncio, Tonico e Tinoco...

De onde vem o formato de duplas?
Contam que o Cornélio Pires (pioneiro na gravação de moda de viola, em 1929) reunia um pessoal para cantar numa festa, chegava e escolhia: vocês dois vão cantar. Se um tinha uma voz considerada boa, ele chamava outro para ser o “ajudante”. Na Folia de Reis, por exemplo, tem a primeira e a segunda voz, a terceira e a quarta, até a quinta. Depois vem o “contrato” (contralto). Então sempre há a dupla na música de raiz.

E vocês participavam da Folia de Reis?
Aprendi mesmo a tocar vendo aqueles velhinhos tocando viola de cravelha na Folia de Reis. Aprendi assim e até hoje não entendo nada de partitura. Toco tudo de ouvido. Só estudei até o quarto ano na escola rural. Não consigo nem decorar logo a letra. Às vezes eu faço a letra e depois não consigo lembrar... Eu tinha um medo de professor... Chegava a tremer! Sempre fui cabeça dura mesmo! Já o Xavantinho era mais aberto.

Você foi pegar mesmo na viola com que idade?
Meu pai morreu em 1951 e tivemos que mudar para uma cidade perto de Uberlândia, Tupaciguara. Éramos sete irmãos, eu o mais velho, e minha mãe passou a lavar roupa para acabar de criar os filhos. Fui trabalhar numa charqueada – hoje se chama frigorífico –, eram três meses de serviço no matadouro e na fabricação do charque e acabava o serviço. Aí vinha um fazendeiro e levava a gente pra trabalhar na roça o resto do ano. Meu tio tinha um violão e pegávamos escondido dele para tentar aprender alguma coisa. Só conseguimos comprar dois violões em 1961!

E as duplas?
Eu cantei primeiro com o Osvaldo, o irmão que vinha depois de mim, e o Xavantinho cantava com o Antônio. Minhas irmãs também cantavam, mas as músicas do Aguinaldo Timóteo. Um dia eu e Xavantinho, já com os violões, decidimos cantar no rádio. Aprendemos a cantar ouvindo Tonico e Tinoco, Zico e Zeca, Vieira e Vieirinha, Raul Torres e Florêncio, Brinquinho e Briozo. O Xavantinho não sabia nada de violão. Falaram pra ele que se quisesse aprender a tocar era preciso pegar uma cobra. Na roça a gente sabe pegar uma cobra. Pegava uma forquilha, prensava a cabeça dela na areia e podia pegar que não tinha perigo. E depois tinha que soltar, não podia matar. Eu disse: não faço isso não.

E o Xavantinho?
Xavantinho fez, deixou a cobra se enrolar nos dedos dele e ficou “desembambado” no violão. Como eu tinha visto aqueles senhores da Folia com as violas, decidi comprar uma. Aprendi as posições com eles e fiquei mais controlado. Assim conseguimos cantar no programa da rádio Difusora de Uberlândia. Perguntaram o nome da dupla e dissemos os nossos nomes, José e Ranulfo. O apresentador, Zé do Bode, disse: “Vou colocar um nome pra vocês cantarem hoje: Peroba e Jatobá”. Cantamos uma moda do Leôncio e Leonel. E eles gostaram. Pediram pra gente voltar na outra semana. Chegamos em casa e já decidimos mudar o nome. Colocamos Barcelo e Barcelinho. Um dia ganhamos um programa, nas quartas-feiras. Nos nove anos seguintes cantamos nas três rádios de Uberlância, Difusora, Cultura e Educadora.

Quando saíram de lá?
Em 1968 o Xavantinho trabalhava numa transportadora. Um dia ele foi pro Canal de São Simão passar uma carga de um caminhão que tinha quebrado para outro, que foi socorrer. Lá ele decidiu seguir com o caminhão para São Paulo. Chegou na Vila Guilherme e lá ficou por um ano. Depois me escreveu: “Vem pra cá e traz as violas que aqui vai ser bom pra nós!” Cheguei aqui em 1969 e fui morar num cômodo que tinha no fundo da transportadora. Trabalhava até tarde e depois ensaiava. Nos fins de semana fomos descobrindo onde tinha os festivais de viola: São José dos Campos, Mogi das Cruzes, Taubaté e Guarulhos, onde ganhamos o nosso primeiro troféu.

Foi aí que vocês entraram para a Orquestra de Violas de Guarulhos?
Isso já foi em 1976, 1977. Aí tinha uns shows da orquestra com a Inezita Barroso. Em São Paulo tínhamos o nome de Xavante e Xavantinho. Mas aqui já existia um Xavante. Como em Uberlândia eu participava do Trio Pena Branca (Xavante, Xavantinho e Pinagi), passei a usar esse nome. Um dia a Inezita disse: “Meninos, vocês cantam tão bonito. O que estão fazendo aqui?” O Tinoco também foi cantar com a orquestra no Teatro Municipal de São Paulo e gostou da dupla. Disse: “Vocês só podem cantar um pouquinho mais baixo porque fica menos ardido!”

Justo ele, que tinha um dos registros mais altos da música caipira! Mas quando veio o primeiro disco?

Em 1980. Gravamos pra poder participar do festival da Globo, o MPB Shell.

Foi nesse disco que vocês gravaram o Cio da Terra?
Não, foi depois. O Xavantinho sempre gostou do Milton Nascimento. Passaram umas fitas pra ele que tinham Cio da Terra, Cantiga de Caicó, que é do Villa-Lobos, e Cuitelinho. Ele gostou de Cio da Terra e eu disse: “Isso não dá pra cantar, não. Como vou colocar outra voz aí?” Passamos uns dois anos pra tentar incrementar essa moda. E deu certo. Em meados de 1981 tinha o programa Som Brasil, do Rolando Boldrin. A gente já cantava o Cio da Terra nos shows e a produção do Boldrin descobriu. Aí mostrou uma gravação pro Milton Nascimento. Nosso primeiro encontro foi no palco do programa. O Milton foi logo dizendo que quando a gente fosse gravar em disco ele iria participar.

A partir dessa música vocês passaram a gravar várias canções de MPB no estilo da dupla. Vocês “acaipiraram” a música popular brasileira?
Quando gravamos o Cio da Terra já pegamos uma balaiada. Foi o Cuitelinho, Cantiga de Caicó... Depois veio O Ciúme, do Caetano Veloso. Nós entramos num ciclo tão interessante, mas sempre tentando, vendo se dava certo. Depois veio o Fagner, com Penas do Tiê e Vaca Estrela e Boi Fubá, o Djavan, Lambada de Serpente, e o Guilherme Arantes, Planeta Água. Eu preciso acordar e reviver tudo isso fazendo um show só com essas músicas. Mas foi com o Xavantinho que fiz esse trabalho tão sério. Acho que não vou dar conta de fazer de novo. Quando você faz uma cerca muito bem-feita, pode trocar algum poste que ficou apodrecido ou foi incendiado, porque o resto já está lá.

Você é um caso raro de uma dupla que se desfez com a morte de Xavantinho, mas que seguiu cantando sozinho, alcançando sucesso. Logo em seguida seu primeiro disco solo ganhou o Grammy Latino. Como foi essa passagem?
O disco Semente Caipira, que ganhou o Grammy, teve seu repertório escolhido por nós dois. Mas não deu tempo da gente gravar. Teve uma época em que o Xavantinho esteve internado e eu fiz os shows sozinho. Aí ele me disse: “Está de pé. Se você for seguir carreira sozinho, pode gravar o repertório”. Gravei. Depois muita gente perguntava se o disco era uma homenagem ao Xavantinho. Não é, ele é que ajudou a escolher o repertório. Na época até disse: “Se eu ainda tiver lenha pra queimar, vou fazer um disco só com as modas dele”. A gravadora gostou da idéia e falou que, se eu quisesse convidar outros músicos pra participar, estava valendo. Aí convidei o Chico Lobo, o Xangai e o Renato Teixeira.

Bom, agora você está preparando um novo repertório?
Vou gravar umas modas minhas e fazer umas três regravações. Cio da Terra não vai ser, porque foi feito e não tem jeito de refazer, já virou um clássico. Mas uma delas é o Cuitelinho, que é um apanhado tão interessante que sempre aparece um verso novo. Como é o Luar do Sertão (também um tema popular, embora registrado como de autoria de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco).

Uma nova geração de violeiros está surgindo, especialmente das orquestras de violas. Como a dupla Pena Branca e Xavantinho também veio de uma orquestra de violas, você acredita que elas são hoje uma escola que não vai deixar a música caipira morrer?
Sem dúvida. Cresceu demais. Você precisa ver nos meus shows como cresceu a participação da juventude. É o mesmo que acontece num show do Zezé Di Camargo e Luciano. Só que nos meus shows eles vêm mais conscientes. Vêm porque o pai, o avô ouvem... Uns falam assim: “Se eu soubesse que a moda de raiz era tão gostosa tinha vindo há mais tempo”. E tem uma geração de violeiro novo: Cláudio Lacerda, Pereira da Viola, Chico Lobo... As orquestras deram asas pra todo mundo. Tenho uma dupla de amigos lá de Brasília, Zé Mulato e Cassiano. Um dia o Zé Mulato falou: “Vamu dá um incentivo pra essa molecada cantá as nossa moda de raiz porque é muito bão!” Aí passou um tempo e numa outra entrevista ele soltou essa: “Ó, precisamo dá um jeito, essa molecada tá tocano viola demais, não tá sobrano pra gente não. Tem que matá um poco!” (risos).


Fonte: Revista Brasil Atual

A cobertura (omissa) das políticas sociais

Por Ângela Carrato e João Mendes em 9/2/2010

Os leitores de Veja, O Globo e O Estado de S.Paulo se depararam, nos últimos dias, com uma série de matérias contendo dados equivocados e juízos de valor que não se sustentam em se tratando do Programa Bolsa Família, do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS). Em comum às três matérias, além dos equívocos, uma nítida tentativa de vincular o programa – que é referência nacional e internacional em redução de pobreza – com ações eleitoreiras e até mesmo com o que denominam de "terrorismo eleitoral".

A primeira matéria coube à revista Veja que, na edição 2149 (de 24/1/2010), sob o título de "Bolsa-Cabresto", publicou duas páginas onde, no lugar de informações para o leitor, lançou mão de dados equivocados, chegou a números fantasiosos e nem se deu ao trabalho de ouvir o MDS antes de publicar a sua "tese" sobre o assunto. Na segunda-feira (25/1), a Assessoria de Comunicação do MDS enviou à Veja uma nota de esclarecimento, na qual rebatia todos os pontos da matéria e solicitava que a revista a publicasse na próxima edição. Na terça-feira (26), a repórter de Veja que assina a matéria, Laura Diniz, fez contato com a Assessoria de Comunicação do MDS e solicitou mais alguns dados, no que foi prontamente atendida.

Na oportunidade, a assessora responsável direta pelo Programa Bolsa Família, jornalista Roseli Garcia, informou à repórter de Veja que o MDS havia enviado a nota de esclarecimento e que aguardava a publicação. Em resposta, ouviu que a nota estava "grande demais" e que "dificilmente seria publicada". Na noite de quarta-feira (27), a repórter encaminhou para o MDS um texto com a proposta de retificação por parte da revista Veja. A nota, num total de quatro linhas, nem de longe contemplava as correções apontadas pelo ministério na matéria publicada por Veja.

Diante disso, a Assessoria de Comunicação encaminhou, na quinta-feira, ao diretor de redação de Veja Eurípedes Alcântara e ao redator-chefe, Mario Sabino, uma mensagem contendo todo o ocorrido e solicitando, em respeito aos leitores e à verdade, a publicação da resposta na íntegra. Não recebemos retorno por parte dos dois dirigentes da revista. Aliás, as duas mensagens foram descartadas sem terem sido lidas. Na sequência, a repórter responsável pela matéria telefonou para Ascom/MDS solicitando uma diminuição no tamanho da nota. Atendendo a esse pedido, essa redução foi feita de forma a contemplar explicações mínimas que pudessem fazer o leitor entender o equívoco cometido pela revista. Essa nova nota foi encaminhada na noite de quinta-feira (28/1).

Na sexta-feira, a repórter liga novamente para Ascom/MDS dizendo que a carta "continuava grande demais" e que tinha preparado uma correção, pois considerava "melhor para o ministério" a retificação da revista do que a publicação da carta. A ela foi respondido que preferíamos a carta, por esclarecer melhor o caso aos leitores.

Veja optou pela correção que ela própria fez, publicada em corpo minúsculo sem ter respondido aos principais equívocos apontados pela Ascom/MDS. Além disso, em destaque, publicou duas cartas de leitores que continham críticas ao Programa Bolsa Família a partir de uma matéria repleta de erros. Vale dizer: amplificou, novamente, o próprio erro, sem aceitá-lo como tal.

Campeões da democracia

Já no dia 1º de fevereiro, o MDS é novamente surpreendido. Em editorial, intitulado "Bolsa Família e eleição" o jornal O Estado de S. Paulo, utilizando os mesmos argumentos usados na matéria da revista Veja, afirma que não haveria exclusão de beneficiários do programa em 2010. O que é um equívoco, pois já em fevereiro estão sendo cancelados 710 mil benefícios por falta de atualização cadastral. A Ascom/MDS encaminhou carta ao Estado de S. Paulo explicando que o editorial fazia uma análise equivocada da instrução operacional do MDS – que apenas detalha o trabalho as ser feito pelos gestores do Programa Bolsa Família em 2010 – idêntica à cometida pela revista Veja.

No dia seguinte, o jornal publicou a íntegra da carta e questionou o seu conteúdo, afirmando que o documento "não permite conhecer a fundo os critérios estabelecidos pelo programa, o erro não é do jornal, mas do Ministério". Como rege o bom jornalismo, se um documento não está claro, cabe ao jornalista estudar o assunto e informar de maneira clara aos seus leitores. Em outras palavras, faltou ao Estado de S.Paulo ater-se a uma regra básica no jornalismo: a apuração. Nesse ponto, aliás, O Estado de S.Paulo, O Globo e Veja se assemelham: estão deixando de apurar e publicando o que acreditam ser a verdade.

Na mesma segunda-feira (1/2), devido ao editorial de O Estado de S.Paulo, a Ascom/MDS foi procurada pela reportagem de O Globo. Todas as explicações dadas à Veja e ao Estado de S.Paulo foram repassadas a O Globo, mostrando os equívocos cometidos pelas duas outras publicações. Mas o jornal, lendo a instrução normativa – que trata apenas de procedimento em relação à atualização cadastral – encaminhada pelo MDS aos gestores, abordou outro aspecto também de forma incorreta. O Globo classificou essa norma, em manchete, como: "Governo faz ameaça eleitoral ao recadastrar Bolsa Família".

Mais uma vez a Ascom/MDS encaminhou carta ao jornal, que foi utilizada na matéria do dia seguinte em texto intitulado "Tiroteio com o Bolsa Família". Neste texto, o jornal utiliza as declarações de parlamentares de partidos da oposição ao governo para sustentar a polêmica criada pelo próprio veículo.

O assunto repercutiu em vários veículos nacionais e também na imprensa regional, criando uma situação no mínimo curiosa para quem é leitor atento ou para aqueles que se interessam pelo comportamento de parte da mídia brasileira. Nos dias atuais, a mídia tem deixado de lado o papel clássico de informar, interpretar e opinar (nos espaços devidos) para, ela própria, tornar-se a origem da informação e, não raro, ator no cenário político nacional.

No caso do Programa Bolsa Família, as informações e a análise apresentadas pela mídia foram equivocadas e funcionaram como retroalimentação. Num dia um veículo publica algo equivocado. Não retifica o erro. No dia seguinte, outro veículo, tomando o que foi publicado como verdade, amplifica o erro. No terceiro dia, um novo veículo entra "na roda" e assim a "polêmica" está criada. Para confirmar os pressupostos da mídia, políticos de oposição são entrevistas e ganham destaque.

Essa situação em si é extremamente preocupante para o futuro das instituições e para a própria democracia no Brasil, porque deixa a parte atingida, no caso o agente público, sem condição para restabelecer a verdade. A preocupação torna-se maior ainda quando se sabe do papel central que a mídia tem na sociedade contemporânea.

No caso brasileiro, a censura oficial à imprensa foi abolida há décadas e a liberdade de informação e expressão encontra-se consagradas na Constituição de 1988. Mas, infelizmente, o que se percebe é que o poder de censura, que nos governos autoritários estava nas mãos do Estado, migrou para as mãos de um reduzido número de empresas e de articulistas que se auto-intitulam os porta-vozes da verdade e os campeões da democracia. Essa situação torna-se ainda mais difícil quando dentro dos grandes grupos midiáticos prevalecem as velhas ideologias do liberalismo do século 18 e 19.

Escolhas próprias

Nos três casos descritos, faltou muito mais do que o necessário restabelecimento da verdade. Faltou seriedade profissional e empresarial na cobertura de um tema da maior importância para a sociedade brasileira e que mexe com a vida de milhares de pessoas. Dia a dia, o que se verifica é que a mídia brasileira não percebeu que o Brasil mudou e que as políticas sociais estão instituídas enquanto políticas públicas, que demandam conhecimento e acompanhamento permanente em relação ao seu funcionamento. As políticas públicas na área social estão sepultando a cultura política da dádiva, contribuindo para a emancipação das pessoas e para a plena cidadania.

Com exceção de uns dois ou três jornalistas que se especializaram – por conta própria – na cobertura dos chamados programas sociais, não há, na mídia brasileira, quem acompanhe, com um mínimo de regularidade, a vida desses programas e, sobretudo, os seus resultados. Apesar da importância dos programas sociais, a mídia brasileira ainda não criou, sequer, uma editoria específica para a cobertura deles. E se no passado podia-se argumentar que as classes C, D e E não tinham peso no mercado, também esse argumento não mais se sustenta. A cobertura jornalística das políticas públicas é um dos grandes desafios e uma das maiores deficiências da imprensa brasileira.

Em anos de eleição, as dificuldades se acentuam mais. A disputa política envolve grandes riscos para os jornalistas. Se muitos temem se tornar instrumento de propaganda eleitoral de governos e candidatos, ao cobrir de forma acrítica o desempenho dos programas sociais, há igualmente o risco de dar a todas as políticas públicas um caráter e uma intenção eleitorais e, com isso, deixar de levar ao cidadão beneficiado as informações essenciais. Isso, sem falar na arrogância daqueles que se arvoram em "defensores do povo" sem, ao menos, dar a palavra a quem é de direito.

Voltando ao caso da revista Veja, chama atenção na matéria citada como os grandes ausentes do texto são os beneficiários do Programa Bolsa Família. Eles aparecem na foto que ilustra a matéria, mas não são ouvidos pela repórter. Se ouvidos, esses beneficiários teriam muito a dizer sobre o que está mudando em suas vidas. Mas, ao que tudo indica, isso não é interessante para os porta-vozes do nicho mais conservador da sociedade brasileira. Motivo pelo qual se prefere dar voz aos "formadores de opinião", sejam eles cientistas políticos ou articulistas.

A importância da mídia para a formação da opinião pública é inegável, mas a cada dia o cidadão e a cidadã se mostram mais conscientes e competentes ao fazerem as suas escolhas. Escolhas não só em termos eleitorais, mas escolhas sobre o que ler e onde buscar informações. Não é por acaso que a tiragem da mídia impressa brasileira tem apresentado acentuado declínio nos últimos anos, enquanto crescem exponencialmente os acessos aos sites e blogs.


Fonte: Site Observátorio da Imprensa em 09.02.2010

O primeiro milagre do heliocentrismo


Hélio Schwartsman
03.12.2009

Como proteger-se do poder do Estado? Esse, que é um dos temas capitais da ciência política, já consumiu muita tinta e derrubou vários acres de florestas. A descrição mais clássica é a de Thomas Hobbes, para quem o Estado é um monstro feroz, um Leviatã, que, apesar de promover todo tipo de abuso, justifica-se por proteger os indivíduos da guerra de todos contra todos que configura o estado de natureza. Enquanto o poder público, leia-se, o soberano, garante a vida de seus súditos, devemos-lhe obediência total, o que inclui aceder aos menores caprichos e tolerar as piores injustiças. É só quando o soberano nos condena à morte, isto é, quando deixa de assegurar-nos a existência, que temos o direito de rebelar-nos contra sua autoridade.

OK. Admito que não é um cenário muito idílico. Mas tampouco o era a Inglaterra sob a guerra civil no século 17. De lá para cá, as coisas melhoraram bastante, pelo menos neste cantinho de mundo que chamamos de Ocidente democrático. Embora o poder do Estado ainda seja algo a temer, contamos hoje com um rol de direitos e garantias fundamentais que são geralmente observados. Quando não o são, podemos gritar e espernear. Na pior das hipóteses, já não precisamos ser condenados à morte para conquistar o direito de revolta.

Mais até, em determinadas circunstâncias o Estado pode ser considerado um aliado, que promove ativamente o bem-estar através de instituições como a Previdência social e serviços de educação e saúde.

Fiz essa longa introdução, que em jornalismo chamaríamos de nariz de cera, para propor uma discussão que julgo importante: em que nível devem materializar-se essas garantias fundamentais? Elas dizem respeito a indivíduos ou a grupos? É possível conceder benefícios a setores específicos?

Coloco essas questões a propósito da isenção de impostos para igrejas, que foi tema de reportagem de minha autoria publicada na edição de domingo da Folha de S.Paulo (quem tiver acesso à edição digital poderá conferir também a arte, que não é disponibilizada através do link). Para quem não é assinante de nada ou não está com paciência de ficar singrando hipertextos, faço um rápido resumo da matéria.

Eu, Claudio Angelo, editor de Ciência da Folha, e Rafael Garcia, repórter do jornal, decidimos abrir uma igreja. Com o auxílio técnico do departamento Jurídico da Folha e do escritório Rodrigues Barbosa, Mac Dowell de Figueiredo Gasparian Advogados, fizemo-lo. Precisamos apenas de R$ 418,42 em taxas e emolumentos e de cinco dias úteis (não consecutivos). É tudo muito simples. Não existem requisitos teológicos ou doutrinários para criar um culto religioso. Tampouco se exige número mínimo de fiéis.

Com o registro da Igreja Heliocêntrica do Sagrado EvangÉlio e seu CNPJ, pudemos abrir uma conta bancária na qual realizamos aplicações financeiras isentas de IR e IOF. Mas esses não são os únicos benefícios fiscais da empreitada. Nos termos do artigo 150 da Constituição, templos de qualquer culto são imunes a todos os impostos que incidam sobre o patrimônio, a renda ou os serviços relacionados com suas finalidades essenciais, as quais são definidas pelos próprios criadores. Ou seja, se levássemos a coisa adiante, poderíamos nos livrar de IPVA, IPTU, ISS, ITR e vários outros "Is" de bens colocados em nome da igreja.

Há também vantagens extratributárias. Os templos são livres para se organizarem como bem entenderem, o que inclui escolher seus sacerdotes. Uma vez ungidos, eles adquirem privilégios como a isenção do serviço militar obrigatório (já sagrei meus filhos Ian e David ministros religiosos) e direito a prisão especial.

A discussão pública relevante aqui é se faz ou não sentido conceder tantas regalias a grupos religiosos. Não há dúvida de que a liberdade de culto é um direito a preservar de forma veemente. Trata-se, afinal, de uma extensão da liberdade de pensamento e de expressão. Sem elas, nem ao menos podemos falar em democracia.

Em princípio, a imunidade tributária para igrejas surge como um reforço a essa liberdade religiosa. O pressuposto é o de que seria relativamente fácil para um governante esmagar com taxas o culto de que ele não gostasse.

Esse é um raciocínio que fica melhor no papel do que na realidade. É claro que o poder de tributar ilimitadamente pode destruir não apenas religiões, mas qualquer atividade. Nesse caso, cabe perguntar: por que proteger apenas as religiões e não todas as pessoas e associações? Bem, a Constituição em certa medida já o fez, quando criou mecanismos de proteção que valem para todos, como os princípios da anterioridade e da não cumulatividade ou a proibição de impostos que tenham caráter confiscatório.

Será que templos de fato precisam de proteções adicionais? Até acho que precisavam em eras já passadas, nas quais não era inverossímil que o Estado se aliasse à então religião oficial para asfixiar economicamente cultos rivais. Acredito, porém, que esse raciocínio não se aplique mais, de vez que já não existe no Brasil religião oficial e seria constitucionalmente impossível tributar um templo deixando o outro livre do gravame.

No mais, mesmo que considerássemos a imunidade tributária a igrejas essencial, em sua presente forma ela é bem imperfeita, pois as protege apenas de impostos, mas não de taxas e contribuições. Ora, até para evitar a divisão de receitas com Estados e municípios, as mais recentes investidas da União têm se materializado justamente na forma de contribuições. Minha sensação é a de que a imunidade tributária se tornou uma espécie de relíquia dispensável.

Está aí o primeiro milagre do heliocentrismo: não é todo dia que uma igreja se sacrifica dessa forma, advogando pela extinção de vantagens das quais se beneficia.

Sei que estou pregando no deserto, mas o Brasil precisaria urgentemente livrar-se de certos maus hábitos, cujas origens podem ser traçadas ao feudalismo e ao fascismo, e enfim converter-se numa República de iguais, nas quais as pessoas sejam titulares de direitos porque são cidadãs, não porque pertençam a esta ou aquela categoria profissional ou porque tenham nascido em berço esplêndido. O mesmo deve valer para associações. Até por imperativos aritméticos, sempre que se concede uma prebenda fiscal a um dado grupo, onera-se imediatamente todos os que não fazem parte daquele clube. Não é demais lembrar que o princípio da solidariedade tributária também é um dos fundamentos da República.

* Hélio Schwartsman, 44, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.


Fonte: Folha Online em 03.12.2009

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Projeto mira empresa que corrompe poder público

Paulo de Tarso Lyra, de Brasília
08/02/2010


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encaminha hoje ao Congresso Nacional o projeto que prevê punições pesadas que variam de multa a 1% a 30% sobre o faturamento até o fechamento em caso de reincidências das empresas que praticarem atos de corrupção contra o poder público. Segundo apurou o Valor, elas também não poderão ser beneficiadas por incentivos fiscais ou contrair empréstimos em bancos públicos.

O projeto, elaborado em conjunto pela Controladoria-Geral da União (CGU) e pelo Ministério da Justiça quer corrigir as lacunas existentes na legislação. Pelas leis atuais, apenas os funcionários de empresas corruptoras podem ser punidos. Pessoas jurídicas não sofrem qualquer tipo de pena civil ou administrativa. Entre os crimes previstos no projeto estão fraude em licitações, pagamento de propina a servidores públicos e maquiagem de serviços e produtos fornecidos ao governo.

Para o ministro-chefe da CGU, Jorge Hage, o projeto avança ao mirar o faturamento das empresas. Na Lei 8.666 (Licitações), infrações cometidas na fase de concorrência ou na de execução de contratos levam a multas de pequeno valor e à mera decretação de inidoneidade da empresa.

A CGU previu ainda, no projeto, punições para pessoas que abrirem empresas em substituição àquelas consideradas inidôneas. Com as brechas na lei, muitos empresários sob investigação abrem outras empresas, com razão social diferente e, em alguns casos, com sócios "laranjas", para participarem de licitações públicas. Para evitar isso, o projeto prevê a extensão, a administradores e a sócios com poderes de direção nas companhias, as mesmas sanções e punições que incorrerem sobre as empresas consideradas inidôneas.

Estados Unidos, Itália, Grécia e Chile já possuem esse tipo de legislação. Apesar de o Brasil ser signatário de três convenções internacionais contra a corrupção - elaboradas pela Organização das Nações Unidas (ONU); Organização dos Estados Americanos (OEA) e Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) -, a lei brasileira era omissa em relação à corrupção empresarial.


Fonte: Jornal "Valor Econômico" de 08.02.2010

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OAB: projeto de lei para punir empresas corruptoras é avanço para o País


Ophir afirma que a corrupção é hoje o maior problema do Brasil.(Foto: Eugenio Novaes)

Brasília, 08/02/2010 - O presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante, classificou hoje (08) como positivo o projeto de lei que será enviado ao Congresso pela Presidência da República que responsabiliza empresas que praticarem atos de corrupção contra a administração pública. Para Ophir, a corrupção é hoje o maior problema do Brasil. "A corrupção corrói moralmente as instituições e corrompe o homem. Isso tem um efeito nefasto em toda a sociedade".

Na avaliação do presidente da OAB, um projeto de lei dessa natureza pode contribuir para reduzir os níveis de corrupção no país, uma vez que a legislação atual não prevê meios específicos para atingir o patrimônio das empresas e, com isso, proporcionar aos cofres públicos o efetivo ressarcimento pelos prejuízos causados por empresas corruptoras. "Servirá para enfrentar essa relação, muitas vezes espúria, entre o poder público e as empreiteiras. Na corrupção há sempre dois sujeitos: o que é corrompido e aquele que corrompe. É fundamental que haja punição efetiva nas duas pontas", acrescentou.

Para Ophir Cavalcante, este é o momento de uma grande virada da nação brasileira, para afastar a corrupção das relações entre empresas e governo. "É preciso que se tenha a clara percepção de que o que é público deve ser preservado e revertido a todos e não ser a mera extensão de interesses privados".

Entre as novas punições previstas no projeto de lei há multa de 1% a 30% do faturamento bruto da pessoa jurídica, impedimento de que ela receba benefícios fiscais, suspensão parcial de atividades dela ou até a extinção da empresa. O texto prevê ainda a possibilidade de se aplicar aos sócios e administradores as mesmas sanções cabíveis contra a empresa, estendendo-se, por exemplo, a declaração de inidoneidade da pessoa jurídica para as pessoas envolvidas na prática dos ilícitos.


Fonte: Site do Conselho Federal da OAB

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PL que pune empresas que praticarem atos de corrupção é encaminhado ao Congresso

O presidente Lula encaminhou ao Congresso texto de PL que dispõe sobre a responsabilização administrativa e civil de pessoas jurídicas pela prática de atos contra a administração pública, nacional ou estrangeira.

Concebido pela CGU e pelo MJ, com contribuição da Casa Civil da Presidência da República e da AGU, o projeto tem 25 artigos e pretende, segundo a CGU, preencher as lacunas da legislação atual. "É muito difícil, senão impossível, alcançar o patrimônio da empresa para obter o ressarcimento do dano causado à administração pública", analisa o ministro-chefe da CGU Jorge Hage.

"A lei 8.666 (Lei de Licitações - clique aqui) restringe-se a ilícitos cometidos quando da concorrência ou na execução dos contratos, e prevê como sanção mais pesada a declaração de inidoneidade da empresa, além de multas contratuais geralmente de baixo valor, não atingindo diretamente o patrimônio da empresa nem gerando o ressarcimento do dano causado à administração pública. Além disso, não há previsão de impedimento do acesso a incentivos fiscais ou a empréstimos de bancos oficiais", completa.

A iniciativa foi vista pelo presidente da OAB Ophir Cavalcante como um momento de grande virada da nação brasileira. "É preciso que se tenha a clara percepção de que o que é público deve ser preservado e revertido a todos e não ser a mera extensão de interesses privados."

O texto do PL prevê punição para as empresas que fraudarem licitações, pagarem propina a servidores públicos ou praticarem a maquiagem de serviços e produtos, além de multa (de 1% a 30% do faturamento bruto), impedimento de receber benefícios fiscais, suspensão parcial de atividades ou mesmo extinção da empresa, dependendo da gravidade do ilícito praticado.

Atualmente, a principal sanção aplicável às pessoas jurídicas é a declaração de inidoneidade, que proíbe a empresa de participar de licitação e manter contratos com a administração pública.

Na avaliação de Ophir, um PL dessa natureza pode contribuir para reduzir os níveis de corrupção no país. "Servirá para enfrentar essa relação, muitas vezes espúria, entre o poder público e as empreiteiras. Na corrupção há sempre dois sujeitos: o que é corrompido e aquele que corrompe. É fundamental que haja punição efetiva nas duas pontas".

Compromissos internacionais

Além de ampliar o rol das condutas puníveis, o novo PL busca atender aos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, que é signatário de três convenções internacionais contra a corrupção - da ONU (clique aqui); da OEA (clique aqui); e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OCDE (clique aqui).

Embora não seja membro da OCDE, o Brasil ratificou a convenção da organização em 2000, obrigando-se a implementar as medidas previstas no tratado.

Atualmente, o país é avaliado pela OCDE quanto à implementação do que está disposto na Convenção, que inclui o estabelecimento de responsabilização de pessoas jurídicas pela prática de corrupção em transações comerciais internacionais.

Outras duas avaliações já foram realizadas : uma em 2004 (clique aqui) e outra em 2007 (clique aqui).

FCPA

A corrupção no Brasil foi tema de matéria recentemente publicada pelo Valor Econômico. Segundo o jornal, o U.S. Department of Justice (DOJ) - o Ministério Público dos Estados Unidos - deixou claro que tem a intenção de acompanhar as empresas americanas no país e punir aquelas que violarem a lei americana ("Foreign Corrupt Practices Act"), que prevê penalidades a empresas e seus representantes por corromperem funcionários públicos estrangeiros.

Até hoje, os poucos casos de violação à FCPA nos quais o Brasil esteve envolvido referem-se a processos abertos contra multinacionais americanas com filiais aqui instaladas.

Durante quase três décadas, processos contra empresas por violação à FCPA foram raros nos EUA. Mas o cenário mudou. Segundo o advogado Paul McNulty, do escritório Baker & McKenzie em Washington e ex-subsecretário de Justiça dos EUA, há hoje 120 investigações em curso apenas no departamento.

Ainda segundo o Valor, o caso da multinacional Siemens AG é um marco na história do combate à corrupção corporativa nos EUA. A empresa já pagou US$ 1,6 bilhão em multas e na devolução de lucros obtidos com a criação de um esquema de suborno de funcionários públicos que funcionou por anos a fio em várias de suas filiais e que já está sendo considerado o maior caso de corrupção empresarial transnacional da história, segundo a advogada Isabel Franco, do escritório KLA - Koury Lopes Advogados. Outros € 800 milhões já foram desembolsados com despesas judiciais.

A punição à Siemens é recorde sob todos os aspectos. "Mas em novembro, durante um congresso em Washington, ouvi de autoridades americanas que as penalidades à empresa foram muito menores do que ela merecia", conta Isabel Franco. Segundo ela, as autoridades consideraram que a empresa mantinha uma cultura onde o sistema de pagamento de propinas era uma estratégia de negócios para se sair bem nos mercados emergentes.

No que se refere ao Brasil, os poucos casos de investigação por propinas e subornos pagos em território nacional envolvem companhias estrangeiras - americanas ou europeias. Segundo a "FCPA Digest", publicação anual do escritório de advocacia americano Shearman & Sterling, que reúne as investigações e processos abertos pelo DOJ e pela SEC, até hoje o Brasil foi apontado em apenas sete deles como palco do crime. Nenhum envolve empresas brasileiras, apenas filiais de estrangeiras aqui instaladas - mas há quem acredite que é uma questão de tempo. "Daqui a três anos alguma empresa brasileira vai estar sendo investigada pela SEC ou pelo DOJ por violação ao FCPA", acredita André Janszky, do Shearman & Sterling.

Cadastro

A CGU criou a Comissão de Processo Administrativo de Fornecedores para aplicação, pela própria CGU, das sanções já previstas na Lei de Licitações, como a declaração de inidoneidade para contratar com o poder público.

Criou também o Cadastro Nacional de Empresas Inidôneas e Suspensas - Ceis, que reúne a relação de empresas punidas por órgãos de todos os Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) e de todas as esferas de governo. O cadastro conta com cerca de 1,4 mil empresas punidas.

Ao mesmo tempo, a CGU informa que firmou parceria com o Instituto Ethos de Responsabilidade Empresarial, com sede em São Paulo, e vem desenvolvendo com ele um programa que estimula e apóia as empresas interessadas em manter uma imagem de integridade corporativa e uma linha de conduta ética.


Fonte: Site Migalhas em 09.02.2010

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Satã não existe, nem na Bíblia

A seguinte resenha me foi encomendada há algum tempo pelo Diário do Comércio, de São Paulo:

Em busca da verdadeira história de Satã


O Demônio, tal como o concebemos hoje, o Senhor do Mal que preside ao Inferno, e que se contrapõe a Deus Senhor do Bem, não existe na Bíblia, nem no Velho, nem no Novo Testamento – é o que argumenta o pesquisador americano Henry Angskar Kelly, professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles, no livro Satã, uma biografia, lançado no Brasil pela Editora Globo. Kelly mostra como, na Bíblia, a palavra “Satã” ora é um substantivo comum, significando “adversário”, ora, como no Livro de Jó e no Novo Testamento, indica um personagem encarregado por Deus de governar o mundo, para vigiar e testar os seres humanos no que se refere à sua fidelidade a Deus. No Novo Testamento, Cristo também prevê que, no fim dos tempos, esse funcionário de Deus deixará de governar o mundo.

Kelly demonstra ainda que a imagem de Satã tal como o imaginamos atualmente, foi sendo criada ao longo dos séculos que se seguiram à morte de Cristo, em especial pelos Pais da Igreja, ou seja, escritores cristãos atuantes entre os séculos 2.o e 8.o. Eles é que identificaram Satã com a serpente que tenta Eva, serpente que no Gênesis não aparece como demoníaca. Eles é que desenvolveram os atributos de Satã como Senhor do Mal, num maniqueísmo que em princípio seria incompatível com uma fé monoteísta. Aqui valeria ressaltar que, numa de suas pouquíssimas falhas, a tradução parece ter apresentado como “origens” o termo que tudo indica se referia a Orígenes, um teólogo egípcio da passagem do século 2.o para o século 3.o.

Também a idéia de que Satã, ou Lúcifer, era um anjo que se revoltou contra Deus e se tornou o Demônio, não consta nem do Velho, nem do Novo Testamento, mas surgiu posteriormente, como prova Kelly. Este, porém, parece ser um cristão devoto, que como bom protestante só quer acreditar na Revelação, ou seja, na Bíblia, e assim quer propagandear entre seus companheiros de fé protestantes a noção de que Satã como Senhor do Mal é uma criação da Tradição, isto é, dos acrescentamentos feitos aos ensinamentos da Bíblia tanto pela Igreja Católica Romana como pelas Igrejas Católicas Ortodoxas.

Um bom protestante só deve acreditar na Bíblia – e assim não pode acreditar no Diabo dos católicos, nem no Satã dos muçulmanos: esta parece ser a mensagem central de Kelly. No entanto o tema é atraente tanto para protestantes como para católicos, para os interessados em geral em religião, e para todas as pessoas com sentido humanista.

Mas temos de levar em conta que, embora o tema seja tão atraente, o estilo de Kelly não é tão atraente. Trata-se de uma obra erudita que será lida com maior proveito por outros eruditos, e não de um trabalho a ser lido e compreendido com facilidade.

Dizem que “o diabo está nos detalhes” e o leitor leigo, o leitor comum, se perde nas miríades de pequenos detalhes, de citações isoladas aqui e ali, às vezes de uma palavra só, ou de uma frase isolada, com que Kelly vai montando seu argumento.
Assim, embora o leitor mais informado saia convencido, ao final do livro, da correção da tese central de Kelly – de que Satã, ou o Demônio, ou o Diabo, tal como é concebido pela esmagadora maioria dos cristãos, não consta da Bíblia e é uma criação posterior, ao menos a partir de dois séculos depois de Cristo –, o leitor comum caminhará com dificuldades pelo emaranhado de citações e pela complexidade do raciocínio do autor que, afinal, é um professor universitário e quis deixar bem marcadas suas credenciais acadêmicas.

Kelly parece dirigir-se também aos católicos, mas neste caso seu êxito será menor, pois justamente ser católico consiste em crer, além da Bíblia, também na Tradição. Afinal, do mesmo modo que Kelly provou que Satã tal como os católicos o concebem não consta da Bíblia, também poderia ser provado que não consta da Bíblia o culto a seres humanos considerados santos e mesmo à Virgem Maria. Isso, porém, não abalaria a rigor nenhum católico, pois por definição este acredita, além de na Revelação, também na Tradição. Assim, o desmentido dado por Kelly à concepção corrente de Satã só vai valer para aqueles protestantes que julgam que a única fonte da fé é a Bíblia.

Renato Pompeu é jornalista e escritor.


Fonte: Blog do Renatão

"Sexual Healing" de Marvin Gaye por Ben Harper

"Misty" de Errol Garner por Sarah Vaughan

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

"Nanã" de Moacir Santos e Mário Telles por CéU

"Lucio Flavio, o Passageiro da Agonia" - Brasil - 1977. Dir.: Hector Babenco

Foto Destaque







29/01/2010

AAA Excepcional / AA+ Alta qualidade / BBB Acima da média / BB+ Moderado / CCC Baixa qualidade / C Alto risco

Distribuição: Europa Filmes / AAA



História verídica do bandido carioca Lucio Flavio Vilar Lírio (Reginaldo Faria), célebre pelos olhos verdes e pelas fugas sucessivas. Em seus últimos dias, ganharia status de anti-herói numa série de denúncias contra o então emergente Comando Vermelho. O clássico teve grande impacto social: tal como um "Serpico" (1973) adaptado à realidade brasileira, "Lucio Flavio" punha em evidência o subsídio policial no crime organizado, tema tabu à época. Com Milton Gonçalves, Paulo César Peréio e Grande Otelo, o longa integra um projeto de restauração digital da obra (parcial) do diretor Hector Babenco. Outros quatro títulos foram lançados pela Europa Filmes, entre eles, "Pixote" e "O Beijo da Mulher Aranha".


Fonte: Jornal "Valor Econômico" de 29.01.2010

Nós, escravocratas


Há exatos cem anos, saía da vida para a história um dos maiores brasileiros de todos os tempos: o pernambucano Joaquim Nabuco. Político que ousou pensar, intelectual que não se omitiu em agir, pensador e ativista com causa, principal artífice da abolição do regime escravocrata no Brasil.

Apesar da vitória conquistada, Joaquim Nabuco reconhecia: “Acabar com a escravidão não basta. É preciso acabar com a obra da escravidão”, como lembrou na semana passada Marcos Vinicios Vilaça, em solenidade na Academia Brasileira de Letras.

Mas a obra da escravidão continua viva, sob a forma da exclusão social: pobres, especialmente negros, sem terra, sem emprego, sem casa, sem água, sem esgoto, muitos ainda sem comida; sobretudo sem acesso à educação de qualidade.

Ainda que não aceitemos vender, aprisionar e condenar seres humanos ao trabalho forçado pela escravidão – mesmo quando o trabalho escravo permanece em diversas partes do território brasileiro –, por falta de qualificação, condenamos milhões ao desemprego ou trabalho humilhante.

Em 1888, libertamos 800 mil escravos, jogando-os na miséria. Em 2010, negamos alfabetização a 14 milhões de adultos, negamos Ensino Médio a 2/3 dos jovens. De 1888 até nossos dias, dezenas de milhões morreram adultos sem saber ler.

Cem anos depois da morte de Joaquim Nabuco, a obra da escravidão se mantém e continuamos escravocratas.

Somos escravocratas ao deixarmos que a escola seja tão diferenciada, conforme a renda da família de uma criança, quanto eram diferenciadas as vidas na Casa Grande ou na Senzala.

Somos escravocratas porque, até hoje, não fizemos a distribuição do conhecimento: instrumento decisivo para a liberdade nos dias atuais.

Somos escravocratas porque todos nós, que estudamos, escrevemos, lemos e obtemos empregos graças aos diplomas, beneficiamo-nos da exclusão dos que não estudaram. Como antes, os brasileiros livres se beneficiavam do trabalho dos escravos.

Somos escravocratas ao jogarmos, sobre os analfabetos, a culpa por não saberem ler, em vez de assumirmos nossa própria culpa pelas decisões tomadas ao longo de décadas. Privilegiamos investimentos econômicos no lugar de escolas e professores.

Somos escravocratas, porque construímos universidades para nossos filhos, mas negamos a mesma chance aos jovens que foram deserdados do Ensino Médio completo com qualidade.

Somos escravocratas de um novo tipo: a negação da educação é parte da obra deixada pelos séculos de escravidão.

A exclusão da educação substituiu o sequestro na África, o transporte até o Brasil, a prisão e o trabalho forçado. Somos escravocratas que não pagamos para ter escravos: nossa escravidão ficou mais barata e o dinheiro para comprar os escravos pode ser usado em benefício dos novos escravocratas. Como na escravidão, o trabalho braçal fica reservado para os novos escravos: os sem educação.

Negamo-nos a eliminar a obra da escravidão.

Somos escravocratas porque ainda achamos naturais as novas formas de escravidão; e nossos intelectuais e economistas comemoram minúscula distribuição de renda, como antes os senhores se vangloriavam da melhoria na alimentação de seus escravos, nos anos de alta no preço do açúcar.

Continuamos escravocratas, comemorando gestos parciais. Antes, com a proibição do tráfico, a lei do ventre livre, a alforria dos sexagenários. Agora, com o bolsa família, o voto do analfabeto ou a aposentadoria rural. Medidas generosas, para inglês ver e sem a ousadia da abolição plena.

Somos escravocratas porque, como no século XIX, não percebemos a estupidez de não abolirmos a escravidão. Ficamos na mesquinhez dos nossos interesses imediatos negando fazer a revolução educacional que poderia completar a quase-abolição de 1888.

Não ousamos romper as amarras que envergonham e impedem nosso salto para uma sociedade civilizada, como, por 350 anos, a escravidão nos envergonhava e amarrava nosso avanço.

Cem anos depois da morte de Joaquim Nabuco, a obra criada pela escravidão continua, porque continuamos escravocratas. E ao continuarmos escravocratas, não libertamos os escravos condenados à falta de educação.

Cristovam Buarque, ex-reitor da UnB, é senador pelo PDT-DF


Fonte: Blog do Cristovam Buarque

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Entrevista com Cristovam Buarque: "Judiciário legisla melhor"


Ter, 26 de Janeiro de 2010 14:33

Por Leandro Mazzini

Um dos poucos "fichas-limpas" - digamos pelo bordão que ganhou a boa política - do Senado, entre os 81 senadores, Cristovam Buarque (PDT) diz que, mesmo desapontado e cético, vai tentar a reeleição este ano. Ex-governador do Distrito Federal (palco de sucessivos escândalos), se diz mais útil hoje como parlamentar do que como governador. Não acredita que o Senado - também alvo de muitas denúncias de dois anos para cá - será renovado nas eleições deste ano. "Temo que talvez venha ainda pior", revela, nesta entrevista ao Jornal do Brasil, na qual ele, conhecedor do cotidiano do Congresso, sentencia: "O Judiciário está legislando melhor. Para o salvar da penúria política, o Judiciário entrou no Senado".

Jornal do Brasil - Teremos este ano eleições majoritárias e proporcionais. No que concerne ao Senado, onde dois terços das vagas são disputados, acredita que haverá renovação?
Cristovam Buarque - Sou cético a um Senado completamente diferente do atual. E temo que talvez ele venha ainda pior. Porque as pessoas que estiveram aqui mais envolvidas em problemas que descontentaram a opinião pública nacional têm um grupo de eleitores com uma fidelidade quase eterna. A fidelidade desses que não estão ligando para os problemas morais, as denúncias éticas que aqui ocorrem. Eles estão ligando mais para os benefícios que recebem, para a relação pessoal que eles têm. Então esses não estarão ameaçados. Eu temo que terminem perdendo eleição aqueles que não tiveram problemas, porque são senadores que recebem votos dos meios de formação, das pessoas mais esclarecidas, que hoje estão indignadas com o Senado e não apenas com o senador A, B ou C.

JB - Por que o Senado chegou a essa situação?
Cristovam - Primeiro, por que a política chegou a esta situação? Não o Senado. Até pouco tempo atrás era a Câmara dos Deputados. Antes eram alguns governadores, no Distrito Federal voltou a ser um governador. Fala-se muito também do Poder Judiciário. A Presidência da República esteve envolvida em mensalões. Então a pergunta não é tanto o Senado, o Senado é um dos órgãos. É a política. Por que ela chegou a isso?

JB - Então quais os motivos?
Cristovam - Eu, como cético, coloco que por trás de tudo isso está o fato de que o Brasil é um país absolutamente deseducado. Além disso, é um país absolutamente inibido socialmente. A falta de educação não faz o eleitor votar pior do que o educado. E ao não ter educação, ele sente-se atraído por aquele que lhe der uma camisa, por aquele que lhe der uns óculos. É natural isso, não tem que criticar os deseducados. Por falta de alternativas eles votam pensando apenas no imediato, apenas no bem-estar. Por isso a educação é tão importante. A educação cria alternativas, a pessoa fica amenos dependente de auxílio - "vender" seu voto. A outra coisa é a divisão social. O Brasil é um país dividido e o Estado brasileiro, ao longo da nossa história, é um Estado que prioriza os investimentos para beneficiar as camadas mais faturáveis. Quando um homem que não tem água nem esgoto na sua casa passa em frente a um edifício de luxo do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, ele vê o governo construindo aquele prédio de luxo e não botando água e esgoto nem escola no seu bairro. Você acha que ele está preocupado se alguém rouba dinheiro que ia para aquele prédio de luxo? Nada. Ele está preocupado é que em vez do dinheiro ir para a sua escola, para a água e saneamento, está indo para o prédio de luxo.

JB - Ainda sobre o Senado, o senhor acha que o presidente Lula interferiu?
Cristovam - Claro, não tenho dúvidas. Tanto que eu pedi um voto de censura ao presidente da República. O Senado é um ministério do governo Lula. O presidente José Sarney (PMDB) foi nomeado pelo Lula. Se não fosse o apoio do presidente, dificilmente ele teria continuado. Foi o PT quem impediu que se analisasse as denúncias. O pedido de investigações foi arquivado pela Comissão de Ética com os votos do PT, que vieram por determinação do presidente. Agora, não é só isso, é que o Judiciário também intervém aqui.

JB - O Judiciário está legislando?
Cristovam - Está, claro. Falando francamente, legisla às vezes até melhor do que o Congresso, do ponto de vista do que ele faz. Em alguns momentos, toma decisões que nós não tomamos. Mas, de qualquer maneira, é uma interferência, chega ao ponto até de a gente dizer: "Felizmente tem essa interferência". Por exemplo, eu coloquei aqui no meu Twitter avisando que sou a favor dos americanos estarem no Haiti. É triste eu dizer isso. Mas para salvar da penúria social, os americanos entraram no Haiti. Para o salvar da penúria política, o Judiciário entrou no Senado.

É triste, mas algumas dessas intervenções, que eu não gostaria que acontecessem, foram, no bom sentido, de como fazer a política. O Congresso, hoje, é um poder irrisório diante do Executivo e do Judiciário. Por força do Executivo e por omissão do Congresso.

JB - Um dos problemas do Congresso seria a presença de muitos suplentes no poder, muitos deles meros financiadores de campanha?
Cristovam - Não acho que esse seja um problema. Se a gente for olhar bem, não vou citar nomes, há suplentes melhores do que senadores. Eu até acho que se acabar a instituição do suplente como nos Estados Unidos, por exemplo, pode ser positivo.

JB - Mas o senhor acredita mesmo assim que o Congresso talvez se renove para pior?
Cristovam - Eu disse que acho que não vai se renovar. Temo que possa se renovar para pior, do ponto de vista dos compromissos sociais, dos compromissos éticos, da política com causa e não da política em benefício próprio.

JB - O senhor disse que o cidadão vota pensando no seu bem estar e diante de situações imediatas e supérfluas. Há quem aponte uma linha tênue separando a política de assistência social da política eleitoreira. O Bolsa Família é criticado por isso pela oposição. Concorda?
Cristovam - Eleitoreira é uma palavra que leva a uma conotação depreciativa. E eu creio que a generosidade com as massas não deve ser vista de forma depreciativa. Prefiro mil vezes o Bolsa Família do que a construção de palácios governamentais.

JB - É uma distribuição de renda que pode dar votos.
Cristovam - Mas tudo o que o governo faz de bom ajuda a ganhar eleição. Isso faz parte. Seria eleitoreiro se o governo estivesse escolhendo os beneficiários entre os seus eleitores. Agora, se quem for escolhido por critérios e depois viram eleitor, eu não chamo isso de eleitoreiro. Chamo isso de ter um benefício eleitoral. O Bolsa Família faz com que as pessoas não passem fome, isso é importante, mas não transforma, não é revolucionário. Seria revolucionário se ele continuasse como era o Bolsa Escola, quando eu criei. A gente não vê esse lado da escola.

JB - Mas o governo fiscaliza, porque criança tem que estar na escola...
Cristovam - Primeiro, não fiscaliza. Segundo, se fiscalizasse não resolvia, porque não estão na escola porque não são escolas. Mesmo que a gente tenha 100% das crianças nela, elas não estão indo à escola, elas estão indo ao prédio, que tem escrito "escola" no nome, que tem uma pessoa contratada como professor. Mas mesmo que ela frequente, é preciso que ela assista. E ela não assiste. Grande parte das crianças brasileiras vão para casa depois da hora da merenda, vão só para comer. A escola virou restaurante mirim.

JB - Nesse esforço pela educação o senhor propôs uma lei que obriga o governo a distribuir livros nas cestas básicas.
Cristovam - É um projeto que ainda não foi aprovado, está avançado.

JB - O senhor acredita que ele vai virar lei e vai ser sancionado?
Cristovam - Acredito, porque o governo que está aí já colocou o Vale Cultura, que é importante. Como é que um governo que cria o Vale Cultura vai ser contra colocar livros nas cestas básicas?

JB - O senhor, que é senador por Brasília e já foi governador do DF, acredita que haverá punição para os recentes escândalos? O caso Arruda será um divisor de águas?
Cristovam - Não dá para saber se vai ser um divisor de águas, até porque esse não é o primeiro escândalo no Brasil. Estão concentrando muito a coisa em Brasília.

JB - Brasília virou o bode expiatório?
Cristovam - Virou, mas se você olhar, não é só Brasília. Já teve Acre, Rondônia, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, e lá não foi divisor de águas ... O papel do político é construir um mundo onde não haja corrupção através de leis. E eu coloquei muitas leis para isso. Por exemplo: todo político automaticamente cair na malha fina. É um projeto meu. Acabar a reeleição. Acho que esse negócio de você se perpetuar termina criando um vício. E nós, políticos, temos que cuidar para que isso não possa se repetir.

JB - Mas como a Câmara Legislativa vai cuidar disso, se metade dela está envolvida?
Cristovam - Então a Justiça cuida.

JB - O senhor é candidato ao governo do DF?
Cristovam - Eu não devo ser candidato por diversas razões. Primeiro, eu já fui governador, a gente tem que dar uma renovada. Eu falo de gente que não esteve ainda no governo, dar uma renovada para valer, virar a página que é (Joaquim) Roriz, Cristovam, depois (José Roberto) Arruda e depois Roriz ou Cristovam de novo.

JB - E quem seria o candidato do PDT, e em qual coligação?
Cristovam - O meu hoje é o Reguffe. Mas se o PDT chegar à conclusão que deve se aliar ao PT, eu não terei nenhum constrangimento em apoiar o Agnello Queiroz. Se houver aliança com o Rodrigo Rollemberg (PSB), não tenho nenhum constrangimento.

(Colaborou João Batista Araújo)

Fonte: Jornal do Brasil de hoje, 26 de janeiro.


Fonte: Site "Cristovam Buarque"

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

PLANETA TWITTER: O pátio do hospício

Por Washington Araújo em 26/1/2010

Acessar a internet está ficando tão ou mais rotineiro que escovar os dentes logo de manhã cedo. Enquanto dormimos o mundo continua acontecendo e se acontece há que haver registro em algum portal de notícias ou em algum blog.

Gente famosa parece que morre primeiro na internet. Situação vexaminosa envolvendo celebridade ganha ares de tragédia nacional primeiro na internet. E se pensarmos um pouco, a internet está para o século 21 como a língua da vizinha para a primeira metade do século 20. Todo mundo da rua sabia tudo: a que horas o fulano chegou pelas tabelas, carregado por quem, como se deu a recepção no meio familiar. Hoje todo mundo sabe rapidinho que Nizan Guanaes esteve detonando a Bahia, o Chiclete com Banana e sabe que Xuxa foi malcriada com quem se atreveu a questionar o domínio da língua pátria por sua filha Sacha. Em mais dois ou três cliques sabemos que o Brasil perdeu Zilda Arns e o mundo uma Cidadã do Mundo, com diploma e tudo, em recente terremoto no Haiti.

Realmente a língua da vizinha (por que não do vizinho?) não daria conta de tanta coisa nova para comentar. O Brasil é um país que se conecta cada vez mais e alcança todas as classes sociais. Ao invés de nos perder nos imensos alagamentos de São Paulo, que tal nos afogar um pouquinho... em números?

Pois bem, o Brasil tinha 64,8 milhões de internautas segundo o Ibope Nielsen Online em julho de 2009 (ver aqui), um aumento de 2,5 milhões de pessoas em relação ao mês anterior. Em junho de 2008, o Ibope/NetRatings contabilizava 41,5 milhões, mas não contabilizava os acessos públicos (LAN houses, bibliotecas, escolas e telecentros), que agora passou a somar aos acessos do trabalho e de casa.

O Brasil é o quinto país com o maior número de conexões à internet (ver aqui). Nas áreas urbanas, 44% da população está conectada à internet (ver aqui): 97% das empresas e 23,8% dos domicílios brasileiros estão conectados à internet (ver aqui).

Nunca antes neste país...

E nunca se produziu tanto conteúdo, tanta informação acessível a tão grande contingente populacional como nos dias que correm. Não somos uma ilha de conectividade surgida no mar alto do mundo tecnológico. O fenômeno é planetário e mais do que nunca somos um só planeta e um só povo conectado e em vias de conexão. Prova disso é que prevê-se que em 2013, o número total de pessoas "conectadas" à internet passará a marca dos 2 bilhões, mais precisamente na casa dos 2,2 bilhões, significando um aumento de 45%, segundo o Forrester Research.

Este grande aumento se deve principalmente aos novos usuários da Ásia, com a China representando 17% da população online global. África e Oriente Médio também somam a fatia de 13%. Abarca todas as faixas etárias. Mas os jovens brasileiros podem falar com todas as letras que "estão ligados". Aqui, a gíria "tá ligado" poderia ser muito bem substituída por "tá conectado" sem alterar o sentido da simpática expressão remanescente dos últimos anos do século passado. Isso porque, uma pesquisa realizada em 12 países, mostrou que os adolescentes brasileiros podem ficar, em média, 70 horas por mês em frente a um monitor navegando na rede mundial. Fica informado das notícias de seus times, acompanha os seriados, lê os jornais, escutas as rádios, vê os vídeos mais interessantes ou que estejam causando sensação. Além disso, arrasta para seu computador músicas e filmes, fotos e charges.

Adultos na rede

Mas o que não apenas os jovens, mas também os adultos em geral mais fazem é criar relacionamentos sociais e expor-se na vitrine virtual, apresentando-se como isso e aquilo, procurando amizades ou algo mais, descobrindo por onde andam seus amigos de infância, de colégio, de faculdade, de trabalho. É para isso que milhões de pessoas se cadastram em sítios como Facebook, Orkut, Hi5, LinkedIn, MSN. Uma vez ingressados vão logo buscando sua turma, gente com que tenha afinidades, gostos, percepções, estilos de vida.

Vivemos, então, em um admirável mundo novo. Um mundo nem mesmo intuído por Aldous Huxley que cunhou a expressão como título de seu mais famoso livro. No meio de tudo isso os blogues cresceram mais que plantação de cogumelo. Todo mundo tem algo a dizer de si mesmo ou sobre o que outras pessoas pensam. E espera que alguém comente seus pensamentos.

Piados na web

A grande novidade deste século se chama Twitter (piado, em inglês). Trata-se de algo mais que uma ferramenta social de relacionamento. Seu criador Evan Williams acredita que microblogging traz dinamismo ao usuário e as possibilidades são imensas e diferenciadas. A conferir.

Como não quero ficar sabendo dez anos depois que o homem pisou na Lua também não quero ser dos retardatários que ingressam em uma onda quando esta já perdeu boa parte de seu impulso inicial, impulso sempre criativo, sempre surpreendente, sempre com gosto de futuro. Foi então que há dois meses entrei no Twitter. As regras são bem simples, é como o esperanto das redes sociais: textos de até 140 caracteres incluindo espaços, possibilidades de acompanhar a vida de outras pessoas cadastradas no sistema e também de ser acompanhado. São criados então conceitos como "seguidor" (de alguém) e "seguido" (por alguém), podemos reencaminhar para "nossos seguidores" a alguém, o texto legal que encontramos e receber, vez por outra, comentário de alguém sobre algo que expressamos no Twitter.

O uso do microblog foi logo incorporado à atividade jornalística. Jornais e revistas, emissoras de tevê, jornalistas, escritores, além das indefectíveis celebridades passaram a usar a tal ferramenta. Para alguns é um exercício de vaidade poder dizer quantos "seguidores" têm. E há narcisismo a dar com o pau. Muitos textos são para dizer que está na hora de ir dormir porque o dia foi cansativo. Outros aproveitam para endeusar suas preferências políticas e demonizar seus desafetos. E existem também as listas. Um jornal que é seguido por uma lista significa que é "acompanhado" por aqueles que assinam a lista. É um efeito multiplicador.

"Audiência" no Twitter

Apresento ao leitor os números de seguidores de alguns jornais e revistas e de alguns dos jornalistas renomados, mencionando também quantas listas os seguem: O Globo (29.946 seguidores, 1.104 listas), Folha de S.Paulo (43.806, 1.793 listas), Estado de S.Paulo (14.406, 701 listas), Jornal do Brasil (3.623, 194 listas).

Agora vamos para as revistas no Twitter: Veja (119.912 seguidores, 3.250 listas), Época (22.304, 1.058 listas), Carta Capital (17.803, 879 listas) e IstoÉ (6.805, 280 listas).

Outros veículos também chamam a atenção: Observatório da Imprensa (13.752 seguidores, 785 listas), BBC Brasil (24.046, 1.169 listas).

Como é a performance de alguns dos jornalistas mais acessados na internet brasileira no uso do Twitter? William Bonner (335.624 seguidores, 8.004 listas), Diogo Mainardi (12.617 seguidores, 184 listas), Blog do Josias (505, 31 listas), Ricardo Kotscho (100, 5 listas), Ricardo Noblat (24.700, 1.136 listas). Calma! Alguns já estão trabalhando o Twitter há anos, meses, enquanto outros faz apenas algumas semanas ou dias. E nesse caso tempo é determinante para ter uma presença forte ou fraca no Twitter. Os que são vistos em programas líderes de audiência na TV aberta levam vantagem avassaladora. O mesmo para os que escrevem em jornais e revistas de circulação nacional.

Questão de estilo

É comum que os veículos de comunicação e seus profissionais divulguem manchetes e títulos de suas matérias e forneçam de forma abreviada o hipertexto para acesso ao teor completo da matéria. William Bonner, apresentador do Jornal Nacional (TV Globo) não faz isso, cria amizade, é leve nos comentários, trata do cotidiano e parece sempre bem disposto e bem-humorado. Alguns exemplos:

** "Santo Deus! Como é que tem tanta gente nesse troço a essa hora? Eu só vim aqui descarregar fotos da viagem em vez de ficar rolando na cama." (22/1/2010)

** "Sobrinhada, como vocês todos sabem, REJUVENESCER se escreve assim - e não como o tio cometeu, só com C, né? Ocêis tudo perdoarão, espero." (21/1/2010)

** "Propaganda boa surpreende. Quando o recurso se repete, você já não sabe mais quem está anunciando. Marcas e produtos de perdem na mesmice." (19/1/2010)

Diogo Mainardi (colunista da revista Veja) extravasa comparações entre coisas que se encaixam e outras que se desencaixam. Mas são sempre comparações. Exemplos do Mainardi:

** "A embaixada brasileira em Tegucigalpa é o BBB2 sem a Cida." (1/10/2009)

** "O novo acordo ortográfico é o AI-5 da língua portuguesa."

** "Battisti é a von Richthofen que não deu certo."

** "CQC é o Pânico na UTI."

** "Joaquim Barbosa é o Sivuca do Supremo."

** "Nizan é o Repórter Vesgo da propaganda."

** "Dimenstein é o Derico da Folha."

Ricardo Kotscho mantêm o estilo que o consagrou na imprensa escrita e também no seu Balaio. Exemplos:

** "Direita vive, mostra a reação a programa de direitos humanos http://bit.ly/8liLxE
"

** "Excelências em recesso, notícias saem de férias http://bit.ly/75lkue"

** "Inclusão digital: o copo está meio cheio ou meio vazio? http://bit.ly/8SrZeH"

Danilo Gentili, o jovem mestre do stand up comedy é hoje um dos mestres do Twitter. Ele é seguido por 518.233 e por 8.374 listas. A seguir algumas das melhores "twittadas" do comediante:

** "São Paulo Fashion Week começou. A profecia de José no Egito finalmente se concretiza: a época das vacas magras chegou."

** "O Otávio Mesquita foi no show hoje e disse `Danilo, quando comecei a carreira era assim igual você´ eu disse `Por favor. Não me desanima´."

** "Eu queria muito que o Datena apresentasse o Miss Brasil. Quando a miss Maranhão passasse ele ia dizer: `Mas isso é uma calamidade´."

** "À todos desejo Feliz Natal... E aos que estão assistindo o especial da Xuxa desejo meus pêsames."

** "Atenção vocês que ficam me seguindo: Se não pararem vou chamar a polícia."

Qual a graça?

Minha filha Lara, 11, me perguntou o que é o Twitter. Expliquei que era algo como pátio de hospício: todo mundo falando sozinho e eventualmente alguém responde... Ela sorriu e me perguntou: "Mas, pai, qual é a graça disso?" Repliquei que não sabia ainda direito, que estava testando esta rede social que parece estar sempre fazendo dieta: os textos são curtos, os retornos são escassos e o ambiente é sedutor para quem tem humor ácido ou sarcástico, típico de quem prefere perder o amigo, mas não o twitter, ou melhor, a piada.

Quase 60 dias gritando no pátio, descubro que já sou seguido por mais que uma centena de outros loucos. Estes são sempre simpáticos, mansos mesmo e chegam mesmo a ficar amigos, com expressões de afeto e tudo. Quem não nos segue, mas nos visita ocasionalmente, nem chega a perceber que somos (todos) estranhos no ninho. No Twitter descobri outras facetas que até então pareciam estar submersas, algo do meu lado sombra (atenção estudiosos de Jung). Fui muitas vezes irônico. Alguns exemplos:

** "São Paulo parece Atlântida do Platão e autoridades dizem que vai tudo bem, tudo ótimo. Cidadãos precisam ser.. anfíbios!"

** "Viver a Vida da Globo lembra Ari em `esse coqueiro que dá coco´... e haja encheção de linguiça que vira a abobrinha no BBB do Bial. É dose."

** "É de lascar. O cônsul (ou cômico) do Haiti acredita que o terremoto é coisa de vodoo e aproveita pra destilar racismo. Me lembrou o Boris."

** "Cônsul do Haiti em São Paulo, racista e parlapatão, deveria ser expulso do Brasil. E logo. Olha as sandices: http://br4.in/SCRn1"

** "Os votos de feliz 2010 dos dois garis na Band foram os mais sinceros que recebi nos últimos 30 dias... e vocês? Não perguntem ao Boris."

** "OESP: `Beyoncé confirma quatro shows no Brasil´. Você não pode deixar de perder!"

** "Cristiane Pelajo no JG apresenta notícias como quem estivesse revelando a todo o momento novo segredo de Fátima!"

** "Na Final do Juízo: Judas (já está advertido para não entregar o jogo), Moisés (abrir caminho na defesa), Davi (lançar à distância)."

"Drummond: `Só aceito um de cada vez. Passa uns tempos comigo, depois mando embora, e o outro fica no lugar. 2 anjos ao mesmo tempo é demais´."

Toques de pura filosofia

Descobri que ficar olhando aquela placa em branco, aquela lacuna a ser preenchida com as 14 dezenas de caracteres era um convite quase irrecusável à filosofia. E quando me dei conta estava espalhando filosofia. Exemplos:

** "Memória é uma maneira de guardar as coisas que não queremos perder nunca."

** "Que cada manhã seja melhor do que sua véspera e cada novo dia mais rico que o dia anterior. "

** "Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela. (Joseph Pulitzer)"

** "Eu te amo, disse seu olhar para uma pedra... (Clarice Lispector)"

** "`Morri e fui diagnosticado no céu´ disse House, após checar sintomas de novo paciente que acabou de despertar numa cama do hospital..."

** "Como diria Jung `todos nascemos originais e morremos cópias...´"

** "Temos que fazer tudo o melhor possível, pois não sabemos o que é pequeno aos olhos de Deus (Martha Root)"

** "Repórter: `Clarice, o Recife aparece em seus livros?´ Resposta: `O Recife está todo em mim´. Bonito ver a insuspeitada paixão pelo Recife."

** "Se procurar bem você acaba encontrando. Não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida. (Drummond)"

** "Vi Avatar com Lara. Ótima releitura do que aconteceu nas Américas a partir de 1492. Desejo a todos em 2010 um bom Avatar!"

** "Qdo ensinamos ética em Brasília corremos o risco de os alunos sempre terem algo de muito grave a delatar."

Observação da imprensa

Trabalhar com crítica da imprensa é como criar pulgas em cativeiro. Estamos sempre buscando o que está por trás daquela informação ou imagem, daquela frase ou decisão editorial. Observei que emitir comentários vários sobre suculentos pratos do dia (i.e. polêmicas) encontrava no formato do Twitter um meio ambiente igualmente sedutor. Mergulhei de ponta em alguns dos espinhosos temas. Exemplos:

** "Não seria o caso de agora a Folha e a Veja entrevistarem o cineasta Silvio Tendler que conhece por dentro o surto do Cesar Benjamin?"

** "Brasília precisa ser resgatada. Está soterrada em grossa corrupção. Em abril faz 50 anos. Aqui meu texto: http://br4.in/waqef"

** "Mensalão do Arruda e Mensalão Mineiro estão para os Diários Associados assim como a Kriptonita está para o Super Homem."

** "Kindle DX chega ao Brasil – http://migre.me/fJGM – A engenhoca está para o livro como Knorr está pra galinha!"

** "Boris Casoy deveria ficar ouvindo seu áudio vazado ao longo de todo o ano de 2010, sempre antes de pegar no sono. Seria sua pena!"

** "Brickmann: De filmes sobre líderes providenciais, Os Dez Mandamentos foi o suficiente."

** "Tenho pena do Sean Goldman: ninguém merece ter pai (USA) e avó (BRA) tão descompensados. Menino tem família infernal."

** "Brasil enviou USD 15 milhões ao Haiti. O Japão USD 5 milhões. A força de um povo se mede por sua generosidade com o sofrimento alheio."

** "Celebridades estrangeiras são super solidárias com infelizes da Terra. Já as do Brasil... Escrevi sobre isso aqui: http://br4.in/zmMiy"

** "Os 10 piores barracos políticos – http://veja.abril.com.br/blog/10-mais/politica/os-10-piores-barracos-protagonizados-por-politicos/

Polêmicas na rede

Há também a síndrome do pensamento vazado. Algumas vezes a pessoa se empolga muito e começa a dizer sandices. A coisa se espalha como fogo em floresta canadense. Aconteceu com o publicitário Nizan Guanaes. Ele desconcertou seus 15 mil seguidores no Twitter com uma onda de ataques a Salvador e ao grupo de axé Chiclete com Banana, um ícone, na sua visão, da decadência da cidade.

Nizan publicou entre a noite de segunda-feira (11/1) e a manhã de terça (12/1) quase trinta comentários, falando mal da capital baiana. "Salvador não tem praia pro turista, não tem hotel e a orla é uma favelão", escreveu Guanaes no microblog. Aproveitou para expor seu imenso amor ao Rio de Janeiro e a Florianópolis. Sentindo cheiro de edifício em chamas o publicitário baiano tenta de todas as formas se desculpar pela confusão já descontrolada, pedindo perdão via Twitter e elogiando a música doChiclete: "A musica do chiclete é uma delicia O problema é o que o twitter é uma briga de marido e mulher, pai e filho,transmitidas ao vivo."

Um exemplo do uso inusitado da ferramenta foi o desenvolvimento da campanha de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos. Obama utilizou o microblogging exaustivamente e criou o slogan tão conhecido pelo mundo: Yes, We Can (sim, nós podemos). O uso como propaganda política não estava nos planos, nas possibilidades que o Twitter poderia cobrir. Mas foi usado de forma tão intensiva e exitosa que só encontra paralelo na campanha presidencial que nos anos 1960 contrapôs Nixon a Kennedy usando o novo meio de comunicação moderna e eficiente conhecido como... televisão.

Mas quem sai bem mesmo no Twitter se a métrica for a quantidade de seguidores não é nenhum político, nem estadista, nem candidato a alguma coisa, nem gente com dezenas de anos lidando com o público. É o apresentador de tevê Luciano Huck. Ele tem 1.686.502 seguidores e é acompanhado por 9.675 listas.

No mais... o pátio do hospício só faz aumentar e nunca tantos falaram tanto ao mesmo tempo.


Fonte: Site Observatório da Imprensa" de 26.01.2010

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

"Sorte" de Celso Fonseca e Ronaldo Bastos

"Lôro" (para Hermeto Paschoal) de Egberto Gismonti

"Song For My Father" de Horace Silver

Envolvidos em escândalos disputam, com chances, eleições de outubro

Cristiane Agostine e Raymundo Costa, de Brasília
25/01/2010



As eleições de 2010 podem representar a volta por cima de governadores, deputados e senadores transformados em verdadeiros zumbis da política na sucessão de escândalos que envolveu a última legislatura. Não importa o partido: a maioria tem chances reais de voltar sacramentada pelo voto em outubro. A exceção, pelo menos nesta eleição, é o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, que se desligou do DEM no desdobramento da Operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal. Arruda é o protagonista do show de horrores em que transformou a política de uma cidade que nasceu para ser moderna, mas que às vésperas dos seus 50 anos, exibe os piores vícios da classe.

Além dos políticos com bolsas, meias e cuecas recheadas de dinheiro, estarão na mira do eleitor em outubro pesos-pesados dos mais diversos partidos. Da lista constam o ex-presidente do Senado e atual líder do PMDB, Renan Calheiros (AL); o ex-governador do Maranhão Jackson Lago (PDT-MA) - que perdeu o mandato para a senadora Roseana Sarney por uma decisão da Justiça Eleitoral -; o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) pela acusação de montar o "mensalão mineiro"; o senador Aloizio Mercadante (PT-SP), por conta dos "aloprados"; e o grupo político do senador José Sarney, especificamente a governadora Roseana, que deve tentar mais um mandato em 2010.

Renan Calheiros passará pelo primeiro teste eleitoral após a crise que o derrubou da presidência do Senado, em 2007. O pemedebista foi acusado de ter despesas pessoais pagas por um lobista e desgastou-se em um processo político que durou mais de seis meses, que o levou a renunciar ao cargo para não ter o mandato cassado. O episódio ainda sobrevive nas páginas de um livro publicado pela jornalista com a qual o senador teve um filho fora do casamento. Até a eleição para a Mesa do Senado, em fevereiro de 2009, Renan vagava, como um "zumbi", pelos corredores da Casa, expressão usada pelos congressistas quando se referem aos colegas caídos em desgraça política.

Aliado de primeira hora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Alagoas, único Estado em que o atual governador de São Paulo, José Serra (PSDB), ganhou as eleições de 2002, Renan manteve, no entanto, os bons contatos e a influência sobre a bancada do PMDB, a maior do Senado. Em pouco tempo retomou o poder e prestígio político, tornando-se credor da eleição de Sarney à presidência do Senado; articulou a eleição do ex-presidente Fernando Collor de Mello (PTB-AL) para a presidência da Comissão de Infraestrutura do Senado - que acompanha as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC); e ajudou a sepultar a CPI da Petrobras. Renan mostrou-se fiel a Lula e fez com que a bancada do PMDB, da qual voltou a ser líder após renunciar à presidência da Casa, aprovasse os principais projetos de interesse do governo.

A fidelidade a Lula o ajudará na eleição de outubro. O presidente será um dos seus principais apoiadores e articula com o ex-governador Ronaldo Lessa (PDT) para que ele dispute o governo do Estado, deixando uma das cadeiras do Senado para facilitar a reeleição de Renan. Em recentes pesquisas eleitorais, o pemedebista aparece em terceiro nas intenções de voto para o Senado, atrás da vereadora Heloísa Helena (P-SOL) e de Lessa. A articulação de Lula garantiria a ele a segunda vaga do Senado. Lessa, no entanto, poderá ser sacrificado na disputa por Alagoas, ao enfrentar o governador Teotonio Vilela (PSDB) e Fernando Collor.

Há outra opção sendo articulada nos bastidores, para levar os governistas a ficar com as duas vagas do Senado. Por essa via o candidato ao governo seria o prefeito de Maceió, Cícero Almeida (PP), e a coligação para o Senado teria além de Renan e Lessa, Eduardo Bonfim (PCdoB) e Benedito de Lira (PP). O ex-presidente Fernando Collor também avalia a hipótese de se lançar candidato ao Estado por esse campo.

Seja com Cícero ou Collor, é dado como certo que Renan ficaria com uma das vagas e um dos outros três - talvez Lessa - disputaria a segunda cadeira com Heloísa Helena. A peleja em Alagoas tem tudo para ser acirrada: Teotonio Vilela será candidato à reeleição, tem a máquina nas mãos e o senador João Tenório (PSDB) como candidato a mais um mandato.

A família Sarney, envolvida na crise seguinte a de Renan no Senado, ainda não sentiu no Maranhão os reflexos do desgaste político de 2009. O grupo político pretende manter o controle sobre o Estado e apoiará a reeleição da governadora Roseana Sarney (PMDB). A filha de Sarney aparece em primeiro lugar nas pesquisas de opinião e a família pretende eleger, também, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, para o Senado.

Sarney foi alvo de denúncias de irregularidades durante todo o ano passado, desde sua eleição para a presidência do Senado. Entre as acusações está a contratação de parentes por meio de atos secretos. Durante a crise, ele teve apoio do presidente Lula, que deverá ser retribuída durante a campanha de 2010. A campanha de Roseana deverá ser o principal palanque no Estado para a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), candidata à sucessão de Lula. Na base governista, disputará também o deputado Flávio Dino (PCdoB), derrotado no segundo turno em 2008, quando concorreu à Prefeitura de São Luis. Dino aparece em segundo lugar nas pesquisas e deve ter apoio do PT.

A disputa pelo governo do Maranhão trará outro político envolvido em denúncias desde a última eleição nacional: Jackson Lago (PDT), eleito em 2006 e cassado em 2009, na segunda metade de seu governo. Lago deverá reeditar a disputa de 2006, com Roseana, quando derrotou a pemedebista e derrubou, ainda que por pouco tempo, a hegemonia sarneysista de 40 anos no Estado. O pedetista deverá ter ao seu lado o PSDB, partido que contou com seu apoio nas disputas de 2008.

A eleição de 2010 também será um teste para o ex-presidente do PSDB Eduardo Azeredo. No ano passado o STF aceitou a denúncia contra o tucano no caso que ficou conhecido como "mensalão mineiro". Os ministros do STF concluíram que o Ministério Público deve aprofundar as investigações para apurar o desvio de pelo menos R$ 3,5 milhões dos cofres de Minas Gerais para a campanha à reeleição de Azeredo ao governo local, em 1998. Como forma de manter-se na vida pública e ter foro privilegiado, o ex-governador de Minas e senador disputará uma vaga na Câmara dos Deputados. Para Azeredo, "nunca houve mensalão em Minas". O tucano diz que foi vítima dos vícios da estrutura eleitoral brasileira. "É um problema das eleições. Quem está na vida pública está sujeito a esse tipo de problema."

Azeredo escolheu disputar a Câmara para não ficar sem mandato. No Senado, o PSDB deverá lançar o governador de Minas, Aécio Neves. A hipótese de Aécio ser vice na chapa presidencial, com José Serra, é remota, segundo Azeredo, que na quinta-feira conversou com o governador sobre a montagem da chapa tucana no Estado. A outra vaga de Minas no Senado poderá ficar com o vice-presidente José Alencar. Há ainda a possibilidade de o ministro Hélio Costa (Comunicações) também disputar o Senado, pelo PMDB.

Alvejado pelo caso dos "aloprados", o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) tentará um novo mandato com uma candidatura bem mais tranquila do que foi há quatro anos, quando concorreu ao governo de São Paulo. O caso dos "aloprados" envolveu integrantes de sua campanha na suposta compra de documentos com denúncias contra José Serra, rival de Mercadante na disputa, e contra Geraldo Alckmin, candidato à Presidência em 2006. O episódio derrubou o coordenador de comunicação da campanha de Mercadante, Hamilton Lacerda. Caiu também da coordenação geral da campanha do presidente Lula o presidente do PT, Ricardo Berzoini - que neste ano deverá tentar mais um mandato como deputado federal.

Dos envolvidos em escândalos, o único que deverá ficar de fora de cargo eletivo em 2011 é o governador José Roberto Arruda, pois não está filiado a partido. Em dezembro, Arruda saiu do DEM, no auge do escândalo do "mensalão do DEM", um suposto esquema de corrupção, com desvio de recursos para pagamento de aliados em troca de apoio. Arruda planeja voltar à cena política em 2014. Nesta eleição, no entanto, deve disputar o governo estadual seu vice, Paulo Octavio (DEM).


Fonte: Jornal "Valor Econômico" de 25.01.2010.

Pintura: Grupo em Crinolina (1909) de Kandinsky



Wasily Vasilyevich Kandinsky nasceu em 4 de dezembro de 1866 (no novo calendário, 16 de dezembro), em Moscou, e faleceu em 13 de dezembro de 1944, em Neuilly-sur-Seine, França. O artista russo é um dos fundadores da abstração na arte moderna. Após várias exposições avant-garde de muito sucesso, ele criou o grupo Der Blau Reiter (O Cavaleiro Azul; 1911-1914) que foi muito influente e dessa época em diante sua pintura tornou-se inteiramente abstrata. Suas formas evoluíram de fluidas e orgânicas para geométricas e, finalmente, para pictográficas, i.e, onde as idéias se exprimem por meio de cenas figuradas ou simbólicas.

A tentativa que faço é mostrar um pouco da evolução desse pintor tão importante nas artes plásticas de nosso tempo. Kandinsky viveu em Paris entre 1906 e 1907 e a cidade e o ambiente artístico muito o influenciaram. Escolhi telas que vão desse período até quase sua morte, e vocês poderão ver como ele de influenciado passou a influenciador.

O “Grupo em Crinolina”, jovens mulheres com as anáguas que então usavam para dar volume às saias, é obra de transição do pintor, marca sua mudança de rumo: é quando ele começa a se dedicar à arte abstrata. Apesar de pintado em Munique dois anos depois de Kandinsky ter deixado Paris, recorda claramente o quanto ele apreciava a arte moderna francesa. A reunião ao ar livre, de homens e mulheres vestidos na moda da época, é reminiscente dos quadros de Manet.

Percebe-se a herança impressionista mas também o esquema de cores brilhantes e intensas dos fauvistas. Durante sua estadia em Paris, Kandinsky expôs no Salão de Outono de 1906, no qual as estrelas eram os Impressionistas e os Fauvistas. Sua admiração por Matisse, um dos expositores, está registrada em seu tratado “Do Espiritual na Arte”, escrito em 1911 (Ed. Martins Fontes, 2000) onde ele afirma que Henri Matisse era um dos maiores pintores modernos franceses.

Em 1909 ele pintou uma segunda versão de “Crinolinas”, hoje na Galeria Tretiakov em Moscou. Em 1911, pintou a tela “Pastoral”, obra com tema similar embora formalmente mais abstrata, na qual ele coloca o grupo numa paisagem utópica francamente estilizada.

“Grupo em Crinolina” é óleo sobre tela, e mede 95,2 x 150,1cm.

Acervo Museu Guggenheim, Nova York


Fontes: http://www.guggenheim.org/

Encyclopedia Britannica

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Wassily Kandinsky (em russo: Василий Кандинский) (Moscou, 4 de dezembro de 1866 — Neuilly-sur-Seine, 13 de dezembro de 1944) foi um artista russo, professor da Bauhaus e introdutor da abstração no campo das artes visuais. Apesar da origem russa, adquiriu a nacionalidade francesa.

Vida

Nascido em Moscou, passou grande parte da infância em Odessa. De volta à capital russa, estudou Direito e Economia na Universidade de Moscou, chegando a diplomar-se em Direito aos 26 anos, mas desistiu dessa carreira.

Os primeiros anos em Munique

Casou-se em 1892 com a sua prima Anja Tchimikian, que acompanhou Kandinsky em 1896 quando este se mudou para Munique, iniciando os seus estudos em pintura na escola de Anton Ažbè. O estilo da escola de Ažbè desiludiu Kandinsky, que preferia pintar paisagens coloridas ao ar livre em vez de modelos "malcheirosos, apáticos, inexpressivos, geralmente destituídos de carácter". [1]

Após dois anos, Kandinsky tenta inscrever-se, sem sucesso, num curso ministrado por Franz von Stuck. Um ano depois Kandinsky ingressou finalmente no curso, que frequentou até 1900. Em Maio de 1901, Kandinsky co-fundou a sociedade artística Phalanx e foi professor na escola fundada pouco tempo depois pela sociedade. Uma das suas alunas foi Gabriele Münter, que se tornou companheira de Kandinsky até 1914. Kandinsky separou-se de Anja Tchimikian em 1903.

O início do abstracionismo

Já na década de 1910 Kandinsky desenvolve seus primeiros estudos não figurativos, fazendo com que seja considerado o primeiro pintor ocidental a produzir uma tela abstrata. Algumas das suas obras desta época, como "Murnau - Jardim I" (1910) e "Grüngasse em Murnau" (1909) mostram a influência dos Verões que Kandinsky passava em Murnau nessa época, notando-se um crescente abstraccionismo nas suas paisagens. Outra influência nas suas pinturas foi a música do compositor Arnold Schönberg, com quem Kandinsky manteve correspondência entre 1911 e 1914.

O período da Primeira Guerra Mundial

Com o eclodir da Primeira Guerra Mundial, Kandisnky é forçado a abandonar a Alemanha, partindo para a Suíça acompanhado por Gabriele Münter em 3 de Agosto de 1914, esperando um fim rápido do conflito. Quando este não se concretizou, Kandinsky voltou à Rússia, separando-se de Münter, a 16 de Novembro do mesmo ano. Aproveitando uma exposição em Estocolmo em 1916, Kandinsky permanece na Suécia, onde conhece a sua terceira companheira, a russa Nina de Andreewsky, até ao advento da Revolução Russa. Volta então à Rússia interessado nos rumos do país, mas desentende-se com as teorias da arte oficiais e retorna à Alemanha em 1921.

A Bauhaus e últimos anos

Em constante contato com os artistas da vanguarda, passa a lecionar na Bauhaus até 1933 quando a escola é fechada pelo governo nazista. Muda-se para Paris e aí viveu até o fim de sua vida. Faleceu em Neuilly-sur-Seine em 1944.

Desenvolveu a arte abstrata até o fim de sua vida. Junto a Piet Mondrian e Kasimir Malevich, Wassily Kandinsky faz parte do "trio sagrado" da abstração, sendo o mais famoso.

Períodos artísticos

A criação de Kandinsky de trabalhos puramente abstractos seguiu um longo período de intenso desenvolvimento e amadurecimento do pensamento teórico baseado nas suas experiências pessoais artísticas. Chamou a esta devoção como beleza interior, fervor de espírito e uma necessidade funda de desejo espiritual, que foi o aspecto principal da sua arte.

Kandinsky aprendeu através de diversos recursos durante a sua juventude em Moscovo. Mas mais tarde na sua vida ele seria lembrado como sendo fascinado e raramente estimulado pela cor como uma criança. O fascínio pelo simbolismo e psicologia da cor continuaram durante o seu crescimento, apesar de parecer nunca ter estudado arte. Em “Looks on the Past” ele relata que as casas e as igrejas eram decoradas com cores tão brilhantes que, uma vez lá dentro, teve a impressão de se estar a mover dentro de uma tela pintada. A experiência e o seu estudo sobre a arte do povo na região, em particular o uso de cores brilhantes sobre fundo negro, refletiu-se nos seus trabalhos mais recentes. Anos mais tarde, ele relacionou o acto de pintar para criar música na maneira que mais tarde viesse a ser mais reconhecido e escreveu “As cores são a chave, os olhos o machado, a alma é o piano com as cordas”. Ele foi similarmente influenciado durante este período pela ópera de Richard Wagner Lohengrin com a qual ele sentiu que quebrou os limites da música e da melodia além do lirismo tradicional.

Kandinsky foi igualmente espiritualmente influenciado por Helena Petrovna Blavatsky (1831- 1891), o mais importante exponente da Teosofia nos tempos modernos. A teoria teosófica solicitou que a criação é uma proporção geométrica, começando num único ponto. O aspecto criativo das formas é expressado por uma série descendente de círculos, triângulos e quadrados. Os livros de Kandinsky ecoam estes princípios básicos teosóficos.

O Cavaleiro Azul

As pinturas de Kandinsky do período em que fez parte do grupo Der Blaue Reiter ("O cavaleiro Azul") (1911-1914), foram compostas por massas coloridas largas e bastante expressivas, avaliadas independentemente a partir de formas e linhas que já não serviam para delimitá-las. Estas seriam sobrepostas numa forma bastante livre para formar pinturas duma força extraordinária.

A influência da música foi bastante importante no nascimento da arte abstracta, como sendo abstracta por natureza, este não tenta representar o mundo exterior mas antes para expressar, numa maneira imediata, os sentimentos interiores da alma humana. Kandinsky às vezes usava termos musicais para designar o seu trabalho; ele chamou a muitas das suas pinturas espontâneas “Improvisações”, e “Composições” a outras muito mais elaboradas e trabalhadas em comprimento, um termo que ressoou nele como um orador.

Além da pintura Kandinsky desenvolveu a sua opinião como um teórico da arte. De facto, a influência de Kandinsky na história da arte do ocidente talvez resulte mais dos seus trabalhos teóricos do que propriamente das suas pinturas.

Ao mesmo tempo que escrevia “Do espiritual na Arte”, Kandinsky escreveu o Almanaque do Cavaleiro Azul, que serviram tanto como defesa e promoção da arte abstracta, assim como uma prova de que todas as formas de arte eram igualmente capazes de alcançar o nível da espiritualidade. Ele acreditava que a cor podia ser usada numa pintura como uma coisa autónoma e distanciada de uma discrição visual de um objecto ou de uma qualquer forma.

O período de grande síntese (1934-1944)

Em Paris, Kandinsky estava bastante isolado, uma vez que a pintura abstracta - particularmente a pintura abstracta geométrica – não foi reconhecida, sendo as os movimentos mais apreciados o Impressionismo e o Cubismo. Kandinsky viveu num pequeno apartamento e criou o seu trabalho num estúdio construído na sua sala de estar. Formas biomórficas com flexibilidade e contornos não geométricos apareceram nas suas pinturas; formas que sugerem organismos externamente microscópicos mas que expressam sempre a vida interior do artista. Ele usou a cor puras nas suas composições que evocavam a arte popular de Slavonic e que era similar a preciosos trabalhos de marca-de-água. Nas suas obras, ocasionalmente misturava também areia para dar a textura de granulado aos quadros.

Este período correspondeu, de facto, a uma vasta síntese do seu trabalho anterior, no quando ele usa todos os elementos, e até os enriquece. Em 1936 e 1939 ele pinta as suas duas ultimas grandes composições; Lonas particularmente elaboradas e lentamente rasgadas que ele não produziu por muitos anos. Composição IX é uma pintura com umas diagonais poderosas de alto contraste e cuja forma central da a impressão de um embrião humano no ventre. Os pequenos quadrados de cores e as faixas coloridas parecem projectar contra o fundo preto da Composição X, como fragmentos de estrelas ou filamentos, enquanto hieróglifos com tons de pastel obrem o grande plano marrom, que parece flutuar no canto esquerdo superior da lona.

No trabalho de Kandinsky, algumas características são obvias, enquanto certos toques são mais discretos e velados; isto servia para dizer que eles se revelavam só progressivamente àqueles que fazem um esforço para aprofundar a sua conexão com o seu trabalho. Pretendeu que as suas formas fossem subtilmente harmonizadas e colocadas, para ressoar com a própria alma do observador.

Referências

1. ↑ BECKS-MALORNY, Ulrike, Wassily Kandinsky, Taschen, Köweatrendln, 1995, ISBN 3-8228-2352-X


Fonte: Wikipedia

Os EUA e o país dos Tonton Macoutes

Na 3ª dia 12 de janeiro o mundo constatou que aqueles que nada têm podem ter menos ainda.

O terremoto no Haiti devastou o pouco de reconstrução que foi feito sob ocupação da ONU e cujo comando ate então pertencia a potência regional com pretensões globais chamada Brasil.

No momento o país tenta sobreviver entre a corrida pelo aumento da ajuda humanitária, a disputa pela retomada da hegemonia absoluta na região pelos EUA e a pouca capacidade de institucionalizar qualquer coisa lá que não seja a extrema pobreza, a corrupção e a violência entre os pobres.

É preciso reconhecer que a tragédia do abalo sísmico só piorou o que já era péssimo.

Outros tremores de terra atingiram nações do Continente, como em El Salvador e no México, e nem por isso a sociedade se esfacelou, muito pelo contrário.

A desintegração social do país mais pobre das Américas também é fruto também de um comportamento de elite predatória diretamente influenciada pelos EUA.

É impossível compreender minimamente o que hoje se passa no Haiti sem dar-nos conta da repressão violenta e a ação imperial de que a parte francófona da Ilha de Hispaniola sofrera.

Trata-se do mesmo povo que orgulhosamente conquistara a sua independência em 1804, antes de Brasil, Argentina e México.

As glórias de seu nascimento não se reeditaram no século XX, quando os haitianos sobreviveram sob uma mescla de ocupação militar dos EUA e ditadura com ares imperiais.

A “dinastia” dos Duvalier, iniciada com François (1957-1971, o Papa Doc) e seu filho François (1971-1986, Baby Doc), precedida da ocupação militar dos EUA de 1915 a 1934, deixara profundas raízes de violência entre a população.

A ditadura que fora derrubada por um levante popular em 1986, tinha como base o terror que os Tonton Macoutés, a milícia pró-regime Duvalier, causava na sociedade.

A democracia lá vivera poucos meses, pois estes mesmos membros da conhecida Milícia Voluntária em Defesa da Segurança Nacional, se negavam a ser julgados por crimes de lesa-humanidade pelo governo do então eleito ex-padre católico Jean Bertrand Aristide.

A nova tragédia haitiana lá começava quando após poucos meses de exercício do poder, um golpe liderado pelo Exército derruba o ex-cura e reabre as portas para intervenções estadunidenses ou patrocinadas pela ONU.

Em 1994 Aristide retorna ao país pela força das tropas de ocupação e a “ajuda” é acompanhada de recomendações para privatizar as poucas empresas estatais.

Em 2000 e 2004 o braço dos EUA somado aos interesses da oligarquia local e os para-militares desestabilizam todas as tentativas de governo soberano.

Definitivamente, “ajudar” a reconstruir o país não é vender o que resta ou arrumar contratos para empresas amigas de governos de turno.

Distintas fontes acadêmicas sérias apontam que a reconstrução do Haiti implica na necessidade urgente de subsídio e promoção da agricultura familiar, base da produção primária do país.

Em 1970, esta nação produzia 90% do alimento consumido. Atualmente 55% da comida é importada. Qualquer reestruturação séria e de longo prazo começa pela soberania alimentar.

Só falta combinar com o Departamento de Estado dos Estados Unidos.



Bruno Lima Rocha é cientista político
(www.estrategiaeanalise.com.br / blimarocha@via-rs.net)


Fonte: Blog do Noblat em 15.01.2010.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Walter Franco - Documentário







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Walter Franco



Foto: Mário Luiz Thompson



Walter Rosciano Franco nasceu em São Paulo SP em 06 de Janeiro de 1945. Filho do radialista e escritor Cid Franco, estreou como participante de festivais universitários, quando era aluno da Escola de Arte Dramática, de São Paulo. Nessa escola, compôs músicas para as peças Caminho que fazem Darro e Genil até o mar, de Renata Pallottini, A caixa de areia, de Edward Albee, As bacantes, de Ésquilo, entre outras. Foi o autor do tema da novela Hospital, da TV Tupi, gravada em compacto simples pela Philips em 1971, com arranjos do maestro Luís Arruda Pais e participação vocal de Silvia Maria. Participou do I, II e III Festivais Universitários, da TV Tupi paulistana, no primeiro com a musica Não se queima um sonho, defendida por Geraldo Vandré; no segundo com Sol de vidro (com Eneida), classificada em terceiro lugar, e no terceiro com duas musicas, Animal sentimental e Pátio dos loucos. Em 1972 obteve prêmio especial com Cabeça, no VII FIC, da TV Globo, Rio de Janeiro RJ. Seu primeiro LP foi lançado pela Continental em 1973; dois anos depois, colocou sua musica Muito tudo em terceiro lugar, no Festival Abertura, da TV Globo, de São Paulo. Em 1979 participou do Festival da TV Tupi com Canalha. Em 1982 participou do MPB Shell com Serra do luar. Em 1984, sua musica Seja feita a vontade do povo ganhou destaque durante o Movimento Diretas Já. Excursionou pelo Brasil em 1997, com o show Não violência, que incluiu as inéditas Quem puxa aos seus não degenera, uma balada pacifista; Na ponta da língua; É natureza criando a natureza; Sargento Pimenta, uma homenagem a John Lennon; Nasça, em parceria com Arnaldo Antunes; e Totem, a partir de um poema de José Carlos Costa Neto. Lançou os discos Cabeça, Revolver, Ou não, Respire fundo, Vela aberta. Compõe jingles para publicidade.

Biografia: Enciclopédia da Música Brasileira
Art Editora e PubliFolha

Repensando a redução da pobreza

Histórico ambíguo coloca em dúvida a eficácia das abordagens comuns

Jomo Kwame Sundaram - 22/01/2010

A desigualdade parece ter aumentado nas décadas recentes, no nível internacional e na maioria dos países

No ano passado, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação anunciou que o número de pessoas famintas no mundo aumentou ao longo da década passada. Em 2008, o Banco Mundial havia anunciado uma queda substancial no número de pessoas pobres até o ano de 2005. Mas se a pobreza é definida principalmente em termos da renda em dinheiro necessária para evitar a fome, como podem anúncios dessa natureza ser conciliados?

De acordo com a muito citada linha de pobreza internacional de "um dólar por dia" do Banco Mundial, que foi corrigida em 2005 para US$ 1,25 por dia a preços de 2005, ainda há 1,4 bilhão de pessoas vivendo na pobreza, numa queda ante 1,9 bilhão em 1981. No entanto, considerando que a China respondeu pela maioria dessa queda, havia pelo menos 100 milhões de pessoas a mais vivendo na pobreza fora da China em 2005 do que em 1981.

Na África subsaariana e em partes da Ásia, a pobreza e a fome continuam obstinadamente elevadas. Agências internacionais estimam que mais de 100 milhões de pessoas se tornaram pobres como resultado dos preços mais altos dos alimentos durante a crise de 2007-2008, e que a crise econômica e financeira global de 2008-2009 foi responsável por um aumento de outros 200 milhões. A adiada recuperação dos postos de trabalho da recessão global continuará sendo um desafio de grandes proporções para a redução da pobreza nos próximos anos.

Enquanto isso, controvérsias de medição continuam lançando suspeitas sobre o progresso atual. Com a adoção, na Cúpula Social de 2005, de uma definição mais ampla de pobreza, que inclui pobreza absoluta, exclusão social e falta de participação, a situação hoje pode estar ainda pior do que é indicado por uma linha de pobreza baseada em receita em dinheiro.

A desigualdade parece ter aumentado nas décadas recentes, no nível internacional e na maioria dos países. Mais de 80% da população mundial vive em países onde os diferenciais de renda estão se ampliando. Os 40% mais pobres na população mundial respondem por apenas 5% da renda mundial, enquanto os 20% mais ricos representam 75%.

O histórico ambíguo da redução da pobreza coloca em dúvida a eficácia das abordagens convencionais. Países foram aconselhados a abandonar suas estratégias de desenvolvimento nacional em prol da globalização, liberalização de mercados e privatização. Em vez de gerar crescimento veloz sustentado e estabilidade econômica, essas políticas tornaram os países mais vulneráveis ao poder dos ricos e aos caprichos das finanças internacionais e da instabilidade global, que se tornaram mais frequentes e graves devido à desregulamentação.

A lição mais importante é a necessidade de crescimento veloz sustentado e de transformação econômica estrutural. Os governos precisam desempenhar um papel desenvolvimentista, com a implantação de políticas concebidas para apoiar a produção inclusiva e a expansão do emprego, bem como para reduzir a desigualdade e promover a justiça social.

Esse tipo de abordagem precisa ser complementado por investimento industrial e políticas tecnológicas apropriadas, e por linhas financeiras inclusivas projetadas para apoiá-las. Além disso, capacidades de produção novas e potencialmente viáveis precisam ser promovidas por meio de políticas desenvolvimentistas complementares.

Por outro lado, a insistência num governo mínimo e na dependência no mercado provocou quedas abruptas no investimento em infraestrutura pública, especialmente na agricultura. Isso não só prejudicou o crescimento de longo prazo como também aumentou a insegurança alimentar.

Defensores das políticas de liberalização econômica citaram o sucesso das economias do Leste Asiático que atravessam veloz processo de industrialização. Mas nenhuma dessas economias buscou a liberalização econômica indiscriminada. Em vez disso, os governos desempenharam um papel desenvolvimentista ao apoiarem a industrialização, agricultura e serviços de maior valor agregado e aperfeiçoamento das capacidades humanas e tecnológicas.

As transformações estruturais deverão promover emprego pleno e produtivo, bem como trabalho decente, ao passo que os governos deverão ter espaço fiscal e político suficiente para permitir que desempenhem um papel positivo e para oferecer proteção social universal adequada.

As três décadas passadas também testemunharam o divórcio das políticas sociais das estratégias de desenvolvimento global como consequência da campanha por governos com autoridade mais limitada. As estratégias de desenvolvimento econômico nacional foram substituídas por programas de redução de pobreza preferidos dos doadores, como concessão de títulos de posse de terra, microcrédito, e marketing "na base da pirâmide", dirigido aos pobres.

Esses modismos não conseguiram reduzir a pobreza substancialmente. Isso não significa negar algumas consequências positivas. Por exemplo, o microcrédito capacitou milhões de mulheres, ao passo que lições importantes foram aprendidas com a concepção e implantação desses programas.

Enquanto isso, os programas sociais universais melhoraram muito mais o bem-estar humano que os programas condicionais e dirigidos. No entanto, programas de transferência condicional de renda têm sido muito bem-sucedidos na melhoria de vários indicadores de desenvolvimento humano.

Lamentavelmente, a pobreza continua endêmica, com mais de um bilhão de pessoas passando fome a cada dia. É necessária uma iniciativa urgente, à medida que a recente crise econômica e financeira, que se seguiu duramente à crise nos preços dos alimentos, teria atrasado ainda mais o progresso para a redução da pobreza. Crescem também os temores de que a mudança climática possa ameaçar as vidas dos pobres de forma ainda mais adversa.

O relatório bianual sobre a Situação Social do Mundo (RWSS 2010) das Nações Unidas, intitulado "Repensando a Pobreza", apresenta um argumento convincente para repensar a medição da pobreza e as iniciativas de redução da pobreza. Para os pobres do mundo, o lema "negócios como sempre" jamais foi uma opção aceitável. As tendências populares das décadas recentes tampouco se revelaram muito melhores. Não acontecerá nenhuma erradicação da pobreza sem desenvolvimento econômico justo e sustentável, que os mercados desregulados comprovaram ser incapazes de produzir por conta própria.

Jomo Kwame Sundaram é secretário-geral adjunto das Nações Unidas para Desenvolvimento Econômico. Copyright: Project Syndicate, 2010. www.project-syndicate.org


Fonte: Jornal "Valor Econômico" de 22.01.2010

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A história do Haiti é a história do racismo na civilização ocidental

Por Eduardo Galeano, em Resumen Latinoamericano, via Resistir.info

A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca ideia de querer um país menos injusto.

O voto e o veto
Para apagar as pegadas da participação estadunidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito nem sequer com um voto.

Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:
– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.

O álibi demográfico
Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Porto Príncipe, qual é o problema: – Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.

E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro quadrado.

Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.

Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.

A tradição racista
Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do Citybank e abolir o artigo constitucional que proibia vender as plantations aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis pela invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".

O Haiti fora a pérola da coroa, a colônia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".

Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".

A humilhação imperdoável
Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.

A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.

O delito da dignidade
Nem sequer Simón Bolívar, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar havia podido reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete naves e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma ideia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.

Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pênis. Por essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indenização gigantesca, a modo de perdão por haver cometido o delito da dignidade.

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.

Eduardo Galeano é escritor


Fonte: Revista "Caros Amigos" de 20.01.2010

"Vanguarda do atraso"

20/01/2010

Cynara Menezes


"O moderno aqui ficou só nos edifícios", constata tristemente o geógrafo gaúcho Aldo Paviani, pousando o olhar sobre Brasília, aonde chegou em 1969. Prestes a completar 50 anos, a capital criada por Juscelino Kubitschek, Lucio Costa e Oscar Niemeyer transformou-se numa melancólica contradição de si própria. O arrojo de sua arquitetura contrasta com uma prática política digna dos grotões mais atrasados do País: roubalheira, enriquecimento ilícito, domínio da mídia e do Legislativo, violência policial subjugando a população, voto de cabresto.

Como é que a moderna Brasília, nascida para tirar o Brasil do arcaísmo, projetada para incluir o País no Primeiro Mundo, se tornou terra de coronéis? No discurso de inauguração da capital, em abril de 1960, JK vislumbrava um destino civilizador para a recém-nascida “capital da esperança”, como a definiu o escritor francês André Malraux. Brasília, disse Juscelino, seria um “índice do alto grau de nossa civilização”. Nem podia imaginar que, cinquentona, sua criação seria, ao contrário, lançada à barbárie e às bestas-feras da política mais rastaquera.

As imagens de vídeo em que o governador José Roberto Arruda e auxiliares diretos recebem dinheiro e os acontecimentos subsequentes evidenciam que ingredientes típicos do velho coronelismo são utilizados pelos detentores do poder na capital. Na semana que passou, requintes de desfaçatez. Arruda conseguiu colocar aliados no domínio das comissões que vão investigá-lo. Como se não bastasse, o deputado distrital que apareceu para todo o Brasil colocando notas de dinheiro na meia, Leonardo Prudente, voltou a presidir a Câmara Legislativa para ajudar a salvar a pele do chefe.

No fim de 2009, policiais a cavalo apareceram nas telas de tevê pisoteando -manifestantes. “É a polícia mais bem paga do Brasil e uma verdadeira guarda pretoriana do governador”, diz o cientista político Paulo Kramer, da Universidade de Brasília (UnB). Nos últimos dias, os soldados voltaram a reprimir as manifestações contra o governador, agarrando estudantes pelo pescoço em cenas dignas do auge do domínio de Antonio Carlos Magalhães sobre a Bahia. Não à toa, o finado coronel ACM e Arruda foram comparsas no episódio da violação do painel eletrônico do Senado, em 2001, que motivaria a renúncia e as lágrimas de crocodilo do atual governador do Distrito Federal.

Diante das denúncias reveladas pela imprensa nacional, causaram espécie as manchetes anódinas do Correio Braziliense, principal jornal da capital, que evitou até o último momento citar o nome do governador na primeira página. Na terça-feira 12, após a dominação por Arruda das comissões de investigação, o Correio titulava simplesmente: “Distritais instalam CPI”. A ligação umbilical do diário com o governador foi explicitada por CartaCapital em julho, na reportagem que revelou o contrato no valor de 2,9 milhões de reais entre o GDF e o Correio para a distribuição de exemplares do jornal nas escolas públicas.

O que se pratica hoje em Brasília é um coronelismo de asfalto”, define Paulo Kramer, para quem a razão do atraso político da capital está em seu próprio status de cidade-Estado. “Como ela vive basicamente da administração pública, reproduz uma estrutura onde o Estado é forte e a sociedade é fraca”, argumenta. “É de certa forma similar ao que aconteceu nos países do Leste Europeu na época da União Soviética.

Arruda é aprendiz de coronel, mas o grande mandachuva do Cerrado é outro. Deve-se a seu antecessor no cargo, Joaquim Roriz, a instalação e proliferação em Brasília da forma retrógrada de fazer política que tomou conta do DF. Eleito em 2006 com a promessa de fazer o oposto de Roriz, Arruda não só recaiu nas mesmas práticas como as aprimorou. “Pelo que se viu nas investigações, ele aperfeiçoou o modus operandi de Roriz”, afirma o cientista político David Fleischer, também da UnB.

Segundo Fleischer, a deterioração da política do DF pode ser explicada principalmente pelo baixo nível do eleitorado, com dois terços oriundos de outros Estados, baixa renda e baixa escolaridade. Presenteados com lotes por Roriz em quatro mandatos como governador, tornaram-se presa fácil de suas promessas, numa espécie de voto de cabresto onde a terra pública é o objeto de barganha. “No Nordeste, dão chinelos, dentaduras. Aqui deram terras”, compara o geógrafo Aldo Paviani.

De fato, desde que se tornou governador biônico, em 1988, e eleito outras três vezes, em 1990, 1998 e 2002, o goiano Joa-quim Roriz pautou suas administrações pela farta distribuição de lotes. Ele mesmo se orgulha de ser o responsável pela “construção” de sete novas cidades-satélites – na realidade, não houve planejamento urbano algum, apenas ocupação do espaço.

O mineiro José Aparecido, que o antecedeu como governador nomeado, havia feito o oposto, ao realizar a desastrada campanha Retorno com Dignidade, em 1987, que consistia basicamente em dar um banho no migrante ainda na rodoviária, cortar os cabelos e embarcá-lo de volta ao estado de origem. Roriz não só deu terra pública como atraiu mais migração ao defender uma política de “cada cidadão, um lote”, causando o inchaço da capital, atualmente com cerca de 2 milhões de habitantes.

No plano original de Lucio Costa, Brasília teria 600 mil habitantes no ano 2000, quando então começariam a surgir as cidades-satélites. Fora do papel, a primeira delas, Taguatinga, teve de ser criada para abrigar operários em 1958, antes mesmo de a capital ser inaugurada. Hoje, são 16 cidades ao redor do plano piloto, a maioria não planejada e por isso mesmo cheia de problemas. A ponto de Oscar Niemeyer dizer em entrevista recente que, ao se chegar às satélites saindo da cidade cheia de jardins que criou, “é uma merda”.

A estratégia de dominação de Roriz deu resultados. O número de eleitores na capital simplesmente dobrou nos últimos 20 anos. Eram cerca de 900 mil em 1990, quando ele se elegeu governador pela primeira vez. Em 2009, havia 1,7 milhão de eleitores. Índice bem superior à média nacional, em que o eleitorado aumentou 55,6% em idêntico período. Um exemplo do inchaço é a cidade-satélite de Samambaia, criada em 1989 e que possui agora mais de 200 mil habitantes e índices de violência igualmente crescentes.

Brasília foi construída literalmente sobre o nada, sobre o vazio demográfico e social”, analisa o historiador José Murilo de Carvalho, da UFRJ. “É uma cidade ainda sem povo político ou com povo político reduzido. É formada, no andar de cima, por funcionários públicos, dependentes dos governos federal e distrital, e, no andar de baixo, pelos herdeiros dos candangos que a construíram. Residentes em cidades-satélites, em precárias condições de emprego, são alvo fácil de políticas populistas.

Roriz que o diga. Envolvido em denúncias de corrupção em 2007, renunciou ao mandato de senador para evitar o processo de cassação, mas, ante as acusações contra Arruda, já aparece como franco favorito à sucessão. Na última pesquisa do Datafolha, divulgada em dezembro, tinha entre 44% e 48% dos votos, com possibilidade de eleição no primeiro turno. Único governador a não ter sido envolvido na bandalheira reinante, o atual senador Cristovam Buarque, não acredita, porém, que o baixo nível dos políticos na capital se deva apenas aos beneficiados por lotes.

Não são só pobres querendo lotes que elegem essa gente. São ricos querendo viadutos, também”, diz Buarque. Derrotado por Roriz em sua campanha à reeleição, em 1998, Cristovam chegou à conclusão de que água e esgoto não dão votos. Ele lembra que, com sua gestão voltada ao saneamento, à educação e à saúde, foi muitas vezes cobrado: “Cadê suas obras?

O senador, que diz não pretender se candidatar a governador novamente, conta a história ouvida de uma amiga ao perguntar a um rapaz que fazia campanha a favor de Roriz por que iria votar nele. “Porque Cristovam fez muito por onde moro, mas a mim mesmo não deu nada.” No DF, afirma o ex-governador, “infelizmente não há cidadania coletiva, é cada um querendo o benefício próprio. A população do plano piloto quer obras, as empresas de construção querem obras. E, como se vê, estão dispostas a pagar por fora se for preciso”.

Em Brasília existe uma relação muito íntima, viciada, entre o poder público e a iniciativa privada”, confirma o cientista político David Fleischer. Para ter um exemplo, foi divulgado agora que a mesma Via Engenharia responsável pela obra – superfaturada, diga-se – da nova sede da Câmara Legislativa do DF, teria doado 300 mil para a campanha de Arruda a governador. A sede, orçada em 23,6 milhões de reais, será inaugurada em fevereiro a um custo final de 100 milhões.

A Câmara Distrital é um caso à parte na Sucupira que se tornou a Brasília de Juscelino. Trata-se do Legislativo mais caro do País. Os deputados distritais recebem uma verba de gabinete maior do que a dos deputados federais, para fazer não se sabe bem o quê. “Não há político de Brasília que tenha contribuído com uma ideia, nada. É a política mais chã, mais primária, a que se pratica aqui”, opina o professor aposentado de Ciência Política da UnB Octaciano Nogueira.

Alguém pode argumentar que tampouco as demais câmaras e assembleias legislativas País afora funcionam a contento, e que são todas dominadas pelo Executivo, mas a de Brasília consegue se superar. Pelo menos nove dos 24 distritais tiveram os nomes e imagens envolvidos nas denúncias do mensalão do DEM. Dois deles, Benício Tavares e Júnior Brunelli, por incrível que pareça, já carregavam nas costas acusações de pedofilia e de ter ameaçado um colega de morte, respectivamente.

Até 1990, não havia eleição para governador e deputados distritais em Brasília, somente, a partir de 1986, para senadores e deputados federais. O administrador de Brasília era indicado pelo presidente da República, e as questões da cidade, decididas por uma comissão do Senado. Foi durante a Constituinte de 1988 que os brasilienses conseguiram a autonomia política para a capital.

O relator do projeto, o ex-deputado Sigmaringa Seixas, recorda que foi preciso vencer a enorme resistência dos parlamentares de outros estados, que comparavam a criação de uma Câmara Distrital com a histórica Gaiola de Ouro, como foi apelidada a Câmara de Vereadores do Rio quando era Distrito Federal.

Lembro que, nas reuniões finais, alguém virou-se para mim e disse: ‘Vamos aprovar este texto, mas um dia você terá um profundo arrependimento disso’”, conta Sigmaringa, garantindo não ter se arrependido. “Não tem sentido um governante sem ser eleito e é razoável a necessidade de uma Câmara Legislativa. O que ninguém imaginava é que houvesse tantos problemas.” Após as denúncias contra Arruda, não foram poucos os que levantaram a voz para defender que era melhor antes de haver eleições.

Todos os intelectuais ouvidos para esta reportagem disseram ter dúvidas sobre a eficiência do modelo adotado por Brasília, com governador e Câmara Legislativa. Os moradores de Washington, nos EUA, por exemplo, elegem o prefeito, mas há apenas conselheiros municipais, não deputados ou vereadores. Além do mais, embora autônoma, a capital obteve a es-drúxula vantagem de continuar recebendo repasses da União, cerca de 8 bilhões por ano. Ou seja, administrar a capital seria moleza se os políticos locais não se dedicassem a atividades menos nobres.

Curiosamente, quatro anos antes da promulgação da Carta que daria autonomia a Brasília, o pernambucano Fernando Lyra cunharia a expressão “vanguarda do atraso” para definir José Sarney quando este, oriundo da velha Arena, foi indicado a vice de Tancredo Neves. Tornado presidente, seria ninguém menos que Sarney o inventor de Joaquim Roriz, a quem foi buscar nos rincões de Goiás para nomeá-lo governador da capital.

Sigmaringa Seixas lembra, a culpa pela vinda de Roriz deve recair também sobre os parlamentares locais. “Imaturos”, recorda, os senadores e deputados da capital rejeitaram o primeiro nome indicado por Sarney, o do ex-senador Alexandre Costa, que exigia uma emenda constitucional para que pudesse voltar ao Senado depois que a primeira eleição direta se realizasse. Se fosse Costa, ficaria só dois anos. Roriz instalou-se no Distrito Federal para não mais sair. Por ironia do destino, desde então o epíteto “vanguarda do atraso” passou a caber em Brasília como uma luva.


Fonte: Revista "Carta Capital" de 20.01.2009

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

"E Agora José?" (Charge de 1970 do Jaguar sobre o poema do Carlos Drummond de Andrade)



“Esta ilustração que fiz para os versos do Carlos Drummond de Andrade quase provocou a prisão do poeta. Tive um trabalho danado para convencer o general de Censura que publiquei o desenho sem pedir autorização do poeta.” (Jaguar)


Fonte: Livro "O Pasquim: Antologia 1969 - 1971" de 2006

A arte de investir em arte

Mercado de US$ 65 bilhões parece atraente, mas é preciso ficar atento com a pouca transparência e a não regulamentação.


Por Georgina Adam, do Financial Times
15/01/2010


AP

O quadro mais caro de Rembrandt foi vendido por US$ 29,5 milhões em leilão realizado na Christie's de Londres, no mês passado

O boom das artes ocorrido entre 2004 e 2007 proporcionou um crescimento tão incrível, especialmente da arte contemporânea, que não surpreende o fato de a arte estar sendo cada vez mais "commoditizada", agrupada em fundos e apresentada como uma classe de ativos alternativa. Mas enquanto a maioria das pessoas consegue reconhecer rapidamente um Picasso ou um Andy Warhol, elas têm um conhecimento muito menor das questões complexas inerentes ao comércio de algo que quase sempre é heterogêneo, num mercado pouco transparente e não regulamentado.

A editora do recém-lançado "Fine Art and High Finance", Clare Mcandrew, tem PhD em economia pelo Trinity College Dublin e comanda uma consultoria voltada para a economia das artes. Seu livro "The Art Economy", publicado em 2007, foi um guia do investidor para o mercado das artes. Este livro atualiza e amplia os tópicos abordados naquele volume. Após uma breve passagem pela história do mercado de arte moderna, a autora afirma que uma das características econômicas mais importantes do mercado é que ele é essencialmente conduzido pela oferta. "O aumento da demanda não consegue necessariamente aumentar a oferta, elevendo os preços em vez disso."

O mercado de arte, no entanto, é também difícil de ser quantificado e até mesmo seu tamanho, conforme observam vários colaboradores do livro, é apenas uma estimativa: US$ 65 bilhões em 2008, segundo Clare McAndrew. Além disso, como avaliar o preço de uma pintura quando quatro retratos que Picasso fez de Dora Maas, todos da década de 1940 e tamanhos comparáveis, podem ser vendidos por entre US$ 4,5 milhões e US$ 85 milhões num período de três anos?

Há muitas tentativas de estabelecer índices para as artes, nenhum deles completamente bem-sucedido. Conforme observa Roman Kräussl, da VU University de Amsterdã: "Todos os índices de preços para o mercado de arte são tendenciosos por causa dos problemas inerentes às informações disponíveis". Os únicos preços disponíveis são aqueles formados nos leilões, o que elimina cerca de 50% das transações, aquelas feitas pelos negociantes de arte. Depois de condensar publicações que vão de 1974 a 2008, Roman Kräussl conclui que "os estudos sobre os retornos proporcionados pelos investimentos em arte produziram resultados muito ambíguos".

Diante disso, pode parecer surpreendente que tantos fundos de arte tenham sido iniciados. Os lucros enormes que podiam ser conseguidos até o ano passado eram um estímulo óbvio - particularmente em fundos da Índia, que, segundo o especialista em administração de fortunas Randall Willett, representaram a maioria dos mais de 50 fundos que estiverem "ativos" no ano passado. Willett descreve os vários modelos de fundos, enquanto Clare McAndrew contribui com um estudo de caso do único fundo de hedge de arte, baseado no Reino Unido.

Há algumas inconsistências na cobertura: por exemplo, a taxação no Reino Unido e nos Estados Unidos é detalhada, mas o capítulo sobre o comércio ilegal de arte cobre apenas os Estados Unidos, deixando de fora o segundo maior centro de comércio de arte do mundo. Os litígios relacionados à arte estão crescendo e as legislações do Reino Unido e dos Estados Unidos diferem em uma série de aspectos que afetam o mercado de arte.

O que o livro não consegue fazer (e nem tenta) é prever como o mercado de arte vai evoluir, uma vez que ele ainda está em meio a um processo de reajuste depois da crise financeira recente. Essa crise teve um grande impacto, particularmente na área que registrou os maiores ganhos: a arte contemporânea. Alguns artistas estão vendo seu valor cair até 50%.

A decisão de "investir" em arte é complexa, mas este livro proporciona muitas informações para aqueles que pensam em aplicar seu dinheiro em Monet.

"Fine Art and High Finance: Expert Advice on the Economics of Ownership". Editado por Clare McAndrew.

Bloomberg Press, US$ 39,95, 336 páginas


Fonte: Jornal "Valor Econômico" de 15.01.2010

"Tentação de Santo Antônio" de Hieronymus Bosch - 1505/1506



Esse artista extraordinário se destaca entre os magníficos pintores da tradição flamenga por seu estilo único, inteiramente livre e por um simbolismo vivo, curiosíssimo, inconfundível e sem paralelo até nossos dias. Maravilhando e aterrorizando, Bosch expressou um forte pessimismo e as ansiedades de seu tempo, marcado por muitas revoltas políticas e distúrbios sociais.

Sua vida, tão enigmática quanto algumas de suas obras, foi marcada por um fato raro até o século 20: a fama em vida. Sua obra, quase toda marcada por seres fantásticos e eivadas de cenas demoníacas, é pequena mas continua recebendo a mesma atenção desde que foi criada. Hieronimus Bosch não sai de moda.

Para compreendermos melhor a importância e a personalidade de Bosch, devemos nos lembrar que ele viveu entre 1450 e 1516; Leonardo da Vinci entre 1452 e 1519 e Michelangelo entre 1475 e 1564. O que isso quer dizer? Que os três gênios estavam em atividade na mesma época. O trabalho de Bosch não tem a mais mínima relação com a obra dos dois italianos e não há nenhuma evidência de que o holandês soubesse da existência dos outros dois. O período em que os três viveram foi farto em acontecimentos que levaram a uma mudança de atitude em relação à Igreja. O protestantismo começou a surgir graças a Martin Luther lá pelo fim da vida de Bosch, mas os motivos e fatos que levariam a isso estavam em gestação há algum tempo.

As tentações sobrenaturais que Santo Antonio sofreu durante seu retiro no deserto egípcio foram relatadas pela primeira vez por Atanásio de Alexandria e desde então são tema recorrente na literatura e nas artes plásticas. Hieronimus Bosch fez desse tema um tríptico que é uma de suas obras mais célebres. Nela, através de símbolos, o artista nos relata os tormentos espirituais e mentais que o santo enfrentou. Em nenhuma de suas outras obras Bosch nos mostrou as vicissitudes da vida espiritual mais vividamente do que nesse tríptico. Nos painéis central e esquerdo, o pintor nos apresenta o horror do pecado e dos desatinos, um retrato pavoroso do Inferno e imagens do sofrimento do Cristo; no painel direito, Bosch retrata o santo firme em sua resistência às tentações do Mundo, da Carne e do Diabo. Numa era quando se acreditava piamente no Céu e no Inferno, e na iminente aparição do Anticristo, a postura serena de santo Antonio, o Eremita, nos olhando de dentro de sua capela assombrada, com certeza oferecia esperança e confiança na fé.

A Tentação de Santo Antonio, óleo sobre painéis de madeira. O central mede 131,5 x 119cm e os laterais 131.5 x 53 cm.

Acervo Museu de Arte Antiga de Lisboa, Portugal


Fontes:

www.wga.hu/frames-e.html?/html/b/bosch/index.html

www.mnarteantiga-ipmuseus.pt

Biografia



O seu nome verdadeiro era Jheronimus (ou Jeroen) van Aken. Ele assinou algumas das suas peças como Bosch (AFI /bɔs/), derivado da sua terra natal, 's-Hertogenbosch. Em Espanha é também conhecido como El Bosco.

Sabe-se muito pouco sobre a sua vida. A não existência de documentos comprovativos de o pintor ter trabalhado fora de Hertogenbosh levam a que se pense que Bosch tenha vivido sempre na sua cidade natal. Aí se terá iniciado nas lides da pintura na oficina do pai (ou de um tio), que também era pintor.

Foi especulado, ainda que sem provas concretas, que o pintor terá pertencido a uma (das muitas) seitas que na época se dedicavam às ciências ocultas. Aí teria adquirido inúmeros conhecimentos sobre os sonhos e a alquimia, tendo-se dedicado profundamente a esta última. Por essa razão, Bosch teria sido perseguido pela Inquisição. Sua obra também sofreu a influência dos rumores do Apocalipse, que surgiram perto do ano de 1500.

Existem registos de que em 1504 Filipe o Belo da Borgonha encomendou a Bosch um altar que deveria representar o Juízo final, o Céu e o Inferno. A obra, atualmente perdida (sem unanimidade julga-se que um fragmento da obra corresponde a um painel em Munique), valeu ao pintor o reconhecimento e várias encomendas posteriores. Os primeiros críticos de Bosch conhecidos foram os espanhóis Filipe de Guevara e Pedro de Singuenza. Por outro lado, a grande abundância de pinturas de Bosch na Espanha é explicada pelo fato de Filipe II de Espanha ter colecionado avidamente as obras do pintor.

Bosch é considerado o primeiro artista fantástico.

Obra

Atualmente apenas se conservam cerca de 40 originais seus, dispersos na sua maioria por museus da Europa e Estados Unidos da América. Dentre estes, a coleção do Museu do Prado de Madri é considerada a melhor para estudar a sua obra, visto abrigar a maioria daquelas que são consideradas pelos críticos como as melhores obras do pintor.

As obras de Bosch demonstram que foi um observador minucioso bem como um refinado desenhador e colorista. O pintor utilizou estes dotes para criar uma série de composições fantásticas e diabólicas onde são apresentados, com um tom satírico e moralizante, os vícios, os pecados e os temores de ordem religiosa que afligiam o homem medieval. Exemplos destas obras são:

* O Carro de Feno - (Museu do Prado, Madrid)
* O Jardim das Delícias - (Museu do Prado, Madrid)
* O Juízo Final - (Akademie der Bildenden Künste, Viena)
* As Tentações de Santo Antão - (Museu de Arte de São Paulo, São Paulo)
* As Tentações de Santo Antão - (Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa)
* Os Sete Pecados Mortais - (Museu do Prado, Madrid)
* Navio dos Loucos ou A Nau dos Insensatos - (Museu do Louvre, Paris)
* Morte e o Avarento - (Galeria Nacional de Arte em Washington, DC.


A par destas obras, que imediatamente se associam ao pintor, há que referir que mais de metade das obras de Bosch abordam temas mais tradicionais como vidas de santos e cenas do nascimento, paixão e morte de Cristo.

O original tríptico As Tentações de Santo Antão esta incorporado no Museu Nacional de Arte Antiga a partir do antigo Palácio Real das Necessidades. Desconhecem-se as circunstâncias da chegada da obra a Portugal, não sendo certo que tenha feito parte da coleção do humanista Damião de Góis, como algumas vezes é referido.


Fonte: Wikipedia

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Não percamos o espírito crítico

13/01/2010

Luiz Gonzaga Belluzzo

As eleições presidenciais de 2002 foram realizadas sob um clima de terror especulativo. Os mercados e seus porta-vozes projetaram cenários apavorantes para os quatro anos de governo Lula. O risco Brasil foi a 2.400 pontos base, descolou da pontuação dos outros emergentes.

A transição, para surpresa de muitos e decepção de outros, foi feita com habilidade e prudência. Já em 2003, no início do mandato presidencial, a economia mundial apresentava forte aceleração. A partir de então, a abundante liquidez financeira e o crescimento vigoroso do comércio mundial promoveriam uma formidável mudança no balanço de pagamentos. Todos os indicadores econômicos melhoraram nos últimos sete anos. A vulnerabilidade externa foi afastada pelo boom de commodities e pela diversificação dos mercados e a dívida líquida do setor público encolheu escorada numa administração fiscal cautelosa e na acumulação de reservas em moeda estrangeira. Por tudo isso, a economia brasileira reagiu bem ao choque negativo de crédito que lhe foi imposto pela crise financeira internacional e promete um último ano de mandato venturoso.

Antes, porém, de me aventurar em conjeturas sobre a era pós-Lula, peço ao leitor paciência para tolerar algumas considerações sobre o fenômeno Luiz Inácio. Digo fenômeno sem o propósito de mistificar o humano que se esconde por detrás do mito. O humano Luiz Inácio tem o rosto de um povo esperançoso, não raro ingênuo em suas crenças, que descobriu ter realizado uma de suas esperanças na eleição do metalúrgico do ABC, nascido em Garanhuns.

Insisto no “descobriu” porque o povão resistiu tenazmente à ideia de colocar um dos seus na Presidência da República. Mas a velha e boa democracia, a despeito de seus tropeções e percalços nativos e (por que, não?) mundiais, acabou por conceder aos brasileiros das classes ditas subalternas a oportunidade de testar suas competências. Hoje o povão celebra a si mesmo ao conceder a Lula e a seu governo uma aprovação majoritária.

É de justiça lembrar que os fundamentos das políticas sociais modernas que o governo Lula ampliou e desenvolveu decorrem do espírito da Constituição de 1988. O desenvolvimentismo brasileiro do pós-guerra descuidou das questões das desigualdades e dos direitos sociais e econômicos dos cidadãos, em contraste chocante com o que ocorria no mundo desenvolvido. O processo de urbanização brasileiro juntou crescimento rápido, especulação imobiliária, aumento da desigualdade e marginalização crescente dos contingentes “expulsos” de seus pagos. Não é difícil entender que as criaturas da urbanização patológica tivessem projetado seus espectros no cotidiano vivido pelos brasileiros nos dias de hoje. A desregrada ocupação do solo, a favelização, a desconstituição familiar e a precariedade do sistema educacional estão na raiz da violência urbana – organizada e desorganizada – das já não inesperadas tragédias de verão, dos fracassos brasileiros nas olimpíadas de matemática e das interpretações de textos. A persistência dessas mazelas não desenham o futuro que muitos antecipam ao projetar um desempenho brilhante da economia. Esse futuro é, sim, possível, mas a experiência histórica comprova que o sucesso econômico está longe de assegurar o progresso social.

Primeiro, a economia. É bom notar que os críticos não liberais do desenvolvimentismo já haviam apontado a exaustão do chamado “modelo de substituição de importações”, sublinhando, aliás, alguns desafios importantes que estavam postos já em meados da década dos 70: 1. A criação dos instrumentos e instituições de mobilização da poupança doméstica, particularmente para suportar o financiamento de longo prazo. 2. A reestruturação e modernização da grande empresa de capital nacional e de suas relações com o Estado e com os mercados globais. 3. A constituição do que Fernando Fanjzylber chamava de “núcleo endógeno de inovação tecnológica”.

A conquista da estabilidade, os cuidados com a regulamentação dos mercados e o papel das instituições financeiras públicas na reação à crise financeira mostraram que o Brasil está pronto para avançar na modernização e no aperfeiçoamento do seu sistema financeiro em que convivem virtuosamente bancos privados nacionais, estrangeiros e o sistema financeiro público.

Também é importante para o fortalecimento da economia a política de formação de grupos nacionais aptos a participar do jogo da concorrência global e a funcionar com centros geradores de tecnologia e demanda de peças, componentes e equipamentos produzidos no País.

Há que ficar atento, no entretanto, para a advertência do filósofo e economista alemão do século XIX: “Tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Ele falava da história e de seus ardís, das certezas que são desmentidas impiedosamente pelos acontecimentos que disfarçam sua iminência. Foram tais ardis que desacreditaram os brasis dos doutores, desde a Colônia até a República.

Os anos 90 e a globalização trouxeram novas questões para o cardápio de obstáculos formidáveis que lançam reptos ao futuro do Brasil: a nova configuração geoeconômica, com a presença da China e de seus parceiros asiáticos no mercado mundial de manufaturas, ameaça confinar o País a uma especialização na produção e exportação de commodities. A benção do pré-sal pode se transformar numa maldição para a economia urbano-industrial brasileira, com graves consequências sobre as conexões produtivas, afetando de maneira perversa o emprego e a renda dos assalariados.

Recado para os pessimistas: chamada “doença holandesa” não está inexoravelmente inscrita nos destinos do País. Muito ao contrário: a perspectiva de rendição dos constrangimentos externos, engendrada pela nova divisão internacional do trabalho e pelas promessas do pré-sal, gerou as condições para que o Brasil possa replicar a experiência singular do desenvolvimento dos Estados Unidos. É possível combinar uma excepcional dotação de recursos naturais e a exportação de commodities com o estímulo à expansão industrial. Mas os governos pós-Lula ainda terão de navegar em águas perigosas. Diante das incertezas da finança internacional e da evolução do comércio mundial, o vício do câmbio valorizado não ajuda a afastar o risco de turbulências no futuro próximo, a despeito das reservas elevadas.

Agora as políticas sociais: discordo dos que consideram o Bolsa Família e outras ações do governo Lula, como o Pro-Uni “assistencialistas”, para não falar da política de valorização do salário mínimo. Os avanços na redução das desigualdades e o incremento das oportunidades foram significativos diante do horror da miséria absoluta e da fome, do bloqueio sistemático do ensino superior aos “de baixo”. Mas ainda é pouco, se considerados os anseios da liberdade, da igualdade e da dignidade do homem contemporâneo.

Diante da admiração internacional e do sucesso doméstico alcançados pelo presidente corre-se o risco de sufocar com aplausos o espírito crítico. As políticas públicas e sociais dos últimos 15 anos, foram, sim, impulsionadas por um ambiente democrático, malgrado o nariz torcido de muitos praticantes da utopia. Isso ocorreu na contramão do ethos neoliberal imperante no mundo nos últimos anos que tratou de promover a ética intolerante dos vencedores, aquela que não deixa ao desamparado, ao inferiorizado, senão a alternativa de massacrar a própria autoestima. “A individualização” do fracasso, inscrita nos pórticos da concorrência desaçaimada, não permite ao derrotado compartilhar com os outros um destino comum provocado pela desordem do sistema social. O reconhecimento social é uma preciosa forma de remuneração não monetária. E essa retribuição torna-se cada vez mais escassa quando o desemprego e a desigualdade prosperam em meio a uma eufórica comemoração do sucesso do indivíduo.

Não cuidamos aqui apenas da desigualdade econômica, mas das carência educacionais e culturais que assolam o País. O velho desenvolvimentismo criou uma resistência nos dirigentes brasileiros a cuidar da produção de bens culturais como um fator de progresso econômico e social. Se a memória não me atraiçoa, arrisco dizer que Adorno afirmava que “sem compreensão não há liberdade.”


Fonte: Revista "Carta Capital" de 08.01.2010

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Corrupção cresce por culpa do Judiciário, diz ministro do STF

Extraído de: OAB - Rio de Janeiro - 04 de Janeiro de 2010

04/01/2010 - O ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal (STF), há dois anos ganhou notoriedade por relatar o processo do mensalão do PT e do governo Lula. Em 2009, convenceu os colegas a abrir processo contra o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) para apurar se ele teve participação no mensalão do PSDB mineiro. Em entrevista ao GLOBO, Joaquim não quis comentar o mensalão do DEM, que estourou recentemente no governo de José Roberto Arruda, do Distrito Federal. Mas deixou clara sua descrença na política e sua dificuldade para escolher bons candidatos quando vai votar. E o ministro, de 55 anos, não poupou nem os tribunais: "O Judiciário tem uma parcela grande de responsabilidade pelo aumento das práticas de corrupção em nosso país".

Por que aparecem a cada dia mais escândalos envolvendo políticos? A corrupção aumentou ou as investigações estão mais eficientes?

Há sim mais investigação, mais transparência na revelação dos atos de corrupção. Hoje é muito difícil que atos de corrupção permaneçam escondidos.

O senhor é descrente da política?

Tal como é praticada no Brasil, sim. Porque a impunidade é hoje problema crucial do país. A impunidade no Brasil é planejada, é deliberada.

As instituições concebidas para combatê-la são organizadas de forma que elas sejam impotentes, incapazes na prática de ter uma ação eficaz.


A quais instituições o senhor se se refere?

Falo especialmente dos órgãos cuja ação seria mais competente em termos de combate à corrupção, especialmente do Judiciário.

A Polícia e o Ministério Público, não obstante as suas manifestas deficiências e os seus erros e defeitos pontuais, cumprem razoavelmente o seu papel. Porém, o Poder Judiciário tem uma parcela grande de responsabilidade pelo aumento das práticas de corrupção em nosso país. A generalizada sensação de impunidade verificada hoje no Brasil decorre em grande parte de fatores estruturais, mas é também reforçada pela atuação do Poder Judiciário, das suas práticas arcaicas, das suas interpretações lenientes e muitas vezes cúmplices para com os atos de corrupção e, sobretudo, com a sua falta de transparência no processo de tomada de decisões.

Para ser minimamente eficaz, o Poder Judiciário brasileiro precisaria ser reinventado.


Qual a opinião do senhor sobre os movimentos sociais no Brasil?

Temos um problema cultural sério: a passividade com que a sociedade assiste a práticas chocantes de corrupção. Há tendência a carnavalizar e banalizar práticas que deveriam provocar reação furiosa na população.

Infelizmente, no Brasil, às vezes, assistimos à trivialização dessas práticas através de brincadeiras, chacotas, piadas. Tudo isso vem confortar a situação dos corruptos. Basta comparar a reação da sociedade brasileira em relação a certas práticas políticas com a reação em outros países da America Latina. É muito diferente.


Como deviam protestar?

Elas deviam externar mais sua indignação. É comum vermos protestos de estudantes diante de escândalos.

O papel dos estudantes é muito importante. Mas, paradoxalmente, quando essa indignação vem apenas de estudantes, há uma tendência generalizada de minimizar a importância dessas manifestações.


A elite pensante do país deveria se engajar mais?

Sim. Ela deveria abandonar a clivagem ideológica e partidária que guia suas manifestações.

O próximo ano é de eleições. Que conselho daria ao eleitor?

Que pense bem, que examine o currículo, o passado, as ações das pessoas em quem vão votar.

Quando o senhor vota, sente dificuldade de escolher candidatos?

Em alguns casos, tenho dificuldade. Sou eleitor no Rio de Janeiro.

Para deputado federal, não tenho dificuldade, voto há muito tempo no mesmo candidato. Para governador, para prefeito, me sinto às vezes numa saia justa. O leque dos candidatos que se apresenta não preenche os requisitos necessários, na minha opinião. Não raro isso me acontece. Não falo sobre a eleição do ano que vem, porque ainda não conheço os candidatos.



Autor: Do jornal O Globo

Marley para colecionadores

"Catch a Fire" é primeiro destaque da série "Deluxe Edition", finalmente no Brasil

08/01/2010

AAA Excepcional / AA+ Alta qualidade / BBB Acima da média / BB+ Moderado / CCC Baixa qualidade / C Alto risco

"Catch a Fire - Deluxe Edition" - Bob Marley & The Wailers


AP

Marley: álbum lançado em 1973 detém a unanimidade como marco da cultura popular

Distribuição: Universal / AAA

Clássicos reembalados em versão definitiva, lotada de extras, acréscimos gráficos e outros atrativos. Não é um formato novo nem incomum. Mas a Universal Music fez da série "Deluxe Edition" uma grife distinta - e decerto ajudou a definir uma tendência de mercado. Hoje, afinal, não há hit que passe sem sua versão "deluxe" ao fim de determinado período promocional.




A coleção já conta com quase 150 títulos. Circula há anos no mercado internacional. No Brasil, só agora chega o primeiro lote de lançamentos. São eles "Catch a Fire" (Bob Marley & The Wailers), "Arrival 30th Anniversary" (Abba), "Songs from the Big Chair" (Tears for Fears), "Eric Clapton" e "Frampton Comes Alive" (Peter Frampton). Todos serão significativos à evolução do pop; clássicos em seu respectivo nicho de fãs. "Catch a Fire", no entanto, detém a unanimidade como marco da cultura popular.

Lançado em 1973, o álbum foi o début dos Wailers por uma "major" internacional (a Island Records). Embora sucesso de crítica imediato, teve modesta repercussão na "Billboard", estacionando na 171ª posição. Em todo caso, prepararia o terreno para a revolução reggae que estava por vir - poucos meses depois sairia "Burnin" (1973), com os massivos hits "Get Up, Stand Up" e "I Shot the Sheriff".

Seria, então, apenas uma questão de tempo para "Stir it Up" ser redescoberta e perpetuada como standard. Obra-prima maior de "Catch a Fire", combinava moogs espaciais e sinuosos wah wahs a serviço da harmonia bubblegum - provada infalível na voz de Johnny Nash. Americano do Texas, Nash gravou-a um ano antes, entre suas andanças por Kingston. O sucesso do compacto decerto levaria os Wailers a trabalhar a faixa como peça central. Curiosamente, "Stir it Up" foge à orientação dominante, politizada, cuja melhor síntese será "Concrete Jungle"- com seu irresistível clavinete à moda "Superstition" (Stevie Wonder).

O disco bônus traz a versão original de "Catch a Fire", gravada na Jamaica, antes da associação com o produtor americano Chris Blackwell, portanto. Além do repertório integral, inclui duas faixas omitidas do mix definitivo ("All Day All Night" e "High Tide or low Tide"). A capa resgata o formato isqueiro Zippo que encartava o LP em sua primeira tiragem - substituída pelos contratempos técnicos de sua produção em massa. (LBH)


Fonte: Jornal "Valor Econômico" de 08.01.2010

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

"Portait of Tracy" with Jaco Pastorius (and Weather Report)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

"Time After Time" por Chet Baker



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Chet Baker (Chesney Henry Baker Jr.) (Yale, Oklahoma, 23 de Dezembro de 1929 – Amsterdã, 13 de maio, 1988) foi um trompetista de jazz norte-americano.

Criado até os dez anos numa fazenda de Oklahoma, parte para Los Angeles no final dos anos 30, quando começa a estudar teoria musical. Chet Baker sempre foi influenciado por seu pai, guitarrista, de quem herdou a paixão pela música e de quem ganhou, aos 10 anos de idade, um trombone. Amante do Jazz, não tardou em conquistar o sucesso, sendo apontado como um dos melhores trompetistas do gênero logo em seu primeiro disco.

Ainda bem jovem, passou a integrar o grupo de renome da música americana da época. Seus primeiros trabalhos foram com a Vido Musso's Band e com Stan Getz, porém Chet só conheceu o sucesso depois do convite de Charlie Parker (Bird) em 1951 para uma série de apresentações na costa ocidental. Em 1952 entrou para a banda de Gerry Mulligan, alcançando grande notoriedade com a primeira versão de "My Funny Valentine". Entretanto, em razão dos problemas de Gerry com as drogas, o quarteto não teve vida longa, sustentando-se por menos de um ano.

O talento de Chet logo o transformaria num ídolo. Apresentou-se por toda América e Europa. Especialistas dividem a vasta obra do músico em duas fases: a cool, do início da sua carreira, mais ligada ao virtuosismo jazzístico e a segunda parte, a partir de 1957, quando a sensibilidade na interpretação torna-se ainda mais evidente.

Avesso às partituras, não deixou, entretanto, de integrar as grandes bands americanas. Baker era dotado de extrema criatividade, inaugurando um modo de cantar no qual a voz era quase sussurrada. Chet teria exercido grande influência em músicos brasileiros, como João Gilberto e Carlos Lyra, alguns dos grandes nomes da Bossa Nova. Esta versão é, contudo, bastante controvertida. Sizão Machado, numa visão chauvinista, chegou a dizer, certa feita, que a Bossa Nova é que teria influenciado os músicos americanos, e não o contrário.

Para tocar as músicas pedia apenas o tom. Econômico nas notas (ao contrário de outros trompetistas que preferiam o virtuosismo, como Dizzy Gillespie), Chet improvisava com sentimento. Certo dia, deram-lhe o tom errado de uma música de propósito, e mesmo assim Chet Baker conseguiu encontrar um caminho harmônico. Valorizava as frases melódicas com notas longas e encorpadas, o que acabou lhe valendo o rótulo de cool

No começo dos anos 60, Chet realizou diversas experiências com o flugelhorn, instrumento de timbre macio e aveludado.

No entanto, sua gloriosa trajetória na música não lhe rendeu uma vida segura, afastada de problemas. Por causa de seus envolvimentos com as drogas, especialmente com a heroína (durante suas crises de abstinência, que eram monitoradas por médicos, usava metadona), Chet foi preso muitas vezes. Conta-se que chegou a ser espancado por não ter pago uma dívida contraída com a compra de drogas. Este episódio teria lhe rendido a perda de vários dentes.

Para alguns especialistas, as falhas em sua arcada dentária teriam contribuído para uma inevitável piora de sua performance. Contudo, para outros, contraditoriamente, tal fato teria obrigado o músico a se enveredar por outras vertentes e nuances do instrumento, alcançando, deste modo, sonoridades ímpares e inconfundíveis.

Em 1985, Chet Baker esteve no Brasil para duas apresentações na primeira edição do Free Jazz Festival. A banda era formada pelo pianista brasileiro Rique Pantoja (com quem Chet já havia gravado um disco no início dos anos 80 - Chet Baker & The Boto Brasilian Quartet), pelo baixista Sizão Machado, pelo baterista americano Bob Wyatt e pelo flautista Nicola Stilo. A primeira apresentação, no Hotel Nacional, na cidade do Rio de Janeiro, foi considerada decepcionante, mas a apresentação em São Paulo, tida como um sucesso, quase entra para a história do Jazz pela porta dos fundos: depois do espetáculo, já em seu quarto, no Maksoud Plaza, Chet surrupiou a maleta do médico que o acompanhava e tomou doses cavalares das drogas que lhe estavam sendo administradas para controlar as crises de abstinência. Chet teve uma overdose e quase morreu.

Neste mesmo ano, iniciou com Rique Pantoja, em Roma, as gravações de Rique Pantoja & Chet Baker (WEA, Musiquim), que terminariam em São Paulo, no ano de 1987. O LP foi um sucesso de crítica.

Em maio de 1983, durante uma de suas inúmeras viagens à Holanda, produziu gravações com o pianista Michael Graillier e com o baixista italiano Ricardo Del Fra, parceiro do baterista brasileiro Afonso Vieira.

Baker morreria em Amsterdã, de forma trágica e misteriosa, na madrugada de 13 de Maio de 1988, quando despencou da janela do hotel. Até hoje resistem muitas controvérsias sobre a causa de sua partida: suicídio ou acidente?

Chet foi enterrado no "Inglewood Park Cemetery", em Los Angeles.
[editar] Discografia

* 1953 Haig '53: the other pianoless quartet
* 1953 L.A get together
* 1953 Chet Baker & strings [bonus tracks]
* 1953 Chet Baker sings
* 1953 Compositions and arrangements by Jack Montrose
* 1953 Grey December
* 1953 Quartet live, vol. 1: This time the dream's on me
* 1953 Witch doctor
* 1954 Chet Baker big band
* 1954 Chet Baker sextet
* 1954 Jazz at Ann Arbor
* 1954 My funny Valentine
* 1954 Quartet live, vol. 2: Out of nowhere
* 1954 Quartet live, vol. 3: My old flame
* 1954 The trumpet artistry of Chet Baker
* 1955 Chet Baker sings and plays with Bud Shank, Russ Freeman & strings
* 1955 In Europe,1955
* 1956 At the Forum Theater
* 1956 Chet Baker & Crew
* 1956 Chet Baker cools out
* 1956 Chet Baker in Europe
* 1956 Chet Baker sings
* 1956 Live in Europe1956
* 1956 Playboys
* 1956 Quartet: Russ Freeman/Chet Baker
* 1956 The James Dean story
* 1957 Embraceable you
* 1957 Pretty/groovy
* 1958 Chet The lyrical trumpet of Chet Baker
* 1958 Chet Baker in New York
* 1958 Chet Baker introduces Johnny Pace
* 1958 Chet Baker meets Stan Getz
* 1958 Chet Baker sings it could happen to you
* 1958 Theme music from « The James Dean story »
* 1959 Chet
* 1959 Chet Baker in Milan
* 1959 Chet Baker plays
* 1959 Chet Baker plays the best of Lerner and Loewe
* 1959 Chet Baker with fifty Italian strings
* 1961 Picture of heath
* 1962 Chet is back!
* 1962 Chet is back!
* 1962 Somewhere over the rainbow
* 1964 The most important jazz álbum of1964/65
* 1964 Brussels1964
* 1964 Chet Baker sings and plays
* 1964 Stella by starlight
* 1965 Baby breeze
* 1965 Baker's holiday: plays & sings Billie Holiday
* 1965 Boppin' with the Chet Baker quintet
* 1965 Comin' on with the Chet Baker quintet
* 1965 Cool burnin' with the Chet Baker quintet
* 1965 Groovin' with the Chet Baker quintet
* 1965 Smokin'
* 1966 A taste of tequila
* 1966 Hats off!!!
* 1966 Into my life
* 1966 Live at Pueblo, Colorado1966
* 1966 Quietly, there
* 1966 Brazil Brazil Brazil (com Bud Shank)
* 1967 Polka dots and moonbeams
* 1969 Albert's house
* 1970 Blood, Chet & tears
* 1974 She was too good to me
* 1977 Once upon a summertime
* 1977 The best thing for you
* 1977 The incredible Chet Baker plays and sings
* 1978 At le Dreher
* 1978 Broken wing
* 1978 Live at Nick's
* 1978 Live in Chateauvallon,1978
* 1978 Sings, plays: Live at the Keystone Korner
* 1978 Two a day
* 1979 79
* 1979 Ballads for two
* 1979 Chet Baker with Wolfgang Lackerschmid
* 1979 Day break
* 1979 Live in Montmartre, vol. 2
* 1979 No problem
* 1979 Someday my prince will come
* 1979 The touch of your lips
* 1979 This is always
* 1979 Together
* 1979 With special guests featuring Coryell, Williams & Williams
* 1980 Burnin' at Backstreet
* 1980 Chet Baker and the Boto Brasilian Quartet
* 1980 Just friends
* 1980 Live at the Subway, Vol. 1
* 1980 Live at the Subway, Vol. 2
* 1980 Night bird
* 1981 Live at Fat Tuesday's
* 1981 Live at the Paris Festival
* 1981 Live in Paris
* 1982 In concert
* 1982 Out of nowhere
* 1982 Peace
* 1982 Studio Trieste
* 1983 At Capolinea
* 1983 Club 21 Paris, Vol. 1
* 1983 Live at New Morning
* 1983 Live in Sweden with Åke Johansson trio
* 1983 Mister B
* 1983 Mr. B
* 1983 September song
* 1983 Star eyes
* 1983 The improviser
* 1984 Blues for a reason
* 1984 Line for Lyons
* 1985 Candy
* 1985 Chet Baker in Bologna
* 1985 Chet's choice
* 1985 Diane: Chet Baker and Paul Bley
* 1985 Hazy hugs
* 1985 Live from the moonlight
* 1985 Misty
* 1985 My foolish heart
* 1985 Sings again
* 1985 Strollin'
* 1985 Symphonically
* 1985 There'll never be another you
* 1985 Time after time
* 1985 Tune up
* 1986 As Time Goes By
* 1986 As time goes by [love songs]
* 1986 Chet Baker featuring Van Morrison live at Ronnie Scott's
* 1986 Live at Ronnie Scott's
* 1986 When sunny gets blue
* 1987 A night at the Shalimar
* 1987 Chet Baker in Tokyo
* 1987 Chet Baker sings and plays from the film « Let's get lost »
* 1987 Four: live in Tokyo, vol. 2
* 1987 Memories: Chet Baker in Tokyo
* 1987 Welcome back
* 1988 Blåmann! Blåmann!
* 1988 Chet On Poetry
* 1988 Farewell
* 1988 In memory of
* 1988 Little girl blue
* 1988 My favourite songs, vol. 2: Straight from the heart
* 1988 My favourite songs, vols. 1-2: The last great concert
* 1988 Oh you crazy moon
* 1988 Straight from the heart
* 1988 The heart of the ballad
* 1989 The best of Chet Baker sings
* 1997 Jazz Profile: Baker, Chet



Fonte: Wikipedia

"Galope" de Gonzaguinha

A Legislação Satiagraha

Cristine Prestes
28/12/2009


Nas últimas semanas, duas decisões da Justiça garantiram uma importante vitória a empresários que respondem a processos judiciais por lavagem de dinheiro no Brasil. As defesas do empresário Daniel Dantas, dono do grupo Opportunity, e dos responsáveis pelo fundo MSI, acusado de usar o Corinthians para lavar dinheiro, conseguiram afastar temporariamente o juiz Fausto De Sanctis, da 6ª Vara Criminal da Justiça Federal de São Paulo, dos processos gerados pelas operações Satiagraha e Perestroika, respectivamente.

As decisões foram tomadas pelo ministro Arnaldo Esteves Lima, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), no caso de Dantas, e pelos desembargadores que compõem a 2ª Turma do Tribunal Regional Federal (TRF) da 3ª Região, no caso do MSI, e na prática impedem o juiz De Sanctis de determinar qualquer medida nas duas ações penais sob sua responsabilidade. As liminares foram concedidas diante dos chamados pedidos de exceção de suspeição - recursos nos quais a defesa dos acusados alega falta de imparcialidade do juiz da causa para julgar os processos.

Ainda que o recurso traga, em seu nome, a palavra "exceção", vem se tornando regra desde que os casos gerados pela atuação mais ofensiva e articulada da Polícia Federal e do Ministério Público na investigação de crimes do colarinho branco - cujo auge foi a Operação Satiagraha, deflagrada em julho de 2008 com a prisão de Dantas - passaram a cair nas mãos do juiz De Sanctis, que coleciona pedidos de suspeição contra si.

A nova estratégia elaborada pela defesa dos acusados de crimes do colarinho branco vem ganhando respaldo na Justiça, embora ainda dependa de confirmação tanto no STJ quanto no TRF. Em ambos os tribunais, colegiados de magistrados terão que decidir pela aplicação literal da lei em vigor, que prevê o afastamento do juiz no caso de relação profissional, de aconselhamento, parentesco ou amizade com o réu; ou pela extensão da possibilidade com uma interpretação mais ampla do que estabelece o atual Código de Processo Penal.

Mas, a depender do Congresso Nacional, em um futuro breve a defesa dos réus de crimes do colarinho branco ganhará um reforço de peso. Um projeto de lei idealizado pelo presidente do Senado, José Sarney, e elaborado por uma comissão de juristas convocada pelo senador promove profundas alterações no Código de Processo Penal brasileiro.

Prevista para ser votada no início do próximo ano legislativo, a "Legislação Satiagraha" engendrada por Sarney, a pretexto de modernizar uma lei datada de 1941, constrói uma verdadeira blindagem aos réus de ações penais no Brasil. O projeto enfraquece e esvazia a primeira instância da Justiça com mecanismos que facilitam o afastamento de juízes por suspeição, reduz drasticamente suas funções no processo penal e permite até mesmo que a defesa do réu faça uma investigação paralela, identificando fontes e entrevistando pessoas.

Uma das principais inovações do Projeto de Lei nº 156, de 2009, é a criação do inédito juiz de garantias. É ele quem passará a receber do Ministério Público pedidos de medidas cautelares para a produção de provas que sustentem a denúncia - como buscas e apreensões, interceptações telefônicas e quebras de sigilo fiscal e bancário. Ao juiz da causa caberá apenas julgar o processo - ainda que não tenha participado da chamada fase de instrução, quando são produzidas as provas. O argumento dos que defendem a criação do juiz de garantias é o de que, no momento em que julga o processo, o juiz da primeira instância já está "contaminado" por opiniões formadas durante a fase de instrução, quando defere as medidas cautelares. Ainda que isso seja verdade, até mesmo advogados criminalistas simpatizantes da ideia admitem que uma das consequências dessa separação possa ser simplesmente a falta de provas para sustentar uma sentença condenatória - mesmo que o juiz da causa tenha a convicção de que houve o crime.

Já distanciado da instrução do processo, o juiz da primeira instância, pelo texto do Projeto de Lei nº 56, também poderá se tornar passível de uma avalanche de decisões judiciais a determinar seu afastamento da causa. Com a inserção de apenas um parágrafo na atual legislação, o projeto amplia sobremaneira as chances da defesa de pedir a suspeição do juiz ao propor um texto que, na linguagem jurídica, é chamado de "dispositivo aberto", ou sujeito a diversas interpretações na Justiça. Diz o texto do projeto que o juiz pode ser afastado do processo "se mantiver relação jurídica de natureza econômica ou moral com qualquer das partes, das quais se possa inferir risco à imparcialidade". Não será necessária muita criatividade para aplicar o dispositivo.

Se ainda restam dúvidas a respeito da intenção do Projeto de Lei nº 156, seu artigo 24 é derradeiramente esclarecedor. Prevê que "quando o investigado exercer função ou cargo público que determine a competência por foro privativo, que se estenderá a outros investigados na hipótese de crimes conexos ou de concurso de pessoas, caberá ao órgão do tribunal competente autorizar a instauração do inquérito policial e exercer as funções do juiz das garantias". Na prática, significa que todos os réus que respondem a processos penais ao lado de pelo menos um que tenha foro privilegiado por conta do cargo que ocupa garantirão o mesmo benefício. Significa também que a polícia e o Ministério Público só poderão instaurar inquéritos contra os detentores de foro privilegiado mediante autorização da instância competente para julgá-los - o Supremo Tribunal Federal (STF), no caso de deputados, senadores, presidentes, ministros de Estado etc.

O projeto de Sarney é um duro golpe na já quase inexistente possibilidade de punição do crime do colarinho branco no Brasil, que não raro envolve detentores de cargos públicos. Caso seja aprovado no Congresso, passa a ser do Supremo a competência para julgar boa parte dos processos penais por crimes econômicos no país. Dos poucos que restarem, saliente-se, pois só será investigado quem o Supremo quiser.

Cristine Prestes é repórter especial. O titular da coluna, Fábio Wanderley Reis, está em férias

E-mail cristine.prestes@valor.com.br



Fonte: Jornal "Valor Econômico" de 28.12.2009

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Uma cidade partida




A leitura dos três volumes e dos três apensos do inquérito sobre o mensalão do DEM é um mergulho de perder o fôlego em um denso mar de lama.

Está exposto ali em detalhes, e amparado em farta quantidade de provas, o funcionamento da organização criminosa que ascendeu ao poder no Distrito Federal em janeiro de 2007. Espanta pela simplicidade.

Se lhe faltar tempo, leia ao menos o terceiro apenso.

Primeira descoberta: o governo de José Roberto Arruda (DEM) é uma extensão do governo anterior de Joaquim Roriz (PMDB) que durou oito anos.

Segunda descoberta: os meios exaustivamente empregados para desviar recursos públicos, fraudar licitações e obter dinheiro sujo em nada distinguem as duas administrações. São primitivos, toscos, amadores, mas eficientes.

O que fez a diferença?

A diferença atende pelo nome de Durval Rodrigues Barbosa, um experiente ex-delegado de polícia que responde a 33 processos por corrupção.

Como presidente da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), ele se sentiu protegido sob as asas de Roriz.

Como secretário de Relações Institucionais do governo Arruda, temeu ir para a cadeia. Então decidiu contar o que fez, gravou e sabe à Polícia Federal.

Ainda não contou tudo. Por ora poupou Roriz e uma fatia suspeita do Ministério Público do Distrito Federal e do Tribunal de Justiça.

Em conversa informal com delegados e promotores, admitiu que não pode brigar com muita gente ao mesmo tempo. Seria suicídio. Detonou Arruda porque se sentia detonado por ele.

Arruda sabe desde 2008 que havia sido filmado por Durval recebendo grana em mãos. Provocado a respeito, Durval não negou. "Tenho que me defender", observou. Arruda garantiu que ajudaria Durval a se livrar dos processos desde que o filme jamais se tornasse público.

Deu no que deu.

Em 2003, assim que Roriz inaugurou seu novo mandato - o quarto desde 1988 -, Durval foi procurado por Arruda atrás de apoio para se eleger governador em 2006.

“Preciso de uma ordem de cima”, esquivou-se Durval. Na frente dele, Arruda telefonou para Roriz e anunciou: “Governador, estou aqui na Codeplan. Eu disse a Durval que o senhor me autorizou a me entender com ele”.

Fez-se o entendimento. Arruda recebeu a lista dos contratos firmados pela Codeplan com órgãos públicos e empresas privadas acompanhados do valor mensal de cada um, data de pagamento e data de renovação.

Passou a se acertar direto com quem prestava serviços à Codeplan, estipulando o valor das comissões a serem pagas como contribuição para sua campanha, e prometendo em troca futuros e gordos contratos.

Está no depoimento de Durval ao Ministério Público local a revelação de que Arruda atuava com igual desenvoltura na Companhia de Energia de Brasília, no Instituto Candango de Solidariedade, no Metrô de Brasília e no Banco Regional de Brasília.

Roriz sempre esteve a par das atividades dele.

Entre 2005 e 2006, somente a Codeplan ajudou Arruda com algo próximo de R$ 58 milhões, segundo contas de Durval. A campanha eleitoral dele custou à companhia exatos R$ 7.985.660,00.

Durval levou um susto ao saber por meio de uma procuradora do Ministério Público que Arruda planejava se livrar dele tão logo fosse eleito. Só queria por perto quem fosse de sua estrita confiança.

No dia do segundo turno da eleição de 2006, a tal procuradora havia patrocinado uma reunião no seu apartamento entre Arruda, Paulo Octávio, seu vice, e outros membros do Ministério Público. Desejava aproximar os dois lados.

Durval levou outro susto ainda em 2007 quando se tornou alvo de reportagens do Correio Braziliense encomendadas por Arruda a Álvaro Teixeira da Costa, presidente do jornal, durante um jantar na casa de José Celso Gontijo, engenheiro e construtor.

Gontijo ganhou muito dinheiro durante o governo Roriz construindo a Ponte JK, uma obra faraônica. Ganhou no governo Arruda a licitação para construir a nova Estação Rodoviária de Brasília. Gontijo é a estrela de um dos vídeos do mensalão do DEM sacando de uma pasta pacotes de dinheiro.

O Correio é um jornal alinhado com Arruda - como, de resto, são todos os jornais do Distrito Federal, dependentes da milionária verba de publicidade do governo. Antes fora alinhado com o governo Roriz.

Durval entrou em pânico ao ser condenado pela primeira vez no Tribunal de Justiça em fevereiro passado. Mais recentemente, por maioria de votos, o tribunal recebeu outro processo contra ele, talvez o mais complicado e destinado a infernizar de vez a vida de Durval.

Arruda havia prometido que os processos contra Durval ele não iriam adiante. Pois é...

No dia 21 de outubro último, Arruda convocou Durval para um encontro em sua casa. Parte da conversa teve a ver com o processo recebido pelo tribunal.

- O combinado é que o advogado nós vamos pagar, todos. Na hora que eu precisei você me ajudou - lembrou Arruda. E adiantou para tranquilizar Durval:

- Eu vou fazer com calma uma visita ao presidente do Tribunal. Vou ouvir o que ele nos aconselha.

Por fim, pediu:

- Vá, me oriente, me diga: Arruda, eu preciso que você faça isso.

(Durval tem advogados pagos por Arruda e também por gente ligada a Roriz.)

O diálogo foi registrado por um equipamento de escuta costurado na roupa de Durval. Àquela altura, ele espionava Arruda para a Polícia Federal com a esperança de se livrar dos processos que implodiram até seu casamento. A mulher abandonou-o levando o casal de filhos depois de ter sido presenteada por um anônimo com uma fita que mostrava Durval e uma namoradinha dele.

Há 10 dias, finalmente, a Operação Caixa de Pandora da Polícia Federal implodiu o governo Arruda.

Bateram em retirada 15 secretários e seis partidos que o apoiavam. O PMDB será o próximo. O DEM deverá expulsar Arruda ainda esta semana. Sem partido, Arruda não poderá tentar se reeleger.

No momento, há uma Brasília indignada e outra à beira de um ataque de nervos.

A indignada quer ver Arruda no chão. Como ele seguirá governando enlameado da cabeça aos pés? Como presidirá as celebrações em abril pelos 50 anos de fundação da cidade? Que pessoa de bem desejará ser vista ao lado dele daqui para frente?

A outra Brasília, essa menor, treme por saber que Durval entregou 30 vídeos à polícia e guarda mais de 100 capazes de comprometer políticos, empresários, jornalistas e juízes.

Quanto a Roriz, se tiver juízo desistirá de ser candidato ao quinto mandato.


Fonte: Blog do Noblat em 07.12.2009

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Sugestão de pauta para reunião da ANJ

Por Venício A. de Lima em 8/12/2009

O leitor de jornais locais no Distrito Federal está enfrentando uma situação, no mínimo, curiosa: se quiser obter informações sobre o envolvimento do governador José Roberto Arruda e de seu vice, Paulo Octávio, no escândalo de corrupção revelado pela Polícia Federal nos últimos dias, terá que recorrer a jornais publicados em cidades localizadas a milhares de quilômetros de Brasília.

Além de um dos primeiros vídeos de flagrantes de corrupção da série já divulgada mostrar um proprietário de jornal recebendo propina e colocando maços de dinheiro na cueca, os jornais têm oferecido aos seus leitores uma cobertura que levanta (ou confirma?) suspeitas antigas sobre os vínculos da imprensa local com o Governo do Distrito Federal (GDF) (ver, neste Observatório, "CB e GDF, relações suspeitas").

As manchetes do Correio Braziliense

A cobertura dada pela imprensa local ao escândalo de corrupção no DF já foi objeto de artigos publicados neste Observatório (ver, por exemplo, "Cobertura do CB tem sujeito oculto").

Agora, compare você mesmo leitor(a) apenas as manchetes de primeira página publicadas no principal jornal do DF – o Correio Braziliense (CB) – após a revelação do escândalo, com aquelas publicadas nos três principais jornalões do país, localizados em São Paulo – O Estado de S.Paulo (OESP), Folha de S.Paulo (FSP) – e no Rio de Janeiro – O Globo (GL).

** Sábado (28/11)

CB: "GDF e Distritais são alvo de investigação"

vs.

OESP: "Polícia flagra `mensalão do DEM´ no governo do DF"

FSP: "Governador do DF é acusado de corrupção"

GL: "Governador do DEM é suspeito de pagar propina a deputados"

** Domingo (29/11)

CB: "OAB pede explicações sobre denúncias"

vs.

OESP: "Em vídeo, Arruda recebe R$ 50 mil"

FSP: "Documento liga vice-governador do DF a esquema de corrupção"

GL: "PF: Arruda distribuía R$ 600 mil todo mês"

** Segunda-feira (30/11)

CB: "Novos vídeos expõem base aliada do GDF"

vs.

OESP: "Vídeos `letais´ levam DEM a preparar expulsão de Arruda"

FSP: "Vídeos mostram aliados de Arruda recebendo dinheiro"

GL: "Arruda: TSE vê indícios de caixa 2"

** Terça-feira (1/12)

CB: "Democratas divididos: Arruda se defende. Quebra de decoro na Câmara"

vs.

OESP: "Governador do DF ameaça e DEM adia expulsão"

FSP: "Ex-secretario liga tucano a mensalão"

GL: "Em vídeo, empresário reclama de alta propina cobrada pelo governo Arruda"

** Quarta-feira (2/12)

CB: "Arruda: Roriz quer ganhar no tapetão" (entrevista exclusiva de duas páginas no caderno "Cidades")

vs.

OESP: "DEM marca expulsão de Arruda para o dia 10"

FSP: "Fita expõe ação de Arruda no mensalão"

GL: "Imagem de político recebendo propina `não fala por si só´, diz Lula"

** Quinta-feira (3/12)

CB: "Durval acusado de desviar R$ 432 mil"

vs.

OESP: "Arruda licitou panetone no dia da operação da PF"

FSP: "Para mensalão do DEM, PT propõe impeachment"

GL: "Grupo que negociava propina chamava Arruda de `big boss´"

** Sexta-feira (4/12)

CB: "Como Prudente fez o pé-de-meia"

vs.

OESP: "Planilha detalha doações para caixa 2 de Arruda"

FSP: "PF apura se pacote com dinheiro era para Arruda"

GL: "Processo contra Arruda para na câmara do DF"

** Sábado (5/12)

CB: "Rastro do crime na saúde do DF"

vs.

OESP: "Caixa 2 no DF cita empresas ligadas a parlamentares"

FSP: "Arruda ignorou parecer para contratar firma suspeita no GDF"

GL: "PF quer acesso às contas de Arruda"

** Domingo (6/12)

CB: "Lixo hospitalar vale ouro na Câmara"

vs.

OESP: "Patrimônio de Arruda cresce 1.060%"

FSP: "Campanha de Arruda financiou 236 candidatos"

GL: "Por que corrupção não dá cadeia no Brasil?"

Sugestão de pauta

Um dos objetivos da Associação Nacional de Jornais (ANJ) é "fazer prevalecer o Código de Ética e Auto-regulamentação da entidade entre suas associadas".

Dois dos dez princípios do código de ética da ANJ dizem o seguinte:

"Os jornais afiliados à ANJ – Associação Nacional de Jornais comprometem-se a cumprir os seguintes preceitos:

(...)

3. Apurar e publicar a verdade dos fatos de interesse público, não admitindo que sobre eles prevaleçam quaisquer interesses.

(...)

5. Assegurar o acesso de seus leitores às diferentes versões dos fatos e às diversas tendências de opinião da sociedade.

Não seria o caso da ANJ, entidade tão zelosa na defesa da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa, incluir na pauta de sua próxima reunião as diferenças eloqüentes entre as coberturas do mesmo escândalo de corrupção oferecidas pela imprensa de Brasília, comparativamente àquela dos jornalões de São Paulo e do Rio de Janeiro?

A imprensa, que já atravessa uma grave crise universal, não estaria colocando ainda mais em risco sua credibilidade? Não estaria em jogo a responsabilidade social dos grupos de mídia de servir ao interesse público e, acima de tudo, o direito soberano do cidadão de ser corretamente informado?


Fonte: Observatório da Imprensa

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Presunções

Sexta-feira, 4 de dezembro de 2009 - Migalhas nº 2.282.

"Ex-Secretário liga tucano a mensalão."
Jornal Folha de S.Paulo, edição de 1° de Dezembro de 2009

"Número 2 da polícia científica de SP é acusado de mais fraudes."
Jornal Folha de S.Paulo, edição de 1° de Dezembro de 2009

"CPI pede investigação sobre diretor da Aneel."
Jornal Folha de S.Paulo, edição de 1° de Dezembro de 2009

"Procuradoria acusa de novos crimes diretores de empreiteira."
Jornal Folha de S.Paulo, edição de 1° de Dezembro de 2009

"Depois do PT e PSDB, Democratas enfrentam escândalo de pagamento de propinas a aliados de Roberto Arruda."
Jornal Folha de S.Paulo, edição de 1° de Dezembro de 2009

"Não existe nenhum país no mundo que ofereça tamanha proteção (aos acusados). Portanto, se resolvermos politicamente - porque esta é uma decisão política que cabe à Corte Suprema decidir - que o réu só deve cumprir a pena depois de esgotados todos os recursos, ou seja, até o Recurso Extraordinário ser julgado por esta Corte, nós temos que assumir politicamente o ônus por essa decisão."
Ministro Joaquim Barbosa, quando do julgamento do HC 84078/MG pelo STF

Se você conhece alguma coisa da vida sabe que o criminoso é alguém que demonstrou não respeitar as regras de convivência social. Se conhece alguma coisa do Direito Penal certamente sabe que uma das finalidades da pena é proporcionar a ressocialização de quem cometeu um crime.

Imaginemos, porém, que você seja leigo em Direito. Você passa por uma avenida pela manhã e vê um automóvel inteiramente desfeito, com aqueles ferros retorcidos empilhados junto a um poste, sangue na calçada correspondendo ao passageiro que ali era transportado. Se você é um adulto que conhece as coisas naturais da vida, o que os juristas costumam chamar de illud quod plerumque accidit, aquilo que normalmente acontece, sabe que: a) automóveis não foram feitos para colidirem contra um poste, mas para trafegarem no chamado leito carroçável; b) os automóveis são construídos com material resistente e só se desmancham quando colidem contra um obstáculo, em alta velocidade. Aqueles dados à sua disposição permitirão que você chegue a algumas conclusões: a) o automóvel colidiu contra o poste por haver saído indevidamente do leito carroçável; b) os danos produzidos na colisão sugerem que ele estava trafegando em velocidade incompatível com a que seria razoável nas circunstâncias. Logo, concluirá você que esse motorista acaba de cometer um crime de trânsito, causando danos físicos ao passageiro ou sua morte.

Se, entretanto, ao seu lado estiver um advogado criminalista, ele bradará: "Enquanto não for comprovada a culpa desse motorista em um processo judicial, assegurando-se a ele ampla defesa, com a possibilidade de interpor todos os recursos previstos em lei, ele deve ser considerado inocente".

Circula por nossa rua o Pepeu, um desses homeless (dito em inglês dói menos no ouvido) que há em todos os bairros, que arrasta consigo, além das conseqüências da falta de banho, um carrinho de feira repleto de pacotes e mais pacotes, todos cheios de inutilidades que ele colhe nas ruas. Imagine que amanhã, em lugar de um carrinho desses, ele aparecesse dirigindo uma Mercedes-Benz. Que você pensaria? Se fosse advogado, diria que não podemos prejulgá-lo, confundindo Código Penal com Evangelho.

Você então concluirá que os operadores do Direito são gozadores ou débeis mentais, pois, de acordo com o citado illud quod plerumque accidit, a presunção evidente, decorrente daquilo que ali está exposto, é no sentido de que o motorista foi imprudente, ao imprimir velocidade inadequada ao veículo, e imperito, ao deixar o automóvel desgovernar-se. Logo, a menos que ele justifique cabalmente sua conduta, a presunção será de culpa, não de inocência, até porque o fato se passou na madrugada e não havia qualquer testemunha presencial. O tal advogado, ao ouvir isso, lhe entregará um cartão de visitas. "Não saia à rua sem ele", dirá a você, com um sorriso de mofa no rosto.

Imaginemos agora que você more num prédio de apartamentos, no qual moram várias famílias, cujas crianças costumam brincar num playground situado nos fundos do terreno. No terceiro andar mora um rapaz, dono do apartamento, cujo quarto tem a janela voltada para o tal playground. Ele encontra-se em gozo de férias e, por isso, pretendia dormir até mais tarde, o que o barulho da criançada não permite. Ele então empunha sua espingarda de caça e vai abatendo, uma a uma, as perturbadoras crianças, como se estivesse em Columbine. (clique aqui)

Ele vem a ser preso, é lavrado o auto de prisão em flagrante e arbitrada fiança, pois ele é primário, tem residência fixa e emprego. Paga a fiança, ele é solto, voltando para casa.

Vamos dramatizar ainda mais: uma das crianças mortas era seu único filho. Como você se sentiria cruzando diariamente com aquele vizinho no corredor do edifício ou subindo com ele no mesmo elevador? Que ideias lhe viriam à mente?

Oferecida denúncia contra ele, o defensor arrola meia dúzia de testemunhas, dentre as quais Gisele Bündchen e Ricardo Izecson Santos Leite. Serão expedidas cartas rogatórias para ser tomado o depoimento da itinerante modelo onde quer que ela esteja desfilando e para ser ouvido o tal rapaz, que atua no futebol da Europa sob o nome de Kaká. Anos depois, quando voltarem as cartas rogatórias devidamente cumpridas, a defensoria requererá que o jogador e a modelo sejam submetidos a acareação, cujo indeferimento caracterizaria cerceamento de defesa. Quanto tempo mais será necessário?

Imaginemos que um dia a instrução desse processo termine e sobrevenha uma sentença condenatória. Condenatória? Coisa nenhuma. Será uma sentença determinando que o réu seja submetido a julgamento pelo Tribunal do Júri. O acusado continuará a circular pelo edifício onde vocês dois moram, pois é primário e tem bons antecedentes. E continua sendo legalmente inocente.

A primeira providência da defensoria será apresentar um recurso de Embargos de Declaração, para que o juiz explique melhor algum trecho da sentença. Esse recurso será rejeitado ou acolhido, publicando-se o resultado meses depois.

Sobrevem então o recurso propriamente dito, que deverá ser apreciado pelo Tribunal de Justiça, recurso esse no qual a defensoria certamente arguirá umas tantas nulidades e pedirá a despronúncia do recorrente, como é de praxe. Os autos do processo irão à Procuradoria de Justiça, de onde retornarão no ano seguinte. Enquanto isso você continua a cruzar com o mesmo vizinho no corredor do edifício onde ambos residem.

Anos depois, o recurso será julgado, confirmando-se a decisão que mandara o réu a julgamento pelo Tribunal do Júri. O Acórdão será então lavrado, assinado, registrado e publicado, o que exigirá uns tantos meses. A defensoria, então, apresentará recurso de Embargos de Declaração, para que seja esclarecido isto e mais aquilo. Meses depois os tais Embargos serão julgados, o respectivo Acórdão será lavrado, assinado, registrado e publicado, o que exigirá mais alguns meses. Enquanto isso você continua a cruzar com o recorrente no corredor do edifício onde ambos residem, pois ainda não é o caso de expedir-se mandado de prisão, já que o réu continua sendo legalmente inocente.

Agora a defensoria apresenta não apenas um, mas dois novos recursos. No primeiro, dito Recurso Especial, ela invocará violação de algum preceito constante de lei federal; no outro, dito Recurso Extraordinário, a defensoria alegará violação de algum preceito constitucional, coisa que qualquer rábula sabe fazer. Os autos irão novamente à Procuradoria de Justiça, de onde retornarão no ano seguinte, com pareceres sobre um e outro desses recursos. Eles serão então despachados pelo Presidente do Tribunal de Justiça que ou manda que o recurso seja enviado ao tribunal de Brasília competente para apreciá-lo, ou indefere o recurso. Do indeferimento caberá novo recurso, dito Agravo de Instrumento, que será apreciado por um Ministro de um Tribunal Superior, em Brasília, sabe-se lá quando. Em Brasília caberão tantos recursos de Embargos de Declaração quantos a imaginação e a criatividade do Advogado conseguirem criar. Quando algum deles for indeferido liminarmente, sob a alegação de ser meramente protelatório, sempre caberá o recurso de Agravo Regimental, cuja decisão também admite novos Embargos Declaratórios.

Enquanto isso você continua a cruzar no corredor do edifício, onde ambos ainda residem, com a pessoa que, anos atrás, quando os cabelos de tua esposa ainda não eram grisalhos e quando havia cabelos em tua cabeça, disparou contra crianças que faziam algazarra no playground do edifício onde você e ele já viviam. Lembra-se?

Repare que até agora ele ainda não foi submetido a julgamento pelo Tribunal do Júri. Quando isso ocorrer e ele for condenado, finalmente ele será preso e começará a cumprir a pena. Certo? Errado. Ainda faltam ser interpostos muitos e muitos recursos. (clique aqui)

Quando tiver sido definitivamente julgado, o tal rapaz, agora um respeitável senhor, casado e bem empregado, deverá deixar o emprego e a família para passar uns tempos atrás das grades. Uns anos mais e ele sairá de lá presumivelmente ressocializado.

Esse trabalho merece uma crítica técnica: enquanto o Tribunal do Júri não afirma sua culpa, o homicida deve ser considerado tecnicamente inocente. Acontece que mesmo depois de condenado pelo Júri, sabe-se lá quando, ele continua em liberdade. Depois de confirmada a condenação no Tribunal de Justiça, ele continua solto. Rejeitado o Recurso Especial pelo Superior Tribunal de Justiça, ele continua solto. Denegado Recurso Extraordinário pelo Supremo Tribunal Federal, ele ainda continuará solto. E tanto num como em outro desses tribunais caberão ainda recursos e mais recursos. Tudo em nome das "garantias do acusado".

E como ficam as garantias da sociedade?


Fonte: Migalhas de 04.12.2009.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Norah Jones depois da queda

27/11/2009

AAA Excepcional / AA+ Alta qualidade / BBB Acima da média / BB+ Moderado / CCC Baixa qualidade / C Alto risco

"The Fall" - Norah Jones








Distribuição: EMI / AA+

Álbum pós-separação, "The Fall" reinventa a cantora como diva alternativa

AP
Foto Destaque


Norah Jones : cauteloso desvio de rota, com orientação experimental, em "The Fall"











Se não é justo enquadrar Norah Jones na categoria "one hit wonder" (artista de uma música só), decerto poucos contestarão seu declínio criativo desde "Come Away with me", o grande hit de 2002. "The Fall" é um novo capítulo na carreira da cantora, entretanto. Norah, pela primeira vez, deixa o círculo de proteção de Lee Alexander, produtor, baixista e ex-namorado. Do rompimento vem o conceito lírico, explícito em títulos como "You've Ruined me" ou "I Wouldn't Need You". Este é o seu "Blood on the Tracks" (Dylan) - para citar aqui o mais notório álbum pós-separação do pop. Mas, acima de tudo, a ruptura é estética.
Foto Destaque

"The Fall" é um cauteloso desvio de rota. Os fãs antigos não se sentirão traídos, uma vez que a linha autoral permanecerá intacta. Ao mesmo tempo, insere-se, efetivamente, em tendências alternativas. O elenco de estúdio antecipa o contraste: guitarrista de feeling cubano, Marc Ribot foi grande responsável pelo som de "Rain Dogs" (Tom Waits); Smokey Hormel (guitarra) pode ser ouvido nos últimos dois discos de Johnny Cash; Joey Waronker é baterista simultâneo do Air e Beck. Assina a produção Jacquire King, engenheiro de som de Tom Waits, Modest Mouse e Kings of Leon.

"Chasing Pirates" é a peça-chave: abre com um synth bass sincopado, lembrando o riff de "Like a Virgin" (Madonna) em baixa rotação. A bateria surge estrategicamente atrasada, ganhando graduais acréscimos percussivos, floreios de guitarra e piano elétrico (Wurlitzer). O vídeo promocional mostra Norah Jones conduzindo um "edifício pirata" pelas ruas de Nova York - pérola surreal que poderia ter sido dirigida por Spike Jonze.

A exemplo de "Chasing Pirates", a orientação de "The Fall" será experimental, ainda assim acessível. "Even Though" traz tremolos distorcidos e sintetizadores fantasmagóricos. "It's Gonna Be" é talvez o momento mais transgressor: submersa em feedbacks, surge como um swamp blues pós-moderno, pontuado por guitarras saturadas. "Tell Yer Mama" é híbrida: costura country, soul e Kurt Weill. A letra destila rancor: Norah avisa que não vai chorar pelo amor perdido - e ainda atira farpas aos pais do "ex" ("I won't cry for you (...) So tell your father that I said 'so long'/ And thanks for raising you so damn wrong"). Já "Back to Manhattan" e "December" resgatam o tom folk que caracterizou seus primeiros discos.

A edição nacional de "The Fall" vem com um disco bônus. "Live at the Living Room" traz seis faixas registradas num show em Nova York, entre elas covers dos Kinks ("Strangers"), Johnny Cash ("Cry Cry Cry") e Wilco ("Jesus etc"). (LBH)


Fonte: Jornal
"Valor Econômico" de 27.11.2009

Vai à promulgação a PEC dos Precatórios

O Senado aprovou em dois turnos a PEC que altera as regras para o pagamento de precatórios, que são as dívidas judiciais da União, de estados, municípios e do DF. A PEC 12-A/06 (clique aqui) criou um regime especial através do qual a quitação dos precatórios alimentícios e de menor valor terão prioridade sobre os demais.

A PEC 12-A/06 foi aprovada na manhã da última quarta-feira, 2/12, pela CCJ. Graças a acordo firmado entre os líderes, os interstícios foram quebrados e várias sessões deliberativas foram convocadas sucessivamente, para que a proposição pudesse ser votada em dois turnos pelo Plenário, na noite do mesmo dia.

No primeiro turno, a PEC recebeu votos 56 "sim" e um "não". Dois senadores do PSDB se equivocaram ao utilizar o teclado eletrônico para deliberar sobre a matéria. A senadora Lúcia Vânia foi o único voto contrário registrado, mas sua intenção era aprovar a proposição. Com João Tenório ocorreu justamente o contrário.

Ao pedir a palavra para comunicar seu erro, Tenório opinou que a PEC é injusta com o contribuinte. O senador justificou que o Congresso legislou pensando nos entes federativos, mas não levou em conta as dificuldades que enfrentam os contribuintes para receber os créditos que detém junto aos diferentes níveis de governo.

No encaminhamento da votação em segundo turno, o senador Inácio Arruda manifestou seu voto contrário, em virtude de o seu partido e as centrais sindicais e sindicatos ligados a ele terem dúvidas sobre o texto da PEC 12-A. O resultado da votação em segundo turno apresentou 54 votos favoráveis e dois contrários.

O texto aprovado obriga os municípios a destinarem entre 1% e 1,5% de suas receitas correntes líquidas para o pagamento dos precatórios. Esse percentual, para os estados, é de entre 1,5% e 2%. Os valores das dívidas receberão atualização monetária de acordo com as regras da caderneta de poupança.

Segundo a PEC, 50% dos recursos dos precatórios vão ser usados para o pagamento por ordem cronológica e à vista. A outra metade da dívida deverá ser quitada por meio de leilões, onde o credor que conceder o maior desconto sobre o total da dívida que tem a receber terá seu crédito quitado primeiro. Também serão feitos pagamentos por ordem crescente de débito ou por conciliação entre as partes.



Fonte: Site
Migalhas em 03.12.2009

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Dexter Gordon, Montmartre, Copenhagen - 1971

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A grande mídia e a desigualdade racial

Pesquisa do Observatório Brasileiro de Mídia: grandes revistas e jornais tem posição contraria a agenda de interesse dos afrodescendentes

18/11/2009

Venício Lima

O “Dia da Consciência Negra” é comemorado em todo o país na data em que Zumbi – o herói principal da resistência simbolizada pelo quilombo de Palmares – foi morto, 314 anos atrás: 20 de novembro de 1695. Muitas revoltas, fugas e quilombos aconteceram antes da Abolição em 1888.

O Brasil de 2009 é, certamente, outro país. Apesar disso, “os negros continuam em situação de desigualdade, ocupando as funções menos qualificadas no mercado de trabalho, sem acesso às terras ancestralmente ocupadas no campo, e na condição de maiores agentes e vítimas da violência nas periferias das grandes cidades”.

O estudo Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgado em outubro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que, de 1998 a 2008, dobrou o número de negros e pardos com ensino superior. Mesmo assim, os números continuam muito abaixo da média da população branca: só 4,7% de negros e pardos tinham diploma de nível superior em 2008, contra 2,2% dez anos antes. Já na população branca, 14,3% tinham terminado a universidade em 2008. Dez anos antes, eram 9,7%. Entre o 1% com maior renda familiar per capita, apenas 15% eram pretos ou pardos no total da população brasileira.

A grande mídia e a desigualdade racial

Diante desse quadro de desigualdade e injustiça histórica, como tem se comportado a grande mídia na cobertura dos temas de interesse da população negra brasileira, vale dizer, de interesse público?

Uma pesquisa encomendada pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), realizada pelo Observatório Brasileiro de Mídia (OBM), analisou 972 matérias publicadas nos jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e O Globo, e 121 nas revistas semanais Veja, Época e Isto É – 1093 matérias, no total – ao longo de oito anos.

No período compreendido entre 1º de janeiro de 2001 a 31 de dezembro de 2008, foi acompanhada a agenda da promoção da igualdade racial e das políticas de ações afirmativas em torno dos seguintes temas: cotas nas universidades, quilombolas, ação afirmativa, estatuto da igualdade racial, diversidade racial e religiões de matriz africana.

Não é possível reproduzir aqui todos os detalhes da pesquisa. Menciono apenas cinco achados de um Relatório de quase 100 páginas.

Com graus diferentes, os jornais observados se posicionaram contrariamente aos principais pontos da agenda de interesse da população afrodescendente. Em toda a pesquisa, as políticas de reparação – ações afirmativas, cotas, Estatuto da Igualdade Racial e demarcação de terras quilombolas - tiveram o maior o percentual de textos com sentidos contrários: 22,2%.

As reportagens veicularam sentidos mais plurais do que os textos opinativos que, com pequenas variações, se posicionaram contrários à adoção das cotas, da aprovação do Estatuto da Igualdade Racial e da demarcação de terras quilombolas. A argumentação central dos editoriais é de que esses instrumentos de reparação promovem racismo. Em relação à demarcação das terras quilombolas, os textos opinativos em O Estado de S. Paulo, 78,6%, e O Globo, 63,6%, criticaram o Decreto n.º 4.887/2003 que regulamenta a demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos. O argumento principal foi o de que o critério da autodeclaração é falho e traz insegurança à propriedade privada.

A cobertura sobre ações afirmativas foi realizada, basicamente, em torno da política de cotas: 29,3% dos textos. Outros instrumentos pouco foram noticiados. O Estatuto da Igualdade Racial esteve presente apenas em 4,5% dos textos. A discussão sobre as ações afirmativas mereceu atenção de 18,9%. Quase 40% desses textos foram publicados em 2001, ano da Conferência sobre a igualdade racial em Durban, África do Sul. A Lei 10.639/2003, que inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira”, praticamente não foi noticiada. Menções à lei foram feitas de forma periférica, em apenas 0,5% do total de textos, sem que os veículos tenham problematizado o assunto ou buscado dar visibilidade à sua aplicação.

A cobertura oferecida pelo jornal O Globo merece um comentário à parte. O jornal dedicou 38 editoriais sobre os vários temas pesquisados, destes 25 ou 65,8% trataram especificamente de “cotas nas universidades”. Os três jornais publicaram 32 editoriais sobre o mesmo assunto. O Globo foi, portanto, responsável por 78% deles.

Ainda que os principais argumentos contrários – as cotas e ações afirmativas iriam promover racismo (32%) ou os alunos cotistas iriam baixar o nível dos cursos (16%) – não tenham se confirmado nas instituições que implementaram as cotas, a posição editorial de O Globo não se alterou nos 8 anos pesquisados.

Embora a maioria dos estudos e pesquisas realizadas por instituições como IBGE, IPEA, SEADE, OIT, UNESCO, ONU, UFRJ, IBOPE e DATAFOLHA, no período analisado, confirmem o acerto das políticas de ação afirmativa, apenas 5,8% dos textos publicados nos jornais noticiaram e debateram os dados revelados. Esses estudos e pesquisas trataram de assuntos como: menor salário de negros frente a brancos; menor presença de negros no ensino superior; negros como maiores vítimas da violência; e pouca presença de negros em cargos de chefia, dentre outros. 5. O noticiário das revistas semanais sobre a afrodescendencia e a promoção da igualdade racial teve características muito semelhantes ao encontrado nos jornais. Os textos com sentidos contrários às políticas de reparação (26,4%) foram em maior percentual do que aqueles com viés favorável (13,2%). Da mesma forma que nos jornais, a cobertura se concentrou nos programas de cotas: 33,1% sendo que o alto percentual dos textos que trataram das religiões de matriz africana (25,6%) foi o único que destoou da freqüência nos jornais, 4,7%.

Liberdades e direitos

Os resultados da importante pesquisa realizada pelo OBM denunciam um estranho paradoxo. Enquanto a grande mídia tem se revelado cada dia mais zelosa – aqui e, sobretudo, em alguns países da América Latina – com relação ao que chama de liberdade de imprensa (equacionada, sem mais, com a liberdade individual de expressão), o mesmo não acontece com a defesa de direitos fundamentais como a reparação da desigualdade e da injustiça histórica de que padece a imensa população negra do nosso país.

Estaria a grande mídia mais preocupada com seus próprios interesses do que com o interesse público?

Venício Lima é Pesquisador Sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política da Universidade de Brasília - NEMP - UNB


Fonte: Site Brasil de Fato em 18.11.2009

'Ben-Hur' completa 50 anos de estreia



'Ben-Hur', de William Wyler, protagonizado por Charlton Heston no papel de um aristocrata judeu que é traído por seu amigo romano, completa hoje meio século de estreia nos Estados Unidos.

Qua, 18 Nov, 06h28

Antonio Martín Guirado.

Los Angeles (EUA), 18 nov (EFE).- "Ben-Hur", de William Wyler, protagonizado por Charlton Heston no papel de um aristocrata judeu que é traído por seu amigo romano, completa hoje meio século de estreia nos Estados Unidos.

Há filmes que ficam para a história e o épico "Ben-Hur" é um deles. Foi o filme que ganhou pela primeira vez 11 Oscars, a mesma quantidade conquistada por "Titanic" (1997) e "O Retorno do Rei" (2003), parte da saga "O Senhor dos Anéis".

O filme, máximo expoente de um cinema artesanal já extinto, rendeu um Oscar de melhor ator a Heston e de ator coadjuvante a Hugh Griffith, além de ter recebido o prêmio pelas categorias de melhor filme, melhor diretor, melhor direção artística a cores, melhor fotografia, melhor figurino a cores, melhores efeitos especiais, melhor montagem, melhor trilha sonora e melhor som.

Também foi o primeiro remake - existem dois outros "Ben-Hur", ambos mudos: um curta de 15 minutos de duração filmado em 1907 e outra versão de 1925, dirigida por Fred Niblo - a ganhar a estatueta dourada de melhor filme.

Os três trabalhos são baseados no livro homônimo de Lewis Wallace, publicado em 1880. Os 212 minutos do filme foram gravados em sua maioria, durante nove meses, nos estúdios Cinecittà, em Roma, e uma das cenas mais famosas da história do cinema - a corrida de bigas que provoca a derrota de Messala, amigo de infância de Judah Ben-Hur - foi filmada em três meses.

O filme contou com uma equipe de 8 mil figurantes, mais de 300 peças de cenário e 100 mil de figurino, e não fez sentido utilizar efeitos especiais de computador em sua espetacular recriação do livro. Tudo foi criado à base da imaginação.


'Ben-Hur', de William Wyler, protagonizado por Charlton Heston no papel de um aristocrata judeu que é traído por seu amigo romano, completa hoje meio século de estreia nos Estados Unidos.

E essa inspiração salvou da quebra os estúdios da Metro-Goldwyn-Mayer, que arriscaram a investir na produção um valor recorde na época - de US$ 15 milhões -, que terminou por faturar cinco vezes esse total.

A trilha sonora do húngaro Miklos Rozsa e a fotografia de Robert Surtees fizeram o resto, dentro de uma história situada no Império Romano de Tibério, que narra a passagem do amor ao ódio entre Judah Ben-Hur e Messala, amigos de infância.

Poucos acreditavam que Wyler seria o nome mais indicado para levantar e controlar um projeto tão faraônico. Sua carreira confirmava seu talento em obras íntimas e diferentes, nas quais dirigiu com mão professora talentos como Bette Davis, Olivia de Havilland e Montgomery Clift ou Laurence Olivier.

"Me pediram para que me encarregasse do filme. Não era o estilo cinematográfico que vinha fazendo, mas senti curiosidade para ver se era capaz de fazer algo ao estilo de Cecil B. DeMille", disse o cineasta, em alusão a filmes como "Os Dez Mandamentos" (1956).

"Além disso, pensei que este filme faria muito dinheiro e que eu poderia ficar com algo", acrescentou Wyler, que cobrou US$ 1 milhão para dirigir o filme.

Hoje em dia, parece impossível imaginar outro ator com o rosto de Ben-Hur, mas a MGM ofereceu o papel a Paul Newman, Burt Lancaster e Rock Hudson.

Todos rejeitaram a oferta. Newman porque não conseguia se imaginar em uma túnica, Lancaster porque era ateu e não queria ajudar a promover a Cristandade, e Hudson quase aceitou, até que seu agente chamou sua atenção ao subtexto homossexual na relação entre Ben-Hur e Messala, o que poderia pôr sua carreira em risco.

No final, "Ben-Hur" se tornou uma obra para a eternidade, que décadas após sua estreia segue atual, como demonstra a espetacular produção teatral homônima que dá a volta ao mundo desde setembro. EFE


Fonte: Yahoo! Notícias

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Villa-Lobos e a invenção da música brasileira

Nome de shopping e de praças, Villa-Lobos é um compositor ainda pouco conhecido

09/11/2009 - Camila Frésca

Neste mês uma série de eventos - entre concertos, lançamentos de CDs e livros, simpósios - visam celebrar a principal efeméride da música brasileira em 2009: os 50 anos da morte de Heitor Villa-Lobos, ocorrida no dia 17 de novembro de 1959. Figura bastante popular - quem nunca ouviu falar dele, ou deparou com uma foto do compositor acompanhado do habitual charuto? -, Villa-Lobos é nome de shopping, parque, museu e inúmeras escolas de música espalhadas pelo país.


Villa-Lobos: obra da qual se conhece uma pequena parte, quase a ponta de um iceberg


No entanto, sua obra é incomparavelmente menos ouvida do que seu nome, e na verdade muito de sua produção é desconhecido mesmo dentro do meio musical. Igualmente, dados biográficos e aspectos fundamentais para compreender sua trajetória musical são pouco conhecidos ou inconsistentes.

Autodidata

Villa-Lobos nasceu no Rio de Janeiro a 5 de março de 1887. Teve sete irmãos e recebeu as primeiras lições musicais em casa. O pai, músico amador, tratou de ensiná-lo a tocar violoncelo (instrumento que ele próprio tocava) ainda criança, adaptando um espigão (apoio que fixa o instrumento ao chão) a uma viola. Além das aulas com o exigente progenitor, mais tarde Villa-Lobos passou a frequentar o ambiente musical boêmio carioca, tocando violão com os chorões, e consta que em 1904 se matriculou no Instituto Nacional de Música para ter aulas de violoncelo num curso noturno - porém não existem registros de que tenha frequentado as aulas nos anos seguintes.

É espantoso pensar que esse foi, provavelmente, todo o "estudo" que proporcionou a Villa-Lobos escrever o conjunto de sua obra - mesmo se levarmos em consideração que muito do que produziu se caracterizou justamente por peculiaridades advindas de sua falta de conhecimentos musicais formais.

O pai de Villa-Lobos faleceu em 1899, aos 37 anos, e, após algum tempo vivendo com a mãe, consta que em 1905 Villa partiu para suas famosas viagens pelo Brasil, nas quais teria coletado muito material folclórico e se inspirado para mais tarde escrever a mais autêntica "música brasileira". Ao menos é o que afirma a maioria de seus biógrafos, amparados em declarações do próprio compositor. No entanto, Paulo Renato Guérios - que em 2003 lançou um livro que pode ser considerado um dos mais importantes estudos já escritos sobre o compositor - afirma que existem poucos dados empíricos capazes de provar tais fatos, ou mesmo de elucidar a trajetória de Villa-Lobos entre 1905 e 1912.

Na verdade, pode-se afirmar apenas que ele realizou duas viagens: a Paranaguá, onde trabalhou por um ano como atendente no comércio local, e a Manaus, para onde seguiu, como violoncelista, para realizar um concerto com uma companhia artística. Ou seja, foram deslocamentos ligados ao trabalho e à busca de subsistência, bem longe de supostas expedições de pesquisa.
Ao voltar para o Rio, em 1912, passou a trabalhar como músico de orquestra em sociedades sinfônicas, cinemas e cafés. Começou também a compor e, a partir de 1915, reuniu esforços para, com alguma regularidade, promover concertos de obras suas. Foi depois de um desses concertos, realizado em 1921, que foi chamado para participar da Semana de Arte Moderna em São Paulo, no ano seguinte.

A essa altura, Villa-Lobos já desfrutava de algum reconhecimento, com diversos admiradores entre a elite econômica e intelectual carioca. Após sua participação na Semana, sua fama chegou também a São Paulo e seus amigos começaram a articular sua ida a Paris, passo mais do que natural - à época considerado imprescindível - na carreira de um músico brasileiro que começava a despontar.

A França no Brasil e o Brasil na França

O estudo de Paulo Guérios traz uma tese bastante interessante sobre a passagem de Villa-Lobos por Paris e sua importância crucial para o despertar do compositor como "músico brasileiro".

Os anos que antecederam sua partida para a Europa foram de afirmação profissional. Para tanto, Villa procurou mostrar que sabia compor segundo padrões em voga entre os músicos eruditos cariocas, o que significava dominar as estéticas italiana (bel canto) e, sobretudo, alemã (Wagner) e francesa (Saint-Saëns). Da mesma forma, para ser aceito por seus pares, ele evitava a incorporação de elementos ligados à cultura popular - sua produção durante a década de 1910 é fortemente marcada pela influência francesa e quase ausente de elementos estéticos da música popular, com a qual ele tinha intimidade. Estando um passo adiante em relação a seus pares, Villa compunha ainda de acordo com compositores vanguardistas para o gosto carioca, como Debussy.

No entanto, ao chegar a Paris, em 1923, encontrou um cenário cultural em que as ideias de Debussy eram contestadas por uma nova vanguarda musical, formada por nomes como Erik Satie e o chamado Grupo dos Seis. A valorização do "exótico", advindo de culturas distantes e estranhas ao universo francês, estava em alta, conforme atesta Tarsila do Amaral em carta escrita aos pais meses antes da chegada de Villa-Lobos: "Não pensem que essa tendência brasileira na arte é malvista aqui. Pelo contrário. O que se quer aqui é que cada um traga contribuição do seu próprio país. Assim se explicam o sucesso dos bailados russos, das gravuras japonesas e da música negra. Paris está farta de arte parisiense". Dessa forma, foram especialmente valorizadas pelos músicos locais as obras em que Villa-Lobos utilizava elementos de sua cultura natal.
"O fato de Villa-Lobos ter começado a compor músicas brasileiras a partir de 1923 deveu-se não à descoberta de que ele teria uma essência brasileira, mas sim a um processo de transformação que foi colocado em marcha por uma série de mecanismos sociais de atribuição de valor (...) Assim, quando Villa-Lobos chegou a Paris em 1923, toda uma série de pequenos contatos e interações (...) agiu no sentido de convencê-lo aos poucos da imperiosa necessidade de sua conversão, de sua transformação em um compositor de músicas de caráter nacional.

Como consequência, ele deixaria de tentar compor de acordo com as regras estéticas de compositores franceses, tão valorizadas no Brasil, para tentar retratar sua nação musicalmente, um projeto especialmente valorizado na França", afirma Guérios. Com essa tese, o pesquisador vai ao encontro de outro que se debruçou sobre esse período da produção de Villa, José Miguel Wisnik. Wisnik afirma que a conjunção entre a personalidade de Villa-Lobos e o contexto brasileiro, especialmente a renovação simbolizada pela Semana de Arte Moderna, é que teria impulsionado a incorporação de elementos populares em sua música após 1922.

Essa motivação que teria levado Villa-Lobos a escrever músicas de caráter nacional é sem dúvida um ponto crucial a ser esclarecido, para não cairmos em reduções simplistas ou na ideia um tanto ingênua de que subitamente ele teria "acordado" para o maravilhoso manancial musical de sua terra e abraçado a corrente estética nacionalista. Não que o compositor desconhecesse ou desprezasse o repertório popular e folclórico; na verdade o que está em questão é mostrar que ele tinha plena consciência das escolhas que fazia e estas estavam vinculadas a projeções e demandas que possuía como artista.

A partir disso, o próprio Villa interpretou, ressignificou e até mesmo criou passagens de sua biografia no intuito de mostrar que, desde os primórdios de sua carreira, buscava (ou era até mesmo um predestinado a) fazer sua música "atingir um ideal". Daí a conveniência, por exemplo, de enxergar suas viagens pelo Brasil como expedições etnomusicológicas que visavam coletar material que mais tarde seria usado em suas obras.

Nada disso, no entanto, tem a intenção de denegrir ou tirar o brilho da personalidade e da obra de Villa-Lobos. Na verdade, é fascinante perceber como essa complexa formação e cristalização de uma imagem se dá, contando com a participação intencional e ativa de seu protagonista.

Enorme acervo

A obra de Villa-Lobos é vastíssima e dela só conhecemos uma pequena parte, quase a ponta de um iceberg. Na década de 1920, ele escreveria os Doze Estudos para violão, dedicados a Andres Segovia. O músico declarou que a obra representava, na literatura violonística, o que são os Estudos de Chopin para o piano. Nessa mesma década, aliás, ele escreveu obras capitais: além dos estudos, a série de Cirandas e Cirandinhas para piano, as Serestas para canto e piano e a revolucionária série dos Choros, ciclo de 14 obras (embora as duas últimas nunca tenham sido localizadas) para diferentes formações que vão do violão solo a orquestras gigantescas.

Já após retornar de sua segunda estadia em Paris (entre 1927 e 1930), Villa se dedica a outro ciclo fundamental, o das Bachianas Brasileiras. Ao mesmo tempo em que, colaborando com o governo de Getúlio Vargas, desenvolvia um inédito programa de educação musical da população por meio do canto orfeônico, escrevia essa série de obras, que buscavam unir a estética de Bach ao universo musical brasileiro. Para diferentes formações, as noves peças, escritas entre 1930 e 1945, utilizam canções folclóricas e urbanas e alguns de seus trechos estão entre os mais populares do compositor, como a tocata da Bachiana Nº 2, "O Trenzinho do Caipira", e a "Ária (Cantilena)" da Nº 5.

Mas há muito mais. Com um catálogo que ultrapassa mil títulos, Villa-Lobos escreveu também óperas, concertos para violão, piano, violoncelo, 12 sinfonias, fantasias, música sacra, muita música de câmara - incluindo 14 quartetos de cordas -, diversas obras orquestrais, canções e outras peças essenciais para a literatura pianística, como o Ciclo Brasileiro, a Prole do Bebê e o Rudepoema.

Porém, nem todo desconhecimento acerca desse enorme acervo se deve apenas ao desinteresse do meio musical. Uma das principais dificuldades para interpretar a obra de Villa-Lobos reside nas partituras. Além de existirem peças ainda em manuscritos - o que faz com que sejam ignoradas por intérpretes e orquestras internacionais, que só tocam obras publicadas -, muito do que foi editado apresenta uma quantidade enorme de erros e precisa de revisão urgente.

A Academia Brasileira de Música (ABM), criada pelo próprio Villa-Lobos em 1945, está tentando dar continuidade a um importante projeto nesse sentido. Num acordo com a Max Eschig, que detém os direitos de boa parte da obra sinfônica de Villa, a ABM realizará uma edição crítica das peças, revisando o material que está nas mãos da editora francesa. A Academia oferecerá o material revisado gratuitamente para a Max Eschig, que por sua vez cederá a ela a exploração de partituras de Villa na América do Sul.

Mesmo com tais dificuldades, a obra de Villa-Lobos tem ganhado cada vez mais atenção dos músicos nacionais e do mercado internacional. Uma importante iniciativa fonográfica nesse sentido foi a gravação integral da obra para piano do compositor (em oito CDs) pela pianista Sonia Rubinsky para o selo Naxos, distribuído para todo o mundo.

Nesta celebração motivada pelos 50 anos de morte de Villa-Lobos, é bastante animador perceber que esforços recentes como a recuperação de suas partituras, a gravação de suas obras e a revisão de sua biografia concorrem para fazer dele mais do que um nome explorado para fins esdrúxulos (como shoppings ou conjuntos residenciais) e esvaziado de seu real sentido: o de maior compositor que o Brasil já produziu.


Villa-Lobos em cinco tempos


"Esse negócio de inspiração não existe em mim. Nasci inspirado já."


Prelúdio das Bachianas Nº 4 - Orquestra Nacional de Lyon


Villa-Lobos interpreta Villa-Lobos - O Polichinelo


Nelson Freire interpreta "Lenda do Caboclo"


Bidu Sayão interpreta "Floresta do Amazonas"



Fonte: Revista Cult

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Verve verdadeira



Em desabusadas cartas de adeus, o que os embaixadores de Sua Majestade realmente pensavam do Brasil

DORRIT HARAZIM E CRISTINA TARDÁGUILA


Uma das mais deliciosas e singulares tradições da diplomacia está, senão moribunda, a caminho de se adequar aos entediantes tempos do politicamente correto e do receio de ver tudo esparramado na internet. Trata-se da instituição eminentemente britânica, o valedictory despatch - uma espécie de "carta de despedida". Ela permitia ao embaixador que saía de um posto redigir um último despacho, despido de qualquer restrição, dizendo o que pensava do país que abandonava. Caso estivesse também se aposentando da carreira, muitas excelências aproveitavam para incluir comentários desabusados sobre o serviço diplomático de Sua Majestade.

Aguardados com avidez, e degustados como iguarias, os despachos eram repassados a diplomatas britânicos mundo afora. A tradição vingou sem vazamentos através dos séculos, sobreviveu a guerras e atravessou incólume muitas mudanças de governo do Reino Unido. Até 2006, quando o telegrama de despedida de Ivor Roberts, da embaixada em Roma, circulou por onde não devia. Nele, sir Ivor desancava a mentalidade "Wall Street" que a seu ver tomara conta do serviço diplomático britânico. A chancelaria de Whitehall decidiu então restringir ao mínimo a difusão da correspondência de despedida. E, por via das dúvidas, os próprios embaixadores trataram de moderar a verve epistolar.

Compreende-se. Até hoje, mesmo passados mais de quarenta anos, causa embaraço às relações Manágua-Londres o parecer escrito pelo embaixador Roger Pinsent ao deixar seu cargo, em 1967: "Temo não haver dúvida de que o nicaraguense médio é um dos latino-americanos mais desonestos, inconfiáveis, violentos e beberrões. Sua versão da língua espanhola também é a menos atraente que já ouvi."

O telegrama enviado, de Bangcoc, por sir Anthony Rumbold, também em 1967, é uma peça da visão imperial sem luvas de pelica. Ele escreveu que a Tailândia era um país...

... desprovido de literatura e arte, com apenas um tipo curioso de música, uma arquitetura monótona e uma horrenda decoração de interiores... O nível médio de inteligência dos tailandeses é bastante baixo, bem inferior ao nosso... Mas pode fazer bem a um europeu cansado passar algum tempo entre um povo tão alegre, extrovertido e anti-intelectual.

Para horror da chancelaria, a carta de despedida de sir Anthony entrou, por engano, na lista de distribuição A (para 170 países) em vez da Q (restrita ao Canadá, Nova Zelândia e Austrália) e vazou. Como consequência mais grave, também veio a público a opinião do embaixador sobre o ministro das Relações Exteriores da Tailândia - "vaidoso, melindroso e briguento".

A graça dos valedictory despatches não vinha só de considerações desairosas dos diplomatas sobre colegas estrangeiros. "Uma das grandes falhas do Foreign Office tem sido a sua incapacidade de descartar a figura do diplomata que usa chapéu-coco, veste um terno risca de giz e aprecia uma taça de champanhe", escreveu sir David Gore-Booth, de Nova Delhi, em 1999. E acrescentou: "Coquetéis são mortalmente chatos e quem propôs um tratado internacional banindo recepções em datas nacionais deveria ser canonizado."

Graças à implementação, em 2005, da lei que regulamenta o acesso público a documentos oficiais, cerca de 120 mil pedidos de vistas são apresentados anualmente a diferentes órgãos do governo britânico. Seguindo essa trilha, piauí obteve a íntegra dos telegramas de despedida de dois pesos-pesados da diplomacia inglesa no Brasil: sir G. A. Wallinger, embaixador no Rio de Janeiro de 1958 a 1963, e sir John Writhesley Russell, que serviu aqui entre 1966 e 1969.

Das treze páginas deixadas por Wallinger, em abril de 1963, e que tiveram sua distribuição, à época, restrita à lista Q, emerge uma aguda percepção do Brasil de ontem. E alguns trechos caberiam, like a glove, ao Brasil de hoje:

Um aspecto a salientar é que todo governo no Brasil ainda é intensamente "personalista". Os três presidentes a que me refiro são chamados, simplesmente, de Juscelino, Jânio e Jango. O tamanho do poder em mãos de um presidente brasileiro é relativamente maior do que o poder do presidente dos Estados Unidos, visto que, desde os tempos de Getúlio Vargas, o Congresso nunca conseguiu se contrapor a ele... Embora o presidente dependa do Congresso para a aprovação de leis, a influência do Poder Legislativo na condução da política está viciada pela natureza primitiva da organização dos partidos políticos. Os partidos, apesar das implicações ideológicas de suas denominações, são essencialmente clubes políticos, criados para prover máquinas eleitorais a seus membros; estes, por sua vez, são homens que optaram pela atraente, lucrativa e "suja" carreira política; são frequentemente desprovidos de qualquer compromisso social ou ideológico, ou do sentido de servir à nação. Como consequência, a lealdade partidária é subordinada ao interesse próprio.

John Russell, por sua vez, não foi menos incisivo. Após elencar as imensas riquezas naturais do país, o item número 10 de sua radiografia começa com uma pergunta: "Por que, então, o Brasil ainda não é rico e próspero?" A resposta, curta, é que o país é governado de forma desastrosa. Russell citou cinco exemplos:

O estado da Guanabara tem mais funcionários públicos do que Nova York; a Petrobras, só em São Paulo, emprega um número maior de químicos do que a Shell no mundo inteiro; pode-se comprar qualquer coisa - de uma carteira de habilitação a um juiz do Supremo Tribunal Federal; o reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro ganha 500 cruzeiros mensais, enquanto os aluguéis são três vezes mais altos do que em Londres e os hotéis da cidade estão entre os mais caros do mundo (e entre os de pior atendimento); o país tem apenas 18 mil milhas de estradas asfaltadas e em 1968 os brasileiros mataram 10 mil pessoas nas estradas - mais do que o total de soldados americanos mortos no Vietnã no mesmo ano. Como já escreveu Peter Fleming, "o Brasil é um subcontinente com um autocontrole imperfeito".

Comparando o Brasil que encontrou ao assumir o posto, em 1966, com o que estava prestes a deixar, três anos depois e com o Ato Institucional nº 5 em vigor, John Russell registrou: "Materialmente o país avançou a galope; politicamente marchou para trás. A política de terra arrasada dos coronéis interrompeu o desenvolvimento espiritual de um país potencialmente brilhante." E conclui: "Depois de amanhã, minha família e eu partiremos para a Espanha. Talvez não deixemos raízes fundas, mas fomos imensamente felizes neste casarão - possivelmente o mais belo e certamente o último a ser construído em escala tão nobre pelo governo de Sua Majestade."

O casarão de Botafogo onde moraram sir John, lady Russell e sua gloriosa filha Georgina - tão festejada quanto festeira - é hoje o Palácio da Cidade, sede da prefeitura do Rio.


Fonte: Revista Piauí de Novembro de 2009

O submergente



A incrível história do sofisticado trader de derivativos exóticos que quebrou, foi morar no subúrbio - e está adorando


MARCOS CAETANO



Não faz muito tempo, quando o povão ainda não tinha ouvido falar de derivativos - nem mesmo dos despretensiosos plain vanilla -, meu carro era um Porsche Cayenne Turbo S, zerado, com um adesivo do Clube de Campo de São Paulo no pára-brisa dianteiro. Hoje dirijo um Ford Versailles 91, cujo único plástico, além do escudo do Corinthians, é um adesivão que colei no vidro de trás: "Quer emagrecer? Pergunte-me como." Em outros tempos, classificaria minha condição como a de um nouveau pauvre. Hoje, no entanto, prefiro definir-me com a simplicidade brejeira do termo submergente.

Sou um homem que foi abatido pela crise financeira internacional em pleno vôo de jatinho particular, a 30 mil pés de altura. Quando o mercado veio abaixo, eu caí mais do que ação do Citi. Mas aí é que está: ao contrário dos ceos da aig e da gm, a minha jornada não foi de desonra, mas de redenção. Foi uma jornada "vencedora", para usar o termo que aprendi no Ibmec. No distante e tórrido subúrbio no qual eu vivo hoje, descobri a simplicidade e a alegria de ser simplesmente eu. Antigamente, se alguém dissesse uma coisa dessas na minha frente eu ligava logo para a Joyce. O sujeito ia para a lista negra do Glamurama e nunca mais conseguia uma reserva no Fasano. Hoje eu não ligo. Primeiro, porque não tenho mais dinheiro para comer no Fasano. Segundo, porque a Joyce não me atende mais. E terceiro, porque aqui no meu novo torrão dizer essas coisas poéticas funciona que é uma beleza.

Minha viagem rumo à Zona Norte e ao crédito consignado começou quando, no comezinho ritual de tomar uísque doze anos no tee do buraco 18, eu vi na televisão do bar que o Lehman Brothers tinha quebrado. Meus companheiros de golfe e de lida (hoje falo trampo, que soa mais coloquial) se assustaram um pouco, mas não deram muita bola. Eu não. Eu era um trader bom demais para não prever os próximos lances do mercado. Era evidente que uma hecatombe estava prestes a esmagar o patrimônio destinado a ser usufruído pelos meus tataranetos. Percebi isso no instante mesmo em que tomava aquele que seria o último copo de uísque importado da minha vida. Fim de linha. Dou graças a Deus por não ter ido em cana - e mais ainda pelo fato de meus clientes jamais terem ouvido falar no Mandaqui, bairro no qual, graças à caridade da minha diarista Suzyanne, consegui me esconder.

"A dor não pode mais do que a surpresa", disse Guimarães Rosa. E a minha grande surpresa foi constatar que, desde que me estabeleci nesse lugar intocado pelas bolsas Vuitton e pelos advogados criminalistas, tenho vivido num insuportável estado de felicidade. Para quem emergiu do suburbão e foi em direção ao bem-bom da Zona Sul, talvez seja fácil retornar às origens depois de um fracasso. Não é o meu caso. Não tenho um único antepassado que sequer encostou as solas dos mocassins Ferragamo num bairro cujo primeiro nome não fosse Jardim. Jardim qualquer coisa, mas Jardim. Vila qualquer coisa, nem em pesadelo. É por isso que digo que sou uma pessoa que descobriu os prazeres da classe D. Ou, para cunhar mais uma frase que me jubilaria de vez do Gero, sou uma pessoa que se redescobriu nos prazeres da classe D. Os motivos são muitos, ainda que pouco compreensíveis para quem não experimentou viver aqui. E eu disse viver. Essa frivolidade de menino rico que trabalha em ong ou que vem ver baile funk por curiosidade sociológica não conta.

A lista das maravilhas suburbanas bem que poderia começar pela paz de espírito, algo que eu considerava conversa de empregadas domésticas, mas que pude experimentar na prática. A paz de espírito, esclareça-se, e não as empregadas domésticas, ainda que já tenha investido em algumas. Ao contrário dos tempos em que tinha piriris com a cotação das commodities, hoje eu vivo confortavelmente com o dinheiro que ganho com os produtos de emagrecimento dos quais sou representante comercial, categoria Platinum. Não administro recursos de mais ninguém. Não devo um tostão - ou um puto, como prefiro dizer hoje - a alma nenhuma. Durmo sem qualquer preocupação, além da defesa do Corinthians e do paredão do bbb, programa que, ao lado de um tal de Tela Quente, que passa filmes dublados, e das novelas (especialmente aquela dos mutantes), faz a alegria das minhas noites. Eu não imaginava como a tevê aberta era divertida. Cacilda! Como desperdicei madrugadas zapeando entre dezenas de canais a cabo, cada um mais chato e legendado do que o outro! Tendo que assistir a Manhattan Connection, domingo sim e outro também!

Confesso que as questões gastronômicas eram as que mais me preocupavam quando cheguei aqui. Como fui criado com colher de prata nas mãos, baixa gastronomia sempre foi para mim um conceito tão abstrato quanto o corte de cabelo da Ana Maria Braga. Todos os meus temores caíram por terra no momento em que provei o escandaloso X-Picanha do Biroska's Lanches. Isso é que é value added. Nunca pensei que pudesse caber tanta coisa entre duas fatias de pão careca. (Salvo engano, tem até pedaço de pão entre o pão. É o que o pessoal do curso de filosofia clássica que fiz lá na Casa do Saber chamaria de Das metasanduichen.) Descobri também a coxinha da tia Januária do ponto de ônibus, o torresminho do Bar do Micuim e o pão com mortadela da Confeitaria Firmeza. E imaginar que eu cheguei a subornar o prefeito de uma cidadezinha espanhola pra conseguir um lugar no restaurante daquele catalão que inventou a culinária molecular! Aposto minha capanga de curvinho artificial contra qualquer bolsa Hermès que se você for um sujeito sincero vai admitir que a rabada aqui da esquina é muito melhor do que a posta de rabanete com sorvete de cordeiro que me serviram lá. (Sem falar que a porção aqui é bem maior.) E pode até ser que a picanha que eu queimo todo domingo na churrasqueirinha da laje lá de casa não seja tão boa quanto a que é servida nas steak houses do mundo civilizado, mas eu posso comê-la civilizadamente, sem ser interrompido a cada oito segundos pelo gorduroso espeto de cupim ou por alguém no iPhone, me avisando que o mercado desabou porque dizem que o Henrique Meirelles vai ser substituído pela Marta Suplicy.

De quebra, ouço um belo samba. Ao vivo e de graça, tocado por outros representantes lá da firma. E como toda casa que tem roda de samba tem mulher, é impressionante o que tem chovido na minha horta. Ao contrário daquelas peruas botocadas, o mulherio da zn é absolutamente bem resolvido. Mulher, aqui na minha área, malha no ônibus e no tanque - e faz sexo porque gosta, não pra dar inveja na amiga. Depois que me tornei diretor de harmonia da X-9 Paulistana, cargo com prestígio e poder comparáveis apenas ao de um cfo de multinacional, tenho tido dificuldade em dar conta de todas. Sorte que por aqui mesmo o viagrinha tem o seu substituto barato e natural. Gosto tanto desse negócio de Caracu com ovo que tomo até quando vou passar o fim de semana pescando tilápia com os amigos.

A saúde também melhorou muito. Jogar golfe é bacana, mas não dá preparo físico. Quando estou com saudade, vou num minigolfe nos fundos do Motel Moi et Toi, que todo mundo aqui chama de Mói-tói. Bom mesmo para o condicionamento é um futebolzinho na rua de terra batida, especialmente no segundo tempo, quando meu time ataca ladeira acima. Não tenho plano de saúde, é verdade. Mas um camarada meu dá plantão no hospital público e, quando preciso, consegue uma prioridadezinha no ambulatório. Ainda assim, se a minha hora chegar, morrerei em paz. Isso porque, aqui, religião também é uma coisa bem menos complicada. Por 10% dos meus vencimentos garanto o perdão de todos os meus crimes, inclusive o insider trading (eu perguntei). Enquanto os ricos ficam estudando teologia, lutando para entender os desígnios de Deus, o pessoal daqui botou preço no negócio. Dez purça, como diria um assessor parlamentar tarimbado - e o céu nos pertencerá.

Olha, eu não largo essa maravilha de lugar por dinheiro nenhum do mundo. Caso um dia eu realize o sonho de me tornar representante comercial categoria Triple Diamond, com minha própria rede de associados, nem assim eu deixo isso aqui. É verdade que, apesar de viver da venda de shakes emagrecedores, eu engordei mais de 20 quilos desde a quebra do Lehman Brothers. Mas isso é bobagem. Outra coisa que aprendi aqui na minha Shangri-lá sem calçamento é que magreza só é sinal de saúde pra lá de Santana.


Fonte: Revista Piauí - Maio/2009

"Não Sou Deus, Mas Posso Ser"




De um cantador das feiras do interior do nordeste arrematando o mote "Não sou Deus, mas posso ser", respondendo ao rival :


"O ano tem doze mês,
O dinheiro é quem faz guerra
Adão foi feito de terra,
Não se morre duas vez;
Um Reinaldo com dois reis
Não houve nem há de haver,
O homem não tem poder
De fazer outro feliz
Como é que este bruto diz :
Não sou Deus, mas posso ser ?"

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A TV não é boa babá

Por Antonio Brasil em 10/11/2009

Este é o estranho título de um documentário produzido pelo Panorama, da BBC. Trata-se do mais antigo, e provavelmente o melhor, programa de jornalismo investigativo da TV mundial (ver aqui). No ar desde 1953,Panorama se confunde com a própria história da TV. Sempre com temas polêmicos, nessa edição eles foram investigar os efeitos da própria TV nas crianças inglesas. Um programa como este só poderia ser produzido pela BBC. Tinha que ser uma rede de TV pública de verdade para aceitar o desafio de discutir os possíveis malefícios do meio junto à sua audiência mais fiel, dependente e provavelmente mais indefesa: o público infantil.

OPanorama já era um dos meus programas favoritos quando morava na Inglaterra, nos anos 1970 e 80. É bom saber que a série não só sobrevive como ainda faz um excelente jornalismo investigativo na TV. A velha série da BBC prova que ainda existe TV de alta qualidade no mundo.

No Brasil, assisti ao Panorama no canal GNT da Net. Mas você pode ver o documentário na íntegra aqui.

O título original do programa é "Is TV bad for my kids?" ou "A TV é ruim para os meus filhos?" A equipe doPanorama trabalhou em parceria com o professor Barry Gunter, psicólogo da Universidade de Leicester e especialista nos efeitos da mídia sobre o público. Trata-se do mais longo estudo sobre abstinência de TV jamais realizado no Reino Unido. Sem medo de resultados adversos, a equipe doPanorama buscou a cooperação de especialistas das universidades britânicas para estudar os efeitos da TV na sociedade.

Uma ajuda para os pais

Segundo o relatório do ChildWise Monitor Report Winter 2006-2007 (ver aqui), uma instituição independente que estuda os efeitos da mídia, as crianças inglesas assistem a uma média de três horas de TV por dia. E este é um número bastante alto, considerando o tempo que essas crianças passam na escola ou em atividades essenciais, como se deslocando pela cidade, comendo ou dormindo.

Apesar de ter uma das melhores programações de TV no mundo, a sociedade britânica monitora e investiga os efeitos da TV com interesse e seriedade. Não se trata de meros índices de audiência no Ibope ou pesquisa encomendada para garantir empregos e verbas do governo. Boas pesquisas são caras, trabalhosas e devem ser independentes, mas também podem render bons programas de TV.

O tema do documentário da BBC é simples e ousado. Afinal, o que acontece com o comportamento de crianças de 7 a 8 anos de idade de uma mesma turma escolar quando ficam por um período de duas semanas sem TV, computadores e videogames? O documentário cria as condições e analisa os resultados da experiência original. No final, apresenta alternativas para os pais com filhos dependentes de tecnologias tão poderosas.

É muito estranho – especialmente para nós, brasileiros – assistir a um programa que discute a TV dentro da própria TV. Mais estranho ainda para os leitores da minha geração.

Pertenço à "geração televisão". Nasci nos anos 1950 e fui criado em frente à telinha. Meus pais não tinham muitas opções. Família de classe média, quase pobre, pai e mãe trabalhavam o dia inteiro para manter os filhos longe dos perigos do mundo real. A TV era a grande novidade da época. Todos queriam assistir. Mas a TV também era uma grande ajuda para pais que não podiam conviver com seus filhos ou pagar os salários das babás de verdade.

"Achismo" de quem pensa saber tudo

A TV do passado era algo parecido com a internet de hoje. Assim como nossos jovens hoje "escapam do mundo" e passam horas na rede, a geração dos anos 1950 "viajava" pelas imagens da TV. Era uma janela aberta para um mundo desconhecido, repleto de novidades e aventuras. Um mundo de muitas promessas e oportunidades, mas também repleto de perigos e ameaças. Aos poucos, a TV se firmava como uma babá eletrônica amiga, mas também poderosa e exigente.

Não sei se foi uma babá boa ou má. Mas a TV me fez companhia durante os longos e árduos anos de infância e juventude. Nunca deixei de gostar e de assistir. Mas, pelo menos, fiz daquela paixão ou vício algo mais positivo. Acabei fazendo, ensinando e pesquisando TV.

Sempre tive curiosidade de conhecer mais sobre o meio que ainda fascina, hipnotiza e infelizmente também "vicia" milhões de espectadores. O problema é que pouco se sabe sobre os verdadeiros efeitos da TV. Principalmente em relação ao público infantil. Temos algumas pesquisas superficiais, muitos índices de audiência e muito, mas muito, "achismo" de quem "pensa" que sabe tudo sobre TV. Não há boas pesquisas aprofundadas sobre os efeitos da TV no Brasil. Poucos conseguem os recursos para sair em campo e pesquisar os efeitos da TV na população.

E foi exatamente isso que a equipe doPanorama da BBC resolveu fazer.

Resultados da pesquisa

Três famílias sem TVs, computadores e games durante duas semanas. Parece pouco, mas quem conhece, sabe o tamanho do problema. Na minha casa, nos anos 1950 e 1960, os únicos grandes problemas familiares surgiam quando a TV quebrava. Pode ser coincidência, mas quando a TV parava de funcionar, começávamos a conversar, discutir e brigar. As conseqüências nem sempre eram positivas. A TV mantinha uma paz familiar frágil e provavelmente artificial. A equipe doPanorama procurou também procurou revelar esses mistérios da TV em casa com as famílias e nas escolas, com colegas e professores.

Logo no início do programa, as crianças inglesas descrevem o poder da TV em suas vidas: "Eu não gosto, mas assisto de qualquer maneira. Não consigo desligar a TV". E os pais acrescentam: "A TV acalma as crianças. É como se fosse uma espécie de chupeta". E, diante do assustador desafio da pesquisa – duas semanas sem TV, computadores e games –, eles indicam os possíveis problemas a serem enfrentados pelas crianças: "Eles vão sentir falta". Sobre os efeitos das novas tecnologias na educação, os professores afirmam: "Nossas salas de aula não conseguem competir com os games".

Os pais também relatam os efeitos da experiência:

"Todas as crianças sem TV, computadores ou games mudaram. Mas nenhuma mudou para pior. Elas parecem estar mais calmas. As atitudes mudaram. A TV nos controlava! Agora eles parecem ter mais a imaginação."

"As crianças estão brincando mais entre si. Fazem os deveres de casa sem problemas. O comportamento melhorou. Não precisam da TV para relaxar. Elas não dormem mais assistindo aos DVDs. Vivem brincando. Vivem uma vida normal."

Na sala de aula:

"Tudo mudou". Apesar do curto período da experiência, os professores perceberam o aumento de interesse e concentração de algumas das crianças do grupo pesquisado. E após a pesquisa, em reunião com os pais, as mudanças são discutidas:

"Agora há regras. As crianças só assistem TV após terem feito os deveres escolares. Na parte da manhã, nos dias da semana, eles só assistem aos jornais".

"Retiramos a TV do quarto das crianças".

"Creio que o resultado geral da experiência foi muito positivo. Agora temos menos brigas e damos boas risadas na família".

Enlouquecidas e exaustas

O documentário da BBC teve grande repercussão na sociedade britânica. Gerou fóruns de discussão na internet e provocou reações favoráveis e contrárias dos telespectadores.

Algumas pessoas consideram muito estranho, talvez até mesmo hipócrita, que a TV discuta seus problemas em programas de TV. Mas ainda é indiscutível o poder da TV e das novas tecnologias para controlar as mentes, principalmente das crianças e adolescentes. Essa é uma questão que merece ser ainda mais pensada e discutida no Brasil.

As equipes doPanorama e da Universidade de Leicester também aproveitaram a transmissão do programa para fazer algumas recomendações:

** Pais e filhos se beneficiam da falta da TV, computadores e games;

** As famílias precisam interagir mais com seus filhos;

** Precisam fazer mais coisas com eles. ;

** Os pais precisam dar mais e melhor atenção a seus filhos.

Mas a palavra final e definitiva ficou com as mães que participaram da pesquisa. Disse uma delas:

"Os resultados foram muito bons. Mas estamos felizes que a experiência vai terminar e as TVs, computadores e games vão voltar. Já estamos enlouquecendo sem a TV. Estamos exaustas!"


Fonte: Observatório da Imprensa de 10.11.2009

51º Prêmio Jabuti

Tradicional prêmio literário do país distribui 169 troféus, em 23 categorias

O romance Manual da Paixão Solitária (Cia. das Letras), de Moacyr Scliar, sagrou-se o vencedor da mais prestigiada categoria do Prêmio Jabuti: Melhor Livro do Ano de Ficção. A cerimônia de premiação da 51ª edição do Jabuti ocorreu na noite da última quarta-feira (4) na Sala São Paulo e distribuiu 169 troféus, em 23 categorias. Ao subir ao palco, Scliar agradeceu aos que contribuíram para a realização do livro - que já ganhara na categoria melhor romance - e também àqueles que despertaram nele a paixão pela literatura: "Gostaria de agradecer àquelas pessoas que não estão aqui, mas mereciam estar neste palco: meu pai, que me ensinou a contar histórias, e minha mãe, que me ensinou o prazer da leitura".

Divulgação/CBL


Moacyr Scliar recebe o prêmio de Melhor Livro do Ano de Ficção por Manual da Paixão Solitária

O prêmio de Melhor Livro do Ano de Não-Ficção foi para Monteiro Lobato: Livro a Livro (Editora Unesp/Imprensa Oficial), organizado por Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini. "Quero registrar minha imensa alegria em ganhar o Jabuti, especialmente pelo caráter acadêmico e coletivo [do livro], ligado à universidade pública paulista", agradeceu Marisa Lajolo, professora da Unicamp. A obra, fruto de um projeto realizado pela Fapesp em parceria com o centro de documentação da Unicamp, contou com a participação de mestrandos e doutorandos da Unesp e Unicamp. A exemplo do livro de Scliar, Monteiro Lobato: Livro a Livro já havia ganho um troféu, porém na categoria Teoria/Crítica Literária.

Divulgação/CBL


Marisa Lajolo, organizadora de Monteiro Lobato: Livro a Livro, recebe o prêmio de Melhor Livro do Ano de Não-Ficção

Ao comentar sobre a importância do Jabuti, o curador do prêmio, José Luiz Goldfgarb, lembrou que, se décadas atrás o Jabuti era um solitário, hoje as diversas mobilizações ligadas ao universo do livro e da leitura contribuem para a configuração de um momento ímpar da história brasileira: "O Brasil de leitores não é apenas devaneio do solitário Jabuti. Hoje surge uma corrente, uma força, que, pela primeira vez na nossa história, começa a colocar a cultura, o livro e a leitura na pauta das prioridades nacionais".

Confira abaixo a lista dos vencedores nas 23 categorias do Prêmio Jabuti

Melhor Livro do Ano de Ficção
Manual da Paixão Solitária - Moacyr Scliar (Cia. das Letras)

Melhor Livro do Ano de Não-Ficção
Monteiro Lobato: Livro a Livro - Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini (orgs.) (Editora Unesp/Imprensa Oficial)

Romance
Manual da Paixão Solitária - Moacyr Scliar (Cia. das Letras)

Contos e crônicas
Canalha! - Crônicas - Fabricio Carpinejar (Bertrand Brasil)

Poesia
Dois em um - Alice Ruiz (Iluminuras)

Infantil
A Invenção do Mundo Pelo Deus-Curumim - Braulio Tavares (Editora 34)

Juvenil
O fazedor de velhos - Rodrigo Lacerda (Cosac Naify)

Teoria / Crítica Literária
Monteiro Lobato: Livro a Livro - Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini (Editora Unesp/Imprensa Oficial)

Ciências Humanas
História do Brasil - Uma Interpretação - Adriana Lopez e Carlos Guilherme Mota (Editora Senac São Paulo)

Educação, psicologia e psicanálise
A Voz e o Tempo - Roberto Gambini (Ateliê Editorial)

Tradução de obra literária Francês-português
O Conde de Monte Cristo - André Telles e Rodrigo Lacerda (Jorge Zahar)

Tradução
A Morte de Empédocles / Friedrich Hölderlin - Marise Moassaba Curioni (Iluminuras).

Biografia
O Sol do Brasil - Lilia Moritz Schwarcz (Cia. das Letras)

Reportagem

O Livro Amarelo do Terminal - Vanessa Bárbara (Cosac Naify)

Arquitetura e urbanismo, fotografia, comunicação e artes
Coleção Princesa Isabel - Fotografia do Século XIX - Bia e Pedro Corrêa Lago (Capivara Editora)

Projeto Gráfico
Fazendas Mineiras - Marcelo Drummond & Marconi Drummond (Cemig)

Ilustração de livro infantil ou juvenil
O Matador - Odilon Moraes (Editora Leitura)

Ciências exatas, tecnologia e informática
Introdução à Quimica da Atmosfera - Ciência - Vida e Sobrevivência - Ervim Lenzi e Luzia Otilia Bortotti Favero (LTC - Livros Técnicos e Científicos Editora)/span>

Didático e Paradidático
História e Cultura Africana e Afro-Brasileira - Nei Lopes (Barsa Planeta Internacional)

Economia, administração e negócios
Valores Humanos & Gestão. Novas Perspectivas - Maria Luisa Mendes Teixeira (org.) (Editora Senac São Paulo)

Direito
Introdução ao Pensamento Jurídico e à Teoria Geral do Direito Privado - Rosa Maria de Andrade Nery (Editora Revista dos Tribunais)


Capa
Moby Dick - Luciana Facchini (Cosac Naify)

Ciências Naturais e Ciências da Saúde
Fundamentos de Dermatologia - Marcia Ramos-e-Silva e Maria Cristina Ribeiro de Castro (Editora Atheneu)


Fonte: Revista Cult

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Por baixo dos panos

A nova geração de jovens iranianos ensaia um "liberou geral", apesar da opressão do regime

14.07.2009 - Texto por Pedro Doria - Fotos Amir Farshad Ebrahimi




"Onde é a festa?”, perguntou Pardis. A iluminação no jardim, quase nenhuma. Àquela hora da noite, não era possível enxergar mais o desnível do gramado. Sua amiga Sanaz não respondeu. Pardis tropeçava aqui e ali, enquanto seguia as batidas abafadas de música tecno à frente. Foi aí que viu a casinha da grande sauna. O vapor saía pelas frestas, assim como uns salpicos da luz forte no interior. Sanaz tirou seu véu e insistiu que a amiga fizesse o mesmo. Aí desfez-se do mantô muçulmano. “Estamos seguras”, ela disse. A mansão pertencia a um clérigo da alta cúpula do regime iraniano – mas ele não estava, nem sua mulher. Quem dava a festa era sua jovem filha. A Polícia Moral do país não teria coragem de dar uma batida ali.

Entre 2000 e 2007, Pardis Mahdavi havia viajado todo verão para o Irã, terra de seus pais. Quando pisou pela primeira vez em Teerã e conheceu as primas de sua idade, tinha 21 anos. Falava fluentemente a língua persa, embora com um ligeiro sotaque que todos logo identificavam como americano. A vida em Teerã não era nada como imaginara. Esperava encontrar na terra dos aiatolás um mundo repressor – encontrou entre as primas e suas amigas mais liberdade do que ela, criada na comunidade do exílio nos arredores de Los Angeles, tivera. Descobriu o que ela, nos anos seguintes, passou a chamar de Revolução Sexual Iraniana. Mas nada do que vira até ali a preparara para aquela festa em sua última visita.

Eram 40 ou mais jovens. No meio da grande sauna, uma piscina esvaziada. Calor, vapor. Ecstasy rolava e a batida do tecno ensurdecia. Pardis encostou-se numa parede. Buscou sua amiga, mas ela estava abraçada a três homens que a beijavam e despiam. Todos nus. Sexo – sexo de todas as formas praticado ali na sua frente. Ainda vestida, a jovem antropóloga sentia calor, suava, sua roupa encharcada. Achou melhor ir-se embora, deixou a sauna e de longe viu a casa grande. Entrou pela porta da cozinha, bebeu um copo de água gelada. Um empregado a encontrou. Tinha a cara amarrada. “O que você quer?”, ele perguntou. “Um táxi”, ela disse. Ele pediu pelo telefone.



O choque entre o velho e o novo, o tradicional e o ocidentalizado no universo feminino iraniano



Revolução, jovens e sexo

Essa é a geração que, em junho, foi às ruas cobrar a fraude na reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, diante de aiatolás desesperados por algum controle. Dois terços dos iranianos têm menos de 30 anos, mais de 50% têm menos de 20. A idade média no país é 26. E eles querem liberdade.

Pardis foi criada como todos na comunidade iraniana que chegou aos EUA entre 1979 e 81, após a Revolução Islâmica que derrubou a ditadura laica do xá Reza Pahlavi. Ouviu por toda a vida que os fundamentalistas haviam tomado as rédeas e que não havia repressão maior do que aquela do Irã. E, no entanto, cresceu também ouvindo tudo o que uma “moça iraniana” não fazia. Adolescente, jamais pôde apresentar um namorado à família. Mas, apesar dos aiatolás, o país lá longe mudara enquanto comunidade no exílio parou no tempo. “Quando cheguei ao Irã pela primeira vez”, ela conta, “eu não conseguia entender minha identidade, se era americana, se era iraniana. Lá, descobri que a vida era normal, meus pais é que eram caretas.”

A história se impôs ao regime inaugurado pelo aiatolá Ruhollah Khomeini. A guerra entre Irã e Iraque matou tantos, entre 1980 e 88, que uma geração de homens desapareceu. Hoje, o Irã é jovem e antenado. Mesmo que a polícia moral quisesse prender todos, não conseguiria. “São eles, os jovens”, conta a antropóloga, “que chamam o que está ocorrendo de Revolução Sexual.” Pardis acaba de lançar um livro sobre as mudanças, um relato antropológico chamado Passionate Uprisings.

Uma revolução sexual não se faz apenas de sexo, amor e busca pela paz – ela tem características mais profundas. Um elevado número de mulheres com formação superior, por exemplo, que buscam espaço no mercado de trabalho. O Irã as tem em número cada vez maior. Revoluções sexuais também mudam a conversa. Sexo deixa de ser assunto tabu. Nas suas últimas visitas, quando já decidira escrever o livro, Pardis conversou com inúmeros pais de jovens. Encontrou-os mais francos do que seus próprios pais, nos EUA, que jamais falam sobre sexo.

Há duas vidas em Teerã. A primeira é aquela na rua. Os homens têm seus braços cobertos, usam barbas. As mulheres cobrem-se todas. Mas debaixo do mantô e do véu, há unhas pintadas, jeans justos – às vezes, minissaias. Aquilo que a vestimenta islâmica não revela num fingir-se religioso é apresentado no interior das casas e apartamentos. Nas festas, há concertos de rock, leitura de poesias, exposições. Dança-se à música alta.

Xaveco da Polícia Moral

Nem toda festa é como aquela da grande orgia, mas em toda há um quarto ou dois onde os casais se encontram. Sexo entre namorados se arranja. Mas, se a festa não é numa mansão cujo dono é do alto clero, a possibilidade de uma batida da Polícia Moral está sempre ali. Em sua primeira viagem, Pardis conheceu uma vítima: uma moça bonita, sentada ao seu lado no salão de beleza (todas as jovens em Teerã frequentam toda semana um salão). A moça fora flagrada num quarto, numa festa, com o namorado. Passou uma semana na cadeia. Carregava nos tornozelos e costas as marcas da chibata.



Mulher é detida pela polícia moral na capital Teerã





Num país com os índices demográficos do Irã, tudo muda muito rápido. Naquela sua última visita de 2007, ela vinha da festa com uma amiga, no carro. As duas tinham o proibido álcool no hálito, então o farol do carro atrás piscou e veio o terror: eram dois homens da Polícia Moral. Elas pararam, os dois jovens saltaram e se encaminharam. Não queriam levá-las para a prisão. Queriam seus telefones. Era uma cantada. Os velhos deixam a função e os jovens que a assumem vivem a mesma cultura do underground de Teerã.

Sexo casual é mais complicado para aqueles que não querem as orgias. Mulheres da alta classe do norte de Teerã tomam rumo da periferia ao sul para se encontrar com homens com quem não convivem socialmente. O mesmo fazem as meninas da periferia que vão ao norte. O sexo entre classes resolve o anonimato. Sexo entre mulheres também está ficando comum – mas, lá, as jovens sequer o veem como um flerte com a homossexualidade. É uma extensão natural da amizade discretamente apoiada por todos.

Na televisão, o presidente Ahmadinejad diz que não há gays no Irã. Ou proíbe que mulheres frequentem estádios de futebol. Mas, sem que ele possa controlá-la, a revolução sexual continua seu curso. “Um dia, essa garotada terá o comando do país”, diz Pardis. “É impossível prever as mudanças que eles trarão.”


Fonte: Revista Trip

"Aquarela do Brasil" - Pato Donald e Zé Carioca

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Glauber e Sarney

Documentário sobre a posse do governador do Maranhão, 1966.

O curta-metragem é de Glauber Rocha. Foi assim que tudo começou.

Fitna e o novo fascismo europeu

Europa · Islã · 30/03/2008 - 12h08

Fitna foi ao ar, na Internet, no último 27 de março, quinta-feira. Está causando algum rebuliço na web conservadora – e, como de hábito, alguns de vocês vêm me cobrando a notícia pelo email e pelas caixas de comentários. É um filme anti-islâmico de 15 minutos de responsabilidade do deputado holandês Geert Wilders.

E é uma espécie de Mein Kampf, de Protocolos dos Sábios do Sião.

O objetivo de Wilders, um político ultra-direitista, é mostrar que em vários trechos do Corão está a pregação da violência; e que muitos clérigos muçulmanos pregam a violência. O Islã é isso, ele quer dizer. É um filme sádico, com cenas da execução de reféns de terroristas que busca apresentar a fé seguida por 1 bilhão de pessoas no mundo como fundamentalmente má.

Não apenas a caracterização do Islã como o mal encarnado é simplista como também é errada. O Partido Libertário Popular holandês, que Wilders lidera, é a nova encarnação de um movimento tipicamente europeu. Não hesita em falsear a história com o objetivo de apresentar todo um povo como o responsável pelos males correntes.

Todas as suras que ele pesca do Corão, evidentemente, podem ser encontradas lá. O Corão não nega suas origens judaico-cristãs. Do Deuteronômio ao Livro de Josué ao Gênese, os livros sagrados de judeus e cristãos estão recheados de recomendações não só à violência contra quem é diferente e tem crenças diferentes como até ao genocídio. A história do cristianismo é uma de intolerância. E a do Islã está farta de momentos de tolerância.

É preciso compreender, sim, porque movimentos intolerantes islâmicos estão em alta no mundo. Não é por algo inerente à religião e sim por decisões equivocadas em série do Ocidente. Duas destas foram particularmente graves.

A primeira vem de princípios do século 20, quando o Império Britânico decidiu colocar os seguidores de uma seita minoritária que caminhava para a extinção no comando das cidades sagradas de Meca e Medina. Aos wahabitas da família Saud foram dados de presente, numa só canetada, a cidade que todo muçulmano tem que visitar ao menos uma vez na vida e as maiores reservas de petróleo conhecidas do mundo. Faz meio século que eles pegam o dinheiro do petróleo para financiar a construção de mesquitas em todo o mundo para divulgar sua visão arcaica e totalitária de uma religião muito mais variada do que isso. São mesquitas suntuosas que transformaram-se nas principais fontes de informação sobre o Islã no mundo.

Por que dar este presente aos Saud? Os britânicos tinham medo de dar tanto poder à família Hashemita, muito mais sofisticada, guardiões históricos de Meca e Medina, descendentes do profeta. Londres calculou que os Sauds seriam facilmente manobráveis.

O segundo erro grave é bem mais recente e recai sobre as mãos de um determinado grupo de estrategistas republicanos liderados por Dick Cheney e Donald Rumsfeld que tiveram poder nos governos Ford, Reagan e Bush, o atual. Com sua visão simplista que consideravam sofisticada do Oriente Médio fizeram uma política de identificar inimigos e financiar seus opositores. Assim, dinheiro aos sunitas para combater os xiitas do Irã. Dinheiro aos futuros Talibãs para combater a URSS. Dinheiro a Saddam Hussein para combater o Irã. Dinheiro aos sauditas, sempre. É assim que nasceu a al-Qaeda.

Não é apenas porque não compreende o Islã que o filme fascista holandês é simplista. É também porque considera os problemas dos jovens muçulmanos na Europa e no Oriente Médio equivalentes. Não são – e nem de perto.

Os rapazes que se juntam a grupos radicais ou terroristas no Oriente Médio não conhecem o Ocidente, foram criados no mundo islâmico e vivem, na maioria das vezes, sob ditaduras. Ali, cada país tem sua própria história.

Na Europa, os jovens radicais são em geral netos de migrantes. Já não falam o árabe – ou turco, ou seja lá o que for – familiar e nem se integraram à Europa. São vítimas de preconceito, são pobres. A volta à mesquita que seus pais abandonaram é uma busca por raízes. Juntam-se a grupos radicais como jovens de origem mexicana se reúnem em gangues em Los Angeles. E recorrem à violência. Em alguns casos, se transformam em criminosos, evidentemente. Mas achar que o Islã é o que os leva à violência é um erro. O Islã é a desculpa. Um jovem violento neto de marroquinos na Holanda e um militante do Hamas e um jovem Talibã não têm muito em comum.

Como é típico dos políticos fascistas, Wilders é também demagogo. Não foi por querer divulgar suas idéias a respeito do Islã que fez Fitna. Foi para provocar. Quer uma reação, quer bandeiras queimadas. Quer aparecer. E sabe que tem chances.

Logo no início do filme, apresenta a caricatura dinamarquesa de Maomé com o turbante bomba. Kurt Westergaard, o cartunista que o desenhou, está cogitando processar por quebra dos direitos autorais. Enquanto isso, o Partido Nacionalista Tcheco ofereceu solidariedade ao deputado cineasta. Partido Nacionalista Tcheco? Defendem pureza racial e tudo.

Ainda sobre o assunto:

1. Racismo europeu entre o Holocausto e o Islã - Noah Feldman, do Council of Foreign Relations e da Escola de Direito de Harvard, não é o primeiro a sugerir...

2. Islã globalizado e os terroristas convertidos - Um estudo alemão, publicado pela revista Der Spiegel, indica entre a metade de 2004 e a metade de 2005, 4.000...

3. A Guerra ao Terror está sendo vencida? - Fareed Zakaria, editor de política externa da Newsweek e fera quando o tema é Islã, faz uma provocação: o terror...


Fonte: Blog Pedro Dória

Veja os vídeos:




Produtora de cinema no Catar planeja filme sobre Maomé

Mesquita Jama Masjid, em Nova Delhi (foto de arquivo) - Segundo produtora, objetivo do projeto é educar sobre o Islamismo








Uma empresa produtora de filmes do Catar, pequeno e rico país na região do Golfo Pérsico, anunciou que pretende fazer um filme sobre o profeta Maomé.

Com orçamento em torno de US$ 150 milhões, o filme deverá ser falado em inglês e produzido pelo americano Barrie Osborne, homem por trás de sucessos de bilheteria como as séries O Senhor dos Anéis e Matrix.

Segundo a produtora, o objetivo do projeto é educar as pessoas a respeito do Islamismo e corrigir idéias errôneas sobre o profeta.

O analista de assuntos árabes da BBC, Magdi Abdelhadi, disse que o filme é mais um em uma série de projetos de mídia lançados nos últimos anos com um objetivo: defender o islamismo contra seus detratores no Ocidente.

A empresa que deverá financiar o filme disse que o roteiro estará pronto no ano que vem e que as filmagens devem começar no ano seguinte.

Um estudioso do islamismo, Youssef Al Qaradawi, foi contratado para orientar a equipe de pesquisa para assegurar precisão histórica e religiosa.

Ele disse que o filme será uma oportunidade para ressaltar a mensagem do profeta, de paz para todo o universo.

Desafio

O produtor, Barrie Osborne, disse que o projeto será um desafio, já que a religião islâmica proíbe qualquer representação visual do profeta Maomé.

O analista da BBC lembra que a idéia de que a fé islâmica está sob ataque e não é compreendida no ocidente é antiga, mas ganhou nova urgência nos últimos anos com a invasão do Afeganistão e do Iraque, liderada pelos Estados Unidos.

A polêmica em torno de cartoons com imagens do profeta publicados por um jornal dinamarquês também reacendeu entre os muçulmanos o sentimento de que sua religião é tratada com injustiça e incompreensão.

O novo filme seria o segundo desse tipo, direcionado primariamente ao público global, com o intuito de atacar o chamado preconceito ocidental.

Em 1976, o filme Maomé - O Mensageiro de Alah, estrelado por Anthony Quinn, foi lançado em meio a acusações de que o violava a proibição de representações do profeta.

Na verdade, não violava, diz o analista da BBC. Quase 30 anos mais tarde, o diretor do filme, o sírio Mostafa Al-Aqqad, foi uma entre várias outras vítimas de um múltiplo ataque suicida por militantes islâmicos na Jordânia.


Fonte: BBC Brasil

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

FRANCIS BACON - Pintor




Francis Bacon (28 de Outubro de 1909 - 28 de Abril de 1992) foi um pintor anglo-irlandês de pintura figurativa. Foi descendente colateral de Francis Bacon, filósofo do Período Elisabetano. Seu trabalho é mais conhecido como audaz, austero, e freqüentemente grotesco ou imagem de pesadelo.
Índice

Início da vida

Francis Bacon nasceu em Dublin de pais ingleses. Seu pai, Eddy Bacon, foi um veterano da Segunda Guerra dos Boêres e se tornou um treinador de corrida de cavalos. Sua mãe Winnie, herdeira de um negócio de aço e de uma mina de carvão, era notável pela sua natureza saliente, gregária, um total contraste em relação ao seu marido. Francis foi cuidado pela enfermeira da família, Jessie Lightfoot. Uma criança asmática e com muita alergia a cães e cavalos, Bacon muitas vezes teve que tomar morfina para aliviar seus sofrimentos durante os ataques. A sua família mudou muitas vezes de casa, e durante esse período mudou-se entre a Irlanda e a Inglaterra, levando a um sentimento de displicência que permaneceu com o artista durante toda a sua vida. Em 1911 a família morou em Cannycourt House, próximo a Kilcullen, no Condado de Kildare, mas posteriormente mudou-se para Westbourne Terrace, em Londres, próximo a onde Eddi Bacon trabalhou Exército Territorial.

Abbeyleix

Retornando a Irlanda após a Primeira Guerra Mundial. Bacon foi enviado para viver um tempo com sua avó maternal, Winifred Supple, e seu marido Keery, em Farmleigh, Abbeyleix, Condado de Laois. Eddy Bacon depois comprou Farmleigh de sua sogra, até seu filho se mudar novamente para Straffan Lodge, Naas, Condado de Kildade, o lugar onde seus pais nasceram. Embora Francis tenha sido uma criança tímida, ele adorava se vestir bem. Isso, junto com sua maneira afeminada, freqüentemente enfurecia seu pai, o fez se criar uma distância entre dois. Em 1924 seus pais se mudaram para Gloucestershire, primeira para Prescott House em Gotherington, depois para Linton Hall, situado próximo a Herefordshire. Francis passou dezoito meses na Dean Close School, Cheltenham, de 1924 a 1926. Isso foi sua única experiência com educação formal de pintura, pois ele saiu semanas depois.

Em uma festa a fantasia na quinta casa da família em Cavendish Hall, Suffok, Francis se fantasiou de Flapper as roupas próprias, batom, salto alto e um cigarro longo.

Em 1926 sua família voltou para a Irlanda, em Stranffan Lodge. Sua irmã, Ianthe recordou que Bacon fez desenhos de mulheres com chapéus Clochês e longos cigarros. Após esse ano, Francis foi banido de Straffan Lodge seguindo um incidente em que seu pai o viu se admirando em frente ao espelho usando as roupas de baixo de sua mãe.

Londres, Berlim e Paris

Bacon passou o outuno e o inverno de 1926 em Londres, com a ajuda de £3 por semana que sua mãe enviava, vivendo uma vida simples, e lendo Nietzsche. Para incrementar suas economias, ele trabalhava como empregado doméstico, mas apesar de ele gostar de cozinhar, ele se tornou logo entediado e resignado. Ele foi demitido de um emprego de atendente telefonista de uma loja de roupas femininas em Poland Street, Soho, depois do dono do estabelecimento receber uma carta anônima. Ele descobriu que ele atraia homens ricos, uma atração que ele estava tirando vantagem, tendo desenvolvido um bom paladar para vinho e comida. Um dos homens era um ex-militar do exército amigo do seu pai, outro criador de cavalos de corrida, com nome de Harcourt-Smith. Bacon depois reivindicou que seu pai pediu a seu amigo para transformá-lo em um "homem". Francis teve uma difícil relação com seu pai, uma vez admitindo que estavam tendo uma relação. Indubitavelmente, Eddy Bacon sabia da fama de seu amigo de viril, mas não da sua atração por homens jovens.

Na primavera de 1927, Bacon foi levado por Harcourt-Smith para a opulenta, decadente Berlin da República de Weimar, ficando juntos no Hotel Adlon. Foi assim que Bacon viu o filme Metropolis de Fritz Lang.

Bacon passou dois meses em Berlin, enquanto Harcourt-Smith passou apenas um - "Ele logo ficou cansado de mim, claro, e foi embora com uma mulher... Eu realmente não sabia o que fazer, então eu fiquei por mais um tempo, e depois, quando consegui juntar um pouco de dinheiro, decidi ir para Paris.". Bacon passou o próximo ano e meio em Paris, onde conheceu Yvonne Bocquenti, pianista e connoisseur, na abertura de uma exposição. Ciente de necessidade de aprender francês, Bacon viveu três meses com a Madame Bocquentin e sua família na sua casa próximo a Chantilly. No Château de Chantilly (Musée Condé) ele viu o quadro O Massacre dos Inocentes de Nicolas Poussin, uma pintura que ele se referiu várias vezes posteriormente em seu trabalho. De Chantilly, ele esteve em uma exibição que o inspirou decididamente para pintar. A visita a uma exibição de 1927 com 106 pinturas de Picasso na Galeria Paul Rosenberg, despertou o seu interesse artístico. Bacon frequentemente apanhava o comboio para Paris, cinco vezes ou mais durante a semana, para ver exposições de artes; Bacon viu o filme épico de Abel Gance Napoleão na Paris Opéra na sua premiação em abril de 1927. No outono de 1927, Bacon ficou no Paris Hôtel Delambre in Montparnasse.

Vida e obra

Este artista irlandês de nascimento, tratou com uma extraordinária complacência alguns temas que continuam a chocar a nossa vida em grupo. As fantasias masoquistas, a pedofilia, o desmembramento de corpos, a violência masculina ligada à tensão homoerótica, as práticas de dissecação forense, a atracção pela representação do corpo (um especial fascínio pelos fluidos naturais, sangue, bílis, urina, esperma, etc.) e, no geral, com tudo o que está directamente ligado à transgressão seja relacionada com o sexo, a religião (são paradigmáticos os seus retratos do Papa Inocêncio X que efectuou a partir da obra de Diego Velázquez) ou qualquer tabu, foram as peças com as quais Bacon construiu a sua visão "modernista" do mundo.








Nasceu em 28 de Outubro de 1909, em Dublin e sofria de asma. Esta debilidade irritava seu pai, um homem rude e violento, que o costumava chicotear para o "fazer homem". Devido a isto Bacon criou um comportamento de oposição a seu pai. Uma infância difícil, que sempre o influenciou na sua arte e lhe inspirou um certo desdém por essa Irlanda de sua infância, tal como Oscar Wilde e James Joyce.

A sua primeira exposição individual na Lefevre Gallery, em 1945, provocou um choque e não foi bem recebida. Toda a gente estava farta de guerra e de horrores, só se falava da "construção da paz" e as imagens de entranhas dos quadros de Bacon, com os seus tons sanguíneos, provocaram mais repulsa do que admiração.

Como homem do seu tempo, Bacon transmitiu a ideia de que o ser humano, ao conquistar e fazer uso da sua própria liberdade, também liberta a besta que existe dentro de si. Pouca diferença faz dos animais irracionais, tanto na vida - ao levar a cabo as funções essenciais da existência como o sexo ou a defecação - como na solidão da morte; representando o homem como um pedaço de carne.

A sua obra esteve em exposição, em Serralves, em 2003.

Leilões

Mulher Sentada




Em Paris a 12 de Dezembro de 2007, a Sotheby's leiloou a obra Mulher Sentada avaliada entre 7,5 e 10 milhões de euros.

O quadro é o retrato de uma mulher, Muriel Belcher (Fundadora do clube privado de bebida Colony Room em Londres) , quase enrolada numa cadeira partida, pertencente a um coleccionador norte-americano.

Tríptico







A obra Tríptico, datado de 1976, foi comprado em Maio de 2008 em Nova Iorque em leilão por cerca de 53 milhões de euros por um coleccionador privado.

Foi a mais cara pintura moderna do mundo.


Fonte: Wikipedia

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

"House Of The Rising Sun" por Nina Simone

Jazz com molho europeu

Nos últimos anos, a cena musical da Europa virou o jogo e passou a influenciar um gênero até então dominado pelos americanos.

Por João Marcos Coelho, para o Valor, de São Paulo
23/10/2009


Foto Destaque











Juliette Gréco, musa do existencialismo francês, em 1971: Miles Davis tocava Bach só para ela no banheiro de sua suíte de hotel

O primeiro grande violinista do jazz americano mentiu durante muitos anos sobre sua nacionalidade. Joe Venuti assegurava que havia nascido na Filadélfia; a quem o apertava, confessava que nascera em alto-mar, na viagem para a América, em 1903. Na verdade, nascera mesmo na Itália, mas tinha vergonha de ser jazzman sem ser americano. Afinal, o jazz era, como vários críticos acentuaram, "a verdadeira música clássica da América". Mas não foi só ele. O excelente guitarrista Salvatore Massarano, contemporâneo seu, nasceu de fato na Filadélfia em 1903, mas adotou o nome artístico Eddie Lang.

Durante décadas, a Europa exportou músicos para os Estados Unidos. Os maestros, compositores e instrumentistas clássicos ditaram regras nas salas de concerto e nas universidades na primeira metade do século XX. Já os músicos populares se aculturaram como puderam.

O ótimo "Play Your Own Things", DVD recém-lançado no mercado internacional pela EuroArts, conta de modo divertido e profundo o outro lado da história do jazz: aquele que ocorreu na Europa, para onde afluíam, aos magotes, dezenas de grandes músicos de jazz americanos em busca de plateias mais devotadas e um mercado seguro para sua arte. Um movimento que se iniciou ainda nos anos 20, quando o saxofonista Sidney Bechet mudou de mala e cuia para Paris, na mesma leva de Josephine Baker, a musa erótica do Moulin Rouge. E prosseguiu nas décadas seguintes, sempre numa avenida de mão única: os americanos fixavam-se em países europeus e ensinavam o jazz aos jejunos europeus.

Mas não há mal que sempre dure nem bem que não se acabe. O filme combina depoimentos (muitos) com trechos musicais (poucos) para contar essa história em dois tempos. Até os anos 70 do século passado, grandes nomes como o pianista Bud Powell e o baterista Kenny Clarke, sumos sacerdotes do bebop do pós-guerra, dominaram a cena parisiense.

Um dos momentos mais emocionantes é o depoimento extenso de Juliette Gréco, a musa do existencialismo francês nos anos 50. Conservada, ela ainda exibe traços da deusa erótica que enfeitiçou o filósofo Jean-Paul Sartre e o trompetista Miles Davis, com quem teve um explosivo caso amoroso em Paris. Ela conta candidamente como ele tocava Bach só para ela, no banheiro de sua suíte de hotel. Sartre chegou a sugerir a Miles que se casasse com Juliette. Ela mesma conta que o trompetista lhe respondeu: "Eu a amo e não quero fazê-la infeliz. Mulher branca que casa com músico negro nos Estados Unidos é tida como p...".

Entre os anos 20 e os anos 70, jazzmen americanos cansaram de dar lições para os candidatos europeus a músicos de jazz. Mas no último quarto de século o pêndulo virou. "Conhecer é imitar", diz o pianista Joachim Kuhn, nascido em Leipzig em 1944. Ele foi pianista clássico, mas nos anos 60 tentou o jazz; participou de um concurso de jazz promovido por Friedrich Gulda em Viena e foi notado por empresários americanos, que o levaram para Nova York. Ele completa o raciocínio: "Imitei Bobby Timmons, Bill Evans, McCoy Tyner, Cecil Taylor. Até que compreendi: isso aí não sou eu. Sentei-me então ao piano e deixei a mão escorrer, sem minha cabeça interferir".

Louis Sclavis, o notável clarinetista francês de 56 anos, dá a chave: "Até o free jazz [movimento dos anos 60 de improvisação livre total, iniciado por Ornette Coleman], você tinha de aprender o idioma do jazz. Ali sacamos que cada um tem o direito de soltar a sua voz". Kuhn, que cresceu sob o regime repressivo da Alemanha Oriental, concorda: "Com o free, os europeus encontraram sua voz pessoal". Nesse momento - aos 67 minutos de um DVD total de 90 -, acontece uma extraordinária performance-solo de 2 minutos: Sclavis tira sons inimagináveis de uma clarineta-baixo, primeiro sem o bocal, depois de modo mais convencional.

Esse foi o título de uma reportagem de capa da mais antiga revista de jazz americana, a "DonwBeat", em 2006. Uma constatação tardia, num momento em que os cruzamentos já não são lineares, fertilizam todas as culturas. Os pianistas Bobo Stenson e Tord Gustavsen são respectivamente sueco e norueguês - mas poderiam ser chamados de "genéricos" (excelentes, é verdade) de Keith Jarrett. Este, por sua vez, fez um refinado processo de transplante cultural, saindo quase imperceptivelmente do universo jazzístico mais estrito para o do recital de piano-solo erudito (ele ainda mantém seu Trio Standards, de jeitão convencional e muitíssimo bom, mas a sua porção criativa, como diria Gilberto Gil, está mesmo nos recitais de piano-solo, o último dos quais lançado neste mês, o álbum triplo "Paris/London").

Nessa quadrilha jazzística, vocês podem perceber, ninguém perde, todo mundo ganha. Os europeus, por finalmente se libertarem do complexo de vira-lata do jazz. Perdemos o medo, diz o saxofonista inglês Trevor Watts: "Para mim, tudo o que é convencional é sinônimo de ausência de risco - e isso não me interessa. Ceder ao convencional é perder o verdadeiro espírito do jazz: a individualidade do músico é que faz avançar a música".

Há algumas cenas das quais participa o produtor alemão Manfred Eicher, fundador da gravadora ECM de Munique. O trompetista polonês Thomasz Stanko concorda com o brasileiro Egberto Gismonti, que considera um privilégio trabalhar com ele: "Tê-lo ao meu lado e não levar em conta suas sugestões é como tocar com Keith Jarrett e não dar-lhe a chance de fazer um solo". De fato, Eicher é um virtuose da produção de música improvisada, e não é por acaso que sua gravadora construiu um caleidoscópio expressivo do jazz à europeia.


Fonte: Jornal "Valor Econômico" de 23.10.2009


Lançada Coleção Digital de Obras Raras da Biblioteca do Senado

"Esse é um avanço extraordinário: estamos colocando a Biblioteca do Senado, a começar por parte de suas obras raras, à disposição do país". Foi dessa forma que o presidente do Senado, José Sarney, saudou o lançamento da Coleção Digital de Obras Raras da Biblioteca Acadêmico Luiz Viana Filho, ocorrido na noite de ontem, 27/10, na própria biblioteca.

Durante a solenidade, também foi anunciada a integração da Biblioteca do Senado ao Catálogo Internacional Coletivo de Registros Bibliográficos, o WorldCat, a maior rede global de bibliotecas. Foi distribuído entre os presentes um DVD com o conteúdo integral, incluindo animações, do livro Novus Orbis, de 1633, considerado um dos primeiros relatos minuciosos sobre o Brasil.

O presidente José Sarney disse não acreditar nas previsões do fim do livro, após o surgimento do seu similar eletrônico. Ele assinalou que não é contra o livro eletrônico ou os avanços tecnológicos, porém opinou que o livro em papel jamais desaparecerá e o classificou como a mais avançada tecnologia que o homem já descobriu.

"Primeiro ele não precisa de energia. Segundo, é de uma praticidade extraordinária: ele cai e não quebra, não precisa de conserto que não seja os de sua conservação e tem todos os programas que se possa pensar e imaginar. Até os que descobriram essas novas tecnologias começaram a descobri-las através do livro" - afirmou José Sarney.

A solenidade foi aberta com o pronunciamento da coordenadora-executiva do Programa Senado Cultural, Ana Claudia Badra. Ela lembrou que o lançamento, no ano passado, do manuscrito de O Quinze, de Rachel de Queiroz - graças a uma parceria entre o Senado Cultural e a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin - serviu para mostrar que o caminho da digitalização das obras era inadiável.

A diretora da Biblioteca, Simone Bastos Vieira, explicou que a integração ao WorldCat, a maior rede global de bibliotecas, dará visibilidade completa ao acervo do Senado, pois permitirá que os internautas façam buscas no acervo da Casa através de pesquisas em populares mecanismos de busca como o Google e o Yahoo.

Simone Vieira disse ainda que a Biblioteca do Senado vai oferecer na internet a parcela mais valiosa de seu acervo: 340 dos 6,5 mil títulos que compõem a coleção de Obras Raras. Os livros foram digitalizados e já estão disponíveis em formato eletrônico no site da Biblioteca Digital (clique aqui).


Fonte: Site Migalhas

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

"´Round Midnight" por Thelonius Monk

O mestre da discordância

Edição que celebra os 50 anos de "Formação Econômica do Brasil" sugere motivos para se ler, ou reler, o mais conhecido livro de Celso Furtado.

Por Cyro Andrade, de São Paulo
16/10/2009


Nelson Perez / Valor

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Furtado: sempre interessado no desenvolvimento, aquele que não se faz somente com crescimento e impõe responsabilidade moral aos economistas








É de sóbria sofisticação a capa dura azul marinho, à qual se sobrepõe um retângulo branco com o título e a imagem vazada em traços finos do rosto de Celso Furtado (1920-2004), reprodução de um desenho de Samson Flexor feito a bordo do "Le Jamaique", quando ambos vinham da França, em 1948. Lá pelo meio das 568 páginas sobressai aquele feixe de fotografias que em livros de algum modo evocativos, como este, comemorativo dos 50 anos da primeira edição de "Formação Econômica do Brasil", ganham primazia de atenção. Atraem pela possibilidade de, por meio das imagens, chegar-se a detalhes dos personagens e de suas épocas que somente a leitura, supõe-se, não deixará perceber. Vale a pena tomar essa iconografia como preâmbulo do percurso que se fará depois pelos textos que se conjugam em homenagem, sob diferentes formas, a Furtado - inclusive nas críticas. Pela ordem, tem-se a reedição do original de "Formação" (294 páginas), a apresentação que sua mulher, Rosa Freire d´Aguiar Furtado, faz da edição comemorativa, a introdução escrita por Luiz Felipe de Alencastro e a fortuna crítica, constituída por 21 comentários a respeito do livro, publicados ao longo dos últimos 50 anos. Estão ali, entre outros (nem sempre aplaudindo), Nelson Werneck Sodré, Paul Singer, Fernando Novais, Francisco Iglesias, Warren Dean, Ignacy Sachs, Hans Werner Tobler, Werner Baer, Francisco de Oliveira, Tamás Szmrecsányi, Maurício Coutinho.

A primeira fotografia mostra Furtado aos 18 anos, com os pais e seis irmãos, em 1938. No final da série de imagens pessoais está seu rosto numa tomada em "close", feita no Rio de Janeiro em 1998. Ele viveria ainda seis anos. Na sequência desse modo organizada, Furtado não "morre", por assim dizer, porque a cronologia natural dos flagrantes foi subvertida: suas últimas fotografias, feitas em Paris e no Rio, em 2004, vêm antes. Dilui-se a informação visual do desenlace. A imagem final, depois daquela de 1998, é de uma página manuscrita de "Formação". Fica a sugestão, ou a impressão, para quem preferir, de que Furtado "permanece", representado em "Formação", seu livro mais conhecido: 34 edições, traduzido para 9 línguas (espanhol, inglês, polonês, italiano, japonês, francês, alemão, romeno e chinês), 350 mil exemplares vendidos no Brasil e algumas edições especiais, como esta comemorativa da primeira publicação, em janeiro de 1959, pela editora Fundo de Cultura.


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Celso Furtado com o presidente John Kennedy, na Casa Branca, em julho de 1961, durante viagem em que expôs os projetos do governo brasileiro para o desenvolvimento do Nordeste







As apreciações contidas nas críticas transcendem a importância inerente à qualificação dos autores, para dar ao conjunto que formam com o texto de Furtado um sentido de aparato revitalizador do entendimento de sua obra e de sua relevância na história do pensamento econômico brasileiro.

Para alguém se interessar por Furtado e suas ideias não será preciso gostar dele como intelectual ou como homem público. Queira-se ou não, esteja-se à "esquerda" ou à "direita" das preferências ideológicas ou políticas, não se escapa à inevitabilidade do reconhecimento de que se trata de um nome definitivo na bibliografia do desenvolvimento - conceito que ele preferia representar assim, em palavra solteira, mas de significado social e político amplo.

"A ideia de que pode haver crescimento sem desenvolvimento sempre esteve no centro de minha reflexão teórica", diz Furtado em ensaio sobre "A responsabilidade do economista", num pequeno livro de 2002 ("Em Busca de Novo Modelo", Paz e Terra). Essa responsabilidade será fundamentalmente moral e exercida num processo criativo consciente, nutrido por valores universais e confiança na liderança de forças sociais, afirma Furtado. E de si mesmo: "Hoje posso dizer que fui um heterodoxo. E acrescentar que as heterodoxias, assim como as heresias, desempenham importante papel na história dos homens. Quando o consenso se impõe a uma sociedade, é porque ela atravessa uma era pouco criativa". E, relembrando as próprias escolhas, aconselha: "Ao se afastar do consenso, o jovem economista perceberá que os caminhos já trilhados por outros são de pouca valia. Logo notará que a imaginação é um instrumento de trabalho poderoso, e que deve ser cultivada. Perderá em pouco tempo a reverência diante do que está estabelecido e compendiado. E, à medida que pensar por conta própria, com independência, conquistará a autoconfiança e perderá a perplexidade" [diante das disparidades entre o que aprende do saber convencional e a realidade].

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Celso Furtado, em 1971, ao lado da faculdade de economia da Universidade de Paris, onde ensinou por 20 anos. Ali havia se doutorado, em 1948, com tese sobre a economia colonial brasileira







Suas opções deram frutos. Já disse Maria da Conceição Tavares que "ninguém ficou imune a um Furtado", em depoimento para "Conversas com Economistas Brasileiros" (Editora 34, 1996, com organização de Ciro Biderman, Luis Felipe L. Cozac e José Marcio Rego). De Antonio Delfim Netto, "Formação" mereceu este comentário no mesmo livro: "Uma espécie de romance, um livro extraordinário por causa da forma. Aquela interpretação integral, global, transmite uma lógica para a história que é absolutamente fantástica". Na apresentação da edição comemorativa, Rosa também cita Roberto Campos, que, "mais contido", dizia a respeito de "Formação": "Bastante importante, conquanto haja várias interpretações históricas equivocadas".

Com "Formação", Furtado não pretendia dar ao tema a inteireza abrangente e conclusiva que muitos lhe cobram. Já no prefácio, ele explica que ali se encontraria "tão somente um esboço do processo histórico de formação da economia brasileira". Em 1989, em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo", lembra Rosa, Furtado classificaria o livro como "algo mais perto de uma introdução, em estilo de ensaio": "A ideia original foi escrever um livro que explicasse o Brasil aos não brasileiros. Trabalhando nas Nações Unidas sobre outros países, surpreendia-me a inexistência de livros que me ajudassem a entendê-los. Daí a visão global e a preocupação de inserir a realidade brasileira no contexto internacional, desde o começo de nossa história." Trinta anos depois da primeira edição, período em que muito já se falara de seu livro, Furtado dizia na mesma entrevista que, se tivesse que reescrevê-lo, "nada tiraria do que lá está". Acrescentaria, sim, "alguma coisa, dando mais peso ao século XIX na definição do que veio a ser o Brasil atual".

O historiador Nelson Werneck Sodré (1911-1999) fala de "Formação" como "livro de fôlego, visão de conjunto, em que o autor dá o melhor de seus conhecimentos", depois de lembrar que, "nos trabalhos que publicou até agora, nenhum deles abaixo de um nível de qualidade significativo, [Furtado] ofereceu sempre uma ampla perspectiva à compreensão dos problemas". Mas faz reparos. Em sua opinião, revelam-se no livro "duas deficiências que são traços característicos da economia ortodoxa, entre nós, muito mais do que da pessoa do autor: a dificuldade em transmitir o saber e a precariedade do conhecimento fora do campo específico". E adiante: "Esses dois traços marcam fundo a economia ortodoxa e correspondem ao distanciamento em que ela se mantém, a sua aparente superioridade teórica e um certo arrivismo que é suficientemente 'gauche' para atingir as raias da presunção. Isso não se refere ao autor do livro, mas ao grupo, evidentemente. O autor merece outro tratamento, pela sua inegável categoria intelectual".

De todo modo, Werneck Sodré vê em Furtado alguém que, "fazendo história - trata-se do desenvolvimento da economia brasileira no decorrer do tempo histórico - não domina as fontes e revela mesmo desprezo por elas". Não caberia dúvida: "Quem cita Antonil pelas citações de [Roberto] Simonsen, e até mesmo Gama Barros, não teve a menor preocupação em estudar história. Ora, sem conhecimento histórico não há como desenrolar o desenvolvimento do progresso material. O autor confessa isso, entretanto, com aquela candura que marca a ingenuidade, a total inocência, a suficiência tranquila que leva ao desastre. Porta-se como quem diz: 'Sei economia, e é quanto basta - história é para leigos'. Não é - e aí está o erro de um homem inteligente. E é pena, porque se trata de um grande autor, e de uma grande obra".

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Celso Furtado com San Tiago Dantas (à esquerda), ministro da Fazenda do governo João Goulart, em 1963. O economista teria os direitos políticos cassados poucos meses depois

A questão das referências bibliográficas e documentais na obra de Furtado tem crítica especialmente detalhada em artigo que Tamás Szmrecsányi (1936-2009) publicou em 1999, com o título "Sobre a formação de 'Formação Econômica do Brasil'". O economista e sociólogo, renomado estudioso da história econômica e do desenvolvimento científico e tecnológico, atribui a "Formação" qualidades de "um clássico no sentido literal da palavra, uma obra pioneira e referencial da nossa historiografia econômica". Adiciona, porém, a ressalva de que, "devido a seu caráter extremamente sintético, não é de fácil assimilação para os que carecem de adequado preparo econômico e/ou histórico" - vazio que talvez pudesse ser preenchido com o auxílio das faltantes referências bibliográficas e documentais. Algumas delas Szmrecsányi julga ter encontrado e identificado na tese de doutorado de Furtado ("L´économie coloniale brésilienne - XVIe e XVIIe siècle"), até hoje inédita, da qual possuía uma cópia.

Szmrecsányi refere-se ao Celso Furtado que pensa e escreve após voltar da França, em 1948, onde se havia doutorado em economia pela Universidade de Paris, e como economista da recém-criada Cepal - Comissão Econômica Para a América Latina, da ONU. Sua "visão do mundo" torna-se então "essencialmente